Sobre massas e governo de manobra
Sexta-feira, 24 de maio de 2019

Sobre massas e governo de manobra

Parcela significativa da população está contra o projeto do governo de privatização do ensino, pois entende a escola como uma instituição a que tem direito

Por Rodrigo Suzuki Cintra

 

Enquanto milhares de pessoas se mobilizaram, no dia 15 de maio, em mais de 200 cidades no Brasil para protestar contra o corte de verbas para educação e pesquisa, duas manifestações diretas do governo demarcaram não só os limites do projeto de educação que está em curso no Brasil, mas também o futuro da presidência da república. 

A primeira das manifestações pode ser verificada na lógica discursiva das respostas do ministro da educação, Abraham Weintraub, quando chamado a serviço – defender a posição do governo -, para explicar, sob regime de sabatina da câmara dos deputados, o bloqueio de verbas para educação.

Por meio de três movimentos precisos, o ministro da educação fez a abertura do jogo de xadrez que será a luta entre governo e empreendimentos educacionais particulares de um lado e escolas e universidades públicas de outro. Com discurso pronto, montado na suposta denúncia dos centros ideológicos de esquerda que seriam as universidades públicas, o ministro teceu a trama:

1. O setor da educação sofrerá cortes para melhor administração orçamentária (o chamado contingenciamento);

2. Os avanços em educação e pesquisa dos últimos tempos provêm da universidade particular, não da pública (uma mentira para sustentar o argumento da ocasião);

3. As humanidades não contribuem de maneira suficiente e racional para a educação dos alunos, quase analfabetos funcionais.

As afirmações, que vieram entoadas com inúmeros preconceitos, diga-se de passagem, têm uma função absolutamente encobridora.

Na superfície do problema “O que fazer com a educação no Brasil?”, aparentemente estariam uma imunização do governo contra os ataques da esquerda universitária e um linchamento moral às ciências humanas, que na visão governamental mais desvirtuam que “disciplinam” o conhecimento.

Porém, o avanço do governo contra a ideia de universidade pública, gratuita e universal não é apenas questão de ideologia: trata-se de um desmonte. É preciso acabar com a universidade pública dentro da lógica desse projeto, uma instituição que apesar de inúmeros defeitos opera, para dar lugar a fúria do investimento de instituições privadas de ensino. Não é falta de visão estratégica sobre educação o que está em jogo, mas sim, excesso de visão negocial sobre as oportunidades do mercado do saber.

Por mais incrível que pareça, o governo quer sucatear a própria universidade pública para dar espaço para as instituições particulares. É um projeto liberal claro para os rumos da educação no Brasil, mas não um projeto para a inclusão real dos brasileiros. Afinal, menos investimento na educação pública, em um país marcado pela segregação também do conhecimento, não é proposta das mais democráticas.

A segunda manifestação a demarcar os limites da educação no país veio do estrangeiro, por ocasião da visita do presidente Jair Bolsonaro à Dallas, nos Estados Unidos.

Questionado sobre à greve geral que paralisou professores, estudantes, servidores e simpatizantes de escolas públicas e particulares, advindos desde a educação infantil até o ensino de pós-graduação, o presidente, crítico de qualquer um que o critica, intitulou os protestantes como “massa de manobra”.

A ideia de massa de manobra tem um fundo sempre elitista. Conceito dos menos interessantes, parte da ideia de que o povo, incapaz de pensar por sua própria conta e risco, quando se reúne para manifestação, só pode ser por orquestração de indivíduos calculistas (geralmente de esquerda nesses últimos tempos) que querem legitimar seu discurso, via força popular, para alcançar objetivos particulares (os únicos que a elite consegue entender…)

É bem capaz que o presidente Jair Bolsonaro tenha entendido perfeitamente o real significado dos protestos durante a greve geral da educação. Parcela significativa da população está contra o projeto liberal de privatização do ensino. As pessoas ainda entendem a escola como uma instituição a que têm direito, não apenas uma empresa a se pagar mensalidades.

O que Jair Bolsonaro talvez não saiba é que mais preciso do que “massa de manobra”, o que está em jogo no Brasil é um “governo de manobra”. A presidência tem medo de manipulação ideológica de esquerda na escola e nas ruas, então o discurso é o da bíblia, da arma de fogo, da família e até da bomba atômica. Mas, como governo de manobra, só está por aí, sustentado por uma elite bem atenta, para fazer passar reformas da previdência, redução de direitos trabalhistas, privatizações sem fim etc.

Quando as elites perceberem o que realmente criaram, que a presidência leva a sério a ideologia, enquanto eles, o lucro, se Bolsonaro não for competente para implementar o ultra-liberalismo no país, terá inimigos antes insuspeitos.

Dois problemas aparecem para os críticos do governo e das elites. Até receber um possível impeachment, pois é um governo de manobra, quantos direitos conquistados há tempos a presidência vai conseguir destruir ou atrapalhar? Como operar a queda de Bolsonaro sem colocar em seu lugar mais um governo de manobra?

Rodrigo Suzuki Cintra é Filósofo e escritor. Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra. Doutor em Filosofia do Direito pela USP. Bacharel em Direito e Filosofia pela USP. Professor da Universidade São Judas.

 

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