“Acho, sim, uma piada ver gente pulando do barco e se dizendo surpresa com a incompetência dele”
Terça-feira, 28 de maio de 2019

“Acho, sim, uma piada ver gente pulando do barco e se dizendo surpresa com a incompetência dele”

Não torço pela incompetência de Bolsonaro, apenas constato um fato. E existe grande diferença entre torcer e participar. Democracia se faz com participação

Por Martel Alexandre del Colle

 

Dia desses estava batendo um papo com um colega. Falávamos sobre política, um tema bem comum em minha vida. Em determinado momento eu fiz a afirmação de que se outro candidato tivesse ganho as eleições, então provavelmente a economia estaria melhor do que está.

Ele me respondeu: Você está fazendo uma suposição, você não pode prever o futuro.

De fato, eu estava fazendo uma suposição – como a palavra “provavelmente” explicita –, mas eu já tinha ouvido este argumento antes. Já tinha sido confrontado com a ideia de que é impossível prever que o Brasil estaria melhor nas mãos de outro presidente.

Ocorre aqui um erro de análise. Política não é uma ciência exata, digamos assim, mas também não é um evento totalmente aleatório.

Um exemplo pode ajudar: imagine que agora o Anderson Silva interrompa sua leitura com um toque no seu ombro. Vocês trocam olhares e ele lhe propõe uma luta. Dentro de dois dias, num evento de artes marciais. Imaginemos também que esse Anderson Silva é aquele do auge da carreira. E vamos supor que você topou o desafio.

Não seria uma suposição absurda dos seus amigos se eles lhe dissessem que você irá, provavelmente, tomar uma surra, mas também não é impossível que você vença. A questão é que a probabilidade é extremamente baixa. Talvez, em um milhão de lutas com ele você vencesse em uma. É pouco, mas há uma chance. Mas você consideraria coerente alguém apostar as fichas em você? Principalmente se essas fichas valessem sua saúde, emprego, educação, segurança, o futuro do país etc. Consideraria?

Leia também:

O voto em tempos fascistas

 

Fé é quando você acredita em algo que apresenta baixa probabilidade de ocorrer. E eu tinha fé. Fé de que o Bolsonaro chegaria no seu discurso de posse e diria:

“Meu deus, gente! Vocês estão malucos? Como é que vocês tiveram coragem de votar em mim? Eu entrei nessa eleição por causa de uma aposta que eu fiz no bar, dizendo que ninguém votaria em um cara com quase três décadas de vida pública inútil, com várias suspeitas de corrupção e contato com milícias, aposentado aos 33 anos, e ainda ficando um tempo enorme em um dos partidos mais corruptos do país. Era tudo brincadeira gente. Eu queria mesmo era dar uma lição em vocês. Mostrar como é fácil manipular vocês. Eu nem proposta tenho. Não sei nem o que um presidente faz. Por favor, né, Brasil. Eu não vou assumir essa jaca. Vamos fazer novas eleições, mas dessa vez votem direito. Que vergonha eu sinto, meu deus.”

Mas a minha fé não adiantou, e isso, para a tristeza e prejuízo da nação, não ocorreu.

Fé não é um bom critério para o voto. Pode ser que a vitória de um outro candidato não nos colocasse em melhores condições, mas a probabilidade de que colocasse é alta. Afinal, nós tínhamos candidatos preparados, que conhecem a realidade brasileira.

E por que falar disso? Por que falar dessa ocorrência em minha vida? Porque isso é perigoso. Muito perigoso.

Se eu considero que as probabilidades são inúteis, então quais são os critérios para eleger um presidente? Se preparo não conta, vida pregressa não conta – já que eu não posso prever o futuro, e qualquer candidato pode ser bom -, honestidade não conta. Qual o critério? Ódio? Comprar uma arma?

As chances de Bolsonaro ser um bom presidente eram mínimas, e ele só está nos provando isso. Não estou surpreso com o que o governo dele tem feito (e não tem feito). Acho, sim, uma piada ver gente pulando do barco e se dizendo surpresa com a incompetência dele, porque não posso conceber tanta inocência assim (para usar uma palavra fofa).

