Quem tem medo dos robozinhos?
Segunda-feira, 20 de maio de 2019

Quem tem medo dos robozinhos?

O Brasil ainda se encontra na 72ª posição no ranking mundial de inclusão digital. A democratização dos dados é lenta mas pode ser uma realidade se quebrarmos os tabus da coleta e análise de dados

Por Letícia Castor

 

Quando falamos de dados, ferramentas analíticas, suas métricas e todo o escopo envolto neste cenário, existem, a grosso modo, dois principais caminhos para os quais esta discussão pode seguir: o receoso e o da gestão de riscos.

Obviamente, o receio da população em relação a este novo universo é perfeitamente justificável. Dados nada mais são do que as nossas singulares e intransponíveis informações. São nossa música favorita, nossas refeições diárias e nosso extrato bancário do mês. Dados são a nossa representação na esfera digital. E isso pode ser perigoso. Pode não, é.

Tanto Edward Snowden em meados de 2013 quanto o CEO da maior rede social do mundo, Mark Zuckerberg e seus recentes escândalos de vazamento de informações de usuários, tem reafirmado a necessidade de extrema cautela no manuseio dessas informações. Mas, e se ao invés de colocarmos casos como estes sob uma ótica exclusivamente protecionista, tentássemos algo novo, algo com um viés mais progressista sobre a situação?

Precisamos, antes de tudo, entender que a transformação não é uma ameaça difusa da qual precisamos correr como num filme de ficção científica. Ela está se tornando cada dia mais parte da nossa realidade, pura e simples. E ela veio para ficar. A questão a ser posta na mesa é como iremos encarar este novo desafio.

Para corroborar estas afirmações, vejamos alguns – isso mesmo – dados a respeito: um relatório da Forbes (2017) mostrou que 71% dos executivos do mundo todo já se utilizam de artifícios como Inteligência Artificial para, no mínimo, metade de suas tomadas de decisões.

O mesmo relatório também revela que 60% destas decisões são para planejamentos a longo prazo no contexto empresarial. No entanto, dos mesmos executivos entrevistados, 27% deles disse que a falta de preparo é o maior impeditivo para o avanço na área de coleta e análise de dados em suas empresas. Percebe?

Este gap está tentando nos dizer alguma coisa. Precisamos saber interpretá-lo.

Outros dados, desta vez da consultoria International Data Corporation, indicam que até 2020 o investimento em transformação digital na América Latina já estará na casa dos R$ 57 bilhões. Além disso, a pesquisa também trouxe outra leitura curiosa: 50% dos aplicativos já utilizará Inteligência Artificial até 2020, o que acarretará em ao menos metade da população já interagindo com a ferramenta. Isso sem mencionar que a pesquisa prevê que 50% dos varejistas já estarão aplicando-a também.

E o que todos esses dados dispersos querem nos dizer? Varejo, aplicativos cotidianos e afins? Que a mentalidade de que a coleta de dados é um mecanismo exclusivo de grandes conglomerados de tecnologia e negócios precisa ser revista o quanto antes. O que, é claro, não significa que devamos encorajar o compartilhamento desordenado de informações sem o mínimo de cautela ou critério. Significa que a inclusão digital não é mais uma tendência e sim uma necessidade de caráter emergencial para a sociedade.

A pesquisa da TIC Domicílios também trouxe à luz outro indicador preocupante: embora estejamos habituados a ver todos com dispositivos móveis em mãos o tempo todo, 46% da população brasileira ainda é totalmente desconectada. As regiões Norte e Nordeste lideram nesta concentração. E pensar em pessoas que não estejam nem ao menos parcialmente inseridas na esfera digital hoje é algo quase que inconcebível. Mas por que?

Não pela ausência nas redes sociais ou coisa do tipo. Mas pelo total distanciamento de tudo que está sendo feito para a melhoria na vida em sociedade por meio deles – sim, os dados!

Aqui, podemos ilustrar com exemplos das mais variadas esferas de atuação: o aplicativo Waze, por exemplo, é construído de forma contínua e colaborativa à partir do momento em que o usuário permite que a sua localização seja compartilhada em tempo real. Assim, coisas como acidentes nas vias são reportados, áreas de concentração de tráfego, qual passagem está bloqueada ou não, etc. E hoje ele é o aplicativo de mobilidade urbana mais popular do mundo.

