Para alguns turistas a pobreza é apenas um “problema de paisagem”
Quinta-feira, 23 de maio de 2019

Para alguns turistas a pobreza é apenas um “problema de paisagem”

Em Alagoas a pobreza é ferida aberta nas paisagens projetadas. Isso tem despertado mais incômodo que empatia. O que é preocupante.

Imagem: Praia da Pajuçara, orla de Maceió. Fonte: maceio.al.gov.br

Por Wanderson J. F. Gomes

 

O turismo, atrelado ao setor de serviços, definitivamente proporciona um dos grandes fenômenos econômicos do século XXI. É importante para criar empregos e injetar dinheiro nas economias dos destinos. Por exemplo, numa nação de apenas 330 mil habitantes como a Islândia, país nórdico europeu localizado no oceano Atlântico norte, o segmento é carro-chefe. O país, que ainda sente os reflexos da grave crise econômica desencadeada em 2008, viu o turismo contribuir significativamente para manter o desemprego abaixo de 3% [1]. Não foi a única nação europeia a voltar atenções ao segmento buscando sair do fundo do poço. Igualmente no Brasil, país continental, o protagonismo do segmento é incontestável (resguardadas as devidas proporções), embora precisemos enxergá-lo por outra ótica.

Segundo o sociólogo Jessé Souza [2], juntos, Estado e mercado produzem historicamente uma classificação e desclassificação dos seres humanos; propõem uma hierarquização que se passa por “natural” à sociedade, acima de suspeitas. O turismo é o mercado. Consequentemente, o turismo também é o Estado, desde que esse, inserido na lógica neoliberal, assuma para si a responsabilidade pela criação de empregos e aquecimento da economia por meio de suas incontáveis políticas de fomento. Logo, o turismo, enquanto junção de forças públicas e privadas de produção, também seleciona e tipifica seu consumidor. Nada novo sob o sol.

A diferenciação é peça-chave do consumo, portanto, também é o fundamental na economia turística. A oposição ao chamado “turismo de massa”, degustando cenários paradisíacos e produtos e serviços especiais, com certeza renderá maior número de curtidas nas redes sociais ao consumidor do destino, o que lhe trará satisfação a partir da sensação de exclusividade. Longevidade, prazer e experimentação estão na ordem do dia. Mas, no Brasil, a diferenciação assume contornos ainda mais perversos, vide a vasta bibliografia interdisciplinar sobre os processos de turistificação e empresariamento urbano em detrimento do abandono e marginalização de áreas populares descartadas ao consumo imediato dos visitantes.

Por debaixo do espetáculo deslumbrante da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, por exemplo, reside uma camada de escombros fruto das desapropriações de famílias dos seus locais de origem para construção das arenas “padrão FIFA”, num processo quase que transparente de homogeneização da vida urbana, produtificação da cidade e limpeza étnica. Vale ressaltar que tais famílias jamais retornarão para suas antigas regiões, visto que o agora “espaço modernizado” comportará outra “clientela”, fortalecendo o setor imobiliário através do encarecimento de imóveis.

A diferenciação profunda no caso brasileiro também está refletida precisamente no trabalho. Apesar de sua importância para a economia nacional, muito em conta das belezas tropicais brasileiras do que propriamente por uma organização estrutural urbana satisfatória, a baixa qualificação profissional ainda é um sério entrave para o aumento da remuneração, embora seja um fato que o setor de serviços é um bote salva-vidas no que se refere à empregabilidade, especialmente por sua flexibilização (salarial e de carga horária). E tende a piorar. Segundo um levantamento realizado pela 7° edição do Índice de Confiança Robert Half [3], numa projeção de 5 anos, encontrar mão de obra qualificada será desafiador para 88% dos executivos brasileiros (a média global para este índice é de 72%).

Entretanto, apesar desses obstáculos, acomodar as visitas parece a saída. E a palavra-chave, repetiremos, é “diferenciação”. Em tempos de crise e contingenciamentos com os quais convivemos, o discurso oficial do poder público em torno da abertura das cidades para o capital externo ganha mais força, por meio de privatizações e instalação de empresas estrangeiras a partir de incentivos fiscais diferenciados para conduzir estados e municípios “ao paraíso” da recuperação e desenvolvimento. A pessoa física (turista) também é muito bem-vinda. “Estamos à venda”, ao menos é o que podemos concluir das últimas falas públicas do ministro da economia, Paulo Guedes.

É preciso cuidado. A premissa “turismo gera emprego” geralmente não especifica quais as condições destes postos e como as áreas populares são absorvidas. O setor é importante e movimenta uma economia anual excepcional. Mas, precisamos nos perguntar: onde ficam as comunidades tradicionais nesse processo? Como os indivíduos das classes mais baixas são inseridos nessa fatia de modernização? A cidade, como um todo, é igualmente cuidada para atender ao bem-estar da população que nela reside? Trabalharemos tais questões com mais afinco noutras oportunidades. Por ora, vejamos brevemente o caso do estado de Alagoas.

Detentor de praias exuberantes, ricos atrativos culturais e gastronomia marcante, o estado, sob liderança de sua capital, vem ampliando a cada ano a recepção turística, que se traduz na criação de novos voos nacionais e internacionais, ou sendo destino para navios de cruzeiros. Maceió está, em certa medida, desobstruída, graças aos demais municípios que se tornaram interessantes destinos por conta de estratégias de dinamização e regionalização. É grande o entusiasmo pela efervescência do negócio, especialmente para um estado que sofre com índices exorbitantes de pobreza, e que vive o melancólico declínio de sua principal economia: a produção da cana-de-açúcar. Mas, apesar da inquestionável força econômica, é preciso atentar para as ilusões que as oportunidades causam e, com elas, a desumanização.

