Jair Messias: pode Deus escolher um presidente?
Quarta-feira, 22 de maio de 2019

Jair Messias: pode Deus escolher um presidente?

O uso político da Imagem de Deus é articulado para associar a vontade de Deus ao oportunismo político de uma bancada religiosa que daria vergonha a Jesus

Arte: Daniel Caseiro.

Por Simony dos Anjos

 

Há uns meses atrás, escrevi um texto chamado “Bolsonaro, Direitos Humanos e a Palestina”. Neste texto, discorro sobre a “judaização” das Igrejas evangélicas e como essa aproximação Brasil-Israel-Igrejas Evangélicas é uma junção política perigosa, pois dá elementos para justificações bíblicas das atrocidades do atual presidente. Estamos no quinto mês do governo Bolsonaro e não estamos bem. Óbvio para uns, surpresa para outros e “torcida contrária” para muitos.

O fato é, estamos em um trem desgovernado com muitos oportunistas se dando bem com todo o entreguismo do governo. A “judaização” mal intencionada das igrejas evangélicas tem levado muitos grupos religiosos a um entendimento cada vez mais literal do Antigo Testamento (AT) Bíblico, no qual o poder Político e Religioso são intrinsecamente ligados. Existem vários líderes políticos do AT que são ungidos e escolhidos por Deus, como Davi e Saul, o que  justifica os “Pastores-políticos” para uma população que frequenta Escolas Bíblicas durante toda a vida.

Por que estou retomando esse enaltecimento de práticas judaicas do período Bíblico antes de Cristo? Justamente pela manifestação que o pastor congolês Steven Kunda, radicado em Orleans, na França, fez ao dizer que Bolsonaro foi escolhido por Deus, para liderar o Brasil. No Antigo Testamento, existem várias histórias que versam sobre Reis e Juízes escolhidos por Deus, criando um imaginário da intervenção divina na política.

Em termos claros, muitos líderes evangélicos se apoiam em textos isolados do velho testamento para justificarem toda essa investida da Igreja na política. Em qualquer grupo de Whatsapp de igreja, você observará menções a personagens bíblicas para justificar a eleição do Bolsonaro. O próprio Silas Malafaia diz que Bolsonaro foi eleito justamente porque Deus “escolhe as coisas tolas para confundir as sábias” e essa é uma mensagem subliminar que afirma: “não se assustem está tudo sob o controle de Deus”. Quando ouvimos essas frases soltas e aleatórias, tendemos a achar graça. Contudo, quem ouve diariamente esses jargões bíblicos, recebe uma mensagem clara de que tudo isso é a vontade de Deus. 

Essa exaltação da ação direta de Deus na vida do Povo Judeu é uma ferramenta muito eficaz para manter as pessoas passivas diante das atrocidades do governo. Não é falta de razão dos líderes religiosos. Pelo contrário. É conhecimento da força que o uso indevido do nome de Deus pode proporcionar para quem quer se manter no poder.

Contudo, se os cristãos levassem em consideração o nascimento de Cristo, veriam que Jesus encerra um ciclo de religiosidade e inicia um ciclo de relações humanas. Onde o amor ao próximo é a Lei, e a política é desvinculada da religião: A Deus o que é de Deus, e a César, o que é de César.

Os crentes andam reivindicando uma coisa que o próprio Cristo aboliu: a intermediação entre Deus e as pessoas por meio de líderes religiosos, como se cada escolha desses homens significasse a vontade de Deus. E o uso político da Imagem de Deus é articulado para associar a vontade de Deus ao oportunismo político de uma bancada religiosa que daria vergonha a Jesus.

Quando Kunda diz que Bolsonaro é o escolhido, ele está convocando subjetividades forjadas na igreja, pessoas que são passivas diante da vida em espera de uma intervenção divina para toda e qualquer situação. Pessoas que aprendem uma religião reguladora e castradora. E essa ferramenta é extremamente eficaz em um país cujos índices de escolaridade são baixos, com pouco acesso à cultura e de cristianização forçada e violenta.

Finalizo esse desabafo dizendo: não, Bolsonaro não é escolhido de Deus. Nenhum político é escolhido por Deus. A política está nas relações humanas e, como diria Jesus, vamos dar à Sociedade o que é da Sociedade e a Deus o que é de Deus. E o que a sociedade precisa é ser secular, menos religiosa e mais humana.

Simony dos Anjos é cristã, evangélica, graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestre em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

 

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Quarta-feira, 22 de maio de 2019
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