Contamos também com fintechs que miram na população desbancarizada [1] para incluí-las no sistema financeiro, aplicativos de educação financeira e, indo cada vez mais longe, softwares como o brasileiro Find People e o russo NTechLab, que aplicam Machine Learning e biometria facial para encontrar pessoas desaparecidas e identificar padrões comportamentais de criminosos através de suas expressões faciais, respectivamente, também estão reescrevendo o que as máquinas podem fazer por nós.

Podemos olhar também para como grandes empresas estão gerindo essa nova realidade. Muitas delas já usam métricas de dados para escolher onde seus ativos financeiros serão aplicados em termos de sustentabilidade. Negócios dependem de recursos tanto quanto dependem de pessoas. E ferramentas como a análise preditiva têm prestado um papel imenso dentro desta dinâmica.

Outra questão é o viés inconsciente. Podemos não o identificar logo de cara mas certamente todos possuímos um. Para remediar esta situação, o universo jurídico também já utiliza da Inteligência Artificial com suas ferramentas analíticas, dado que decisões judiciais e formulações de contrato, por exemplo, frequentemente são estruturados de acordo com a predileção do fator humano envolvido no processo.

Mas, logicamente, existe o outro lado também, como o algoritmo de recrutamento da Amazon que descartava candidatas e as impedia de serem selecionadas para processos seletivos. Esta máquina foi programa com um viés de natureza totalmente humana e a reproduziu em larga escala. E este não foi o único escorregão da Amazon no quesito: em 2016, a agência de notícias Bloomberg revelou que em bairros predominantemente negros, a entrega raramente era feita no mesmo dia. E não por conta do fator humano, e sim, pelo encaminhamento do pedido dentro do seu sistema.

Realmente, o perigo é imenso, mas não esqueçamos de uma coisa: algoritmos são programáveis, algoritmos aprendem conosco. Partindo deste princípio, talvez seja válido deixarmos no ar o questionamento acerca da origem destes desvios nos emaranhados de codificação. Este que deve ser o nosso principal ponto de dor, de atenção e dedicação, o de aprender e separar cada vez mais a capacidade humana da maquinária. Elas devem ser complementares. A máquina encarrega-se da automação. O humano, do olhar empático e interpessoal que jamais deve ser excluído das nossas relações de trabalho.

Os exemplos são muitos, desde aqueles com finalidades menores (porém, de impacto gigante e exponencial) que auxiliam a otimizar a experiência do usuário em seu dia a dia até o ecossistema de startups que cada vez mais entende que atender o ser humano é o seu único e melhor caminho. Atender necessidades, orientar escolhas com base em informações sólidas e fundamentadas para que assim, caminhemos para um futuro mais colaborativo e democrático.

O Brasil ainda se encontra na 72ª posição no ranking mundial de inclusão digital, resultado da pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas. Ou seja, ainda temos um mundo de insights a desenvolver e outro mundo de pessoas (e não simplesmente “usuários”, essa diferenciação é fundamental) a alcançar. A democratização dos dados é lenta mas pode ser uma realidade. Mas não é temendo-a cegamente e fugindo sem norte que iremos alcançá-la. É desmistificando e entendendo que o tema está em nosso cotidiano, em nossas menores ações.

É ampliando nossa compreensão acerca do tema que os tabus se desmancham e que as ferramentas, por mais primárias que sejam, começam a se tornar acessíveis aos que sejam curiosos o suficiente para dar este primeiro passo. Para tanto, políticas públicas de fomentação do empreendedorismo na linha da transformação digital, incubadoras de iniciativas que precisem de capital, dentre muitos outros artifícios, precisam ser colocados em pauta. Precisamos, por fim, de uma cultura que entenda a importância deste letramento para que esta nova realidade não seja restrita, mas disseminada para seu próprio enriquecimento e desenvolvimento tanto tecnológico quanto na esfera de negócios, investimentos e conscientização social. 

Letícia Castor é estudante do 7º semestre de Comunicação Social.

 

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Notas:

[1] População desbancarizada é o conjunto de pessoas que não possuem conta em bancos (o que não necessariamente significa que estejam fora da economia formal). 

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