Nesse sentido, chama atenção uma matéria divulgada pelo portal TNH1 [4], em janeiro deste ano, onde uma pesquisa privada dá conta de mostrar que os turistas que visitam o estado de Alagoas – notadamente a orla da capital Maceió – se sentem incomodados com a abordagem constante de famílias pobres, impedindo uma melhor experiência e apreciação dos destinos visitados, citando a pobreza como “ponto negativo” (como se os famintos tivessem escolha a não ser a súplica pela sobrevivência). É intrigante como os pobres, objetificados pela lógica de consumo, figuram nesse e outros estados turísticos, como um mero “problema de paisagem”. A matéria indica ainda que a cidade de Maceió tem grande potencial para se tornar o “Natal-luz do Nordeste”, pela decoração inovadora e deslumbrante preparada pela prefeitura municipal para a comemoração do Natal de 2018, mas que apresenta uma pobreza visceralmente exposta.

A miséria é ferida aberta nas paisagens projetadas. Isso tem despertado mais incômodo que empatia. O que é preocupante.

Todavia, a metamorfose que atinge especialmente a cidade maceioense em prol de uma lógica administrativa de desenvolvimento não é novidade. São inúmeros os casos de desapropriação, que têm como o mais marcante a remoção da Vila dos Pescadores da orla do bairro de Jaraguá [5], em 2015. As famílias, como visto no caso do Rio de Janeiro, são separadas de seu local de origem, sustento, lazer, e redirecionadas para áreas distantes, confinadas em conjuntos habitacionais. No caso específico da Vila, o discurso oficial do poder público indicou problemas de instalação comercial e de moradia irregulares, bem como a prática criminosa da venda de drogas; na oportunidade, moradores e movimentos sociais denunciaram o desmantelamento de décadas de tradição, desrespeito às culturas e à vida do povo trabalhador, realizando uma série de ações para impedimento da retirada da comunidade, sem sucesso [6].

Ainda recorrendo às valiosas contribuições de Jessé Souza [7], é perspicaz o diálogo que ele estabelece com a obra do sociólogo Florestan Fernandes, ressaltando seu esforço louvável em compreender a origem de uma marginalidade no Brasil. Fica evidente que, após a abolição da escravidão, em 1888, as elites brasileiras embarcaram numa gramática mínima: a gramática do ideal liberalista. O ideal favorecia brancos, que, através da nova gramática, justificavam os excessos, os sacrifícios das classes menos favorecidas e toda sorte de exploração em nome de um desenvolvimento quase que evolucionista, tais quais os supostamente alcançados por Estados Unidos e demais países europeus. Era uma missão fanática, que tendia a justificar quaisquer transgressões burguesas. Na outra ponta do projeto modernizador do Brasil, estava o escravo recém-liberto, desamparado e desprovido das condições materiais e morais necessárias para ser competitivo na nova agenda socioeconômica do país. Marginalizados e em ruínas, passavam a se amontoar em favelas, investindo em soluções transgressoras para a própria sobrevivência, como roubos e prostituição. Desde então, a herança da pobreza convive com uma lógica meritocrática sem sentido, sendo os pobres aprisionados à própria existência.

É perigoso o discurso que, na cidade, tudo é comercializável. Tradições, culturas, histórias e, inclusive, pessoas. Vale lembrar a fala do atual presidente da República Jair Bolsonaro (PSL), à revista IstoÉ, em março, quando lamentavelmente proferiu que “O Brasil não pode ser um país do mundo gay, de turismo gay. Temos famílias. Se alguém quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher, fique à vontade” [8]. Logo após a declaração, diversas entidades do país se uniram em campanha contra o turismo sexual, uma missão do Ministério do Turismo desde sua criação, em janeiro de 2003, já que as próprias instituições que organizavam anteriormente o segmento no Brasil possuem um histórico de apelo à sensualidade feminina (exemplo da Embratur).

O estado de Alagoas, por meio da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e Turismo (Sedetur), reagiu acertadamente com o slogan “Alagoas está à disposição dos turistas. A mulher alagoana, não!”. Todavia, mesmo importante, as campanhas devem incluir uma preocupação genuína e mais combativa com a descaracterização e desmembramento das comunidades locais. Precisamos atentar para os discursos em torno do turismo como uma porta de saída para crises e, como consequência “necessária”, seu processo de objetificação de cidades e pessoas, onde se enxerga a pobreza apenas como uma mera “falha” do produto, passível de ser expurgada para longe dos atrativos ao bel-prazer dos governantes. As vidas nas cidades importam.

 

Wanderson J. F. Gomes é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). É autor do livro “Letícia”, publicado pela Editora Multifoco do Rio de Janeiro.

 

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Notas:

[2] SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. Rio de Janeiro: Editora Leya, 2. Ed. 2018, p. 272.
[6] No local, recentemente foi inaugurado um moderno centro pesqueiro, orçado em R$10 milhões de reais. As pressões dos antigos moradores da Vila dos Pescadores do Jaraguá foram e ainda são decisivas para negociar junto ao poder público a dignidade do trabalho que sustenta inúmeras famílias, provando que é impossível dissociar as comunidades tradicionais do desenvolvimento urbano.
[7] SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. Rio de Janeiro: Editora Leya, 2. ed. 2018, p. 272.
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