Duplipensar. Essa palavra sempre vem a minha mente quando começo a analisar o jeito com que o nosso povo se relaciona com a política.

O termo foi cunhado por George Orwell para descrever um mecanismo de reflexão que gera duas conclusões diferentes para dois fenômenos semelhantes baseado em critérios insignificantes para aquele fenômeno, mas que começam a ter peso no caminho do raciocínio.

Seria como se eu dissesse que não como carne de boi porque tenho pena dos animais, mas como carne de frango. Informado de que o frango também é um animal, seria como se eu respondesse que o frango é um animal, mas ele tem asas, e o boi não tem.

É isso que faz alguém dizer que “imposto é roubo” e ir tomar a vacina no postinho e pedir mais policiamento (serviços públicos custeados com impostos).

É isso que faz alguém dizer que é cristão, mas afirmar que “bandido bom é bandido morto” e apoiar candidato que incita o ódio.

É isso que faz alguém dizer que o ambiente em que vivemos não nos influencia, depois de ver o que a criação dos filhos do Bolsonaro pelo próprio Bolsonaro gerou.

Com o duplipensar tudo perde base e medidas. E isso gera base para que se acredite que não existe critério para nada. Que se pode colocar um ignorante como Weintraub como ministro da educação e isso não gerará um desastre. Que se pode ter um presidente imbecil e ainda assim tudo vai ficar bem. As pessoas realmente acreditam que qualquer um pode assumir qualquer papel no governo brasileiro sem que isso cause prejuízos ou benefícios.

Quando você confronta um Bolsonarista não fanático – pois confrontar o fanático é inútil –, e o duplipensar começa a aparecer, eles acabam se segurando no último argumento que parece dar lógica a insanidade da eleição de um dos piores seres humanos do Brasil: “pelo menos tiramos o PT”.

E esse argumento só é possível com o duplipensar. Tiraram o PT para quê? Contra a corrupção? E colocaram Bolsonaro?

E mesmo que Bolsonaro fosse essa beatitude em pessoa, você acha que só isso basta? Para mim, isso é o mínimo do que se deve exigêncir de um presidente.

Vamos aos exemplos: Imagine que você tem um jogador de futebol que simula faltas de maneira desonesta. E que você é o técnico do time desse jogador. Você não aceita essa forma de corrupção e decide colocar esse jogar no banco de reservas. Até aí, sua atitude me parece coerente. Mas você perderia esse crédito se trocasse o tal jogador por um cara que nunca jogou futebol profissional e que não demonstra habilidade alguma durante os treinamentos, principalmente se seu banco tivesse outros bons jogadores. O mais coerente seria colocar um jogador que jogue tão bem quanto o jogador que simula, mas que não tivesse esse defeito. Eu também ficaria muito irritado com você, se você trocasse o melhor jogador do time que simula faltas pelo pior jogador do time que também simula faltas!

E foi, na melhor das hipóteses, exatamente isso que os eleitores de Bolsonaro fizeram.

Se um eleitor de Bolsonaro chegou até aqui com o coração aberto, então vai sobrar o seguinte argumento: “mas agora não adianta torcer contra, temos de torcer para dar certo”.

E lá vamos nós com mais um exemplo: Se eu jogar um tijolo para cima e ficar embaixo, na trajetória de retorno do tijolo, adianta eu torcer para o tijolo desviar? Adianta eu torcer contra? Adianta eu ter fé de que o tijolo não vai cair?

Nossa torcida não faz a mínima diferença. E eu não torço pela incompetência de Bolsonaro, eu apenas constato um fato. E existe uma grande diferença entre torcer e participar. Democracia se faz com participação.

Essas afirmações, também demonstram que muitos eleitores de Bolsonaro não entendem como a democracia funciona. A democracia funciona através da contraposição de ideias. Bolsonaro não conseguiu aprovar, praticamente, nenhum projeto durante sua carreira. E isso já era um sinal da incompetência dele. Isso não é um sinal de que ele era inocente e não conversava com corruptos – até porque eu acho que não existia gabinete mais assombrado que o dele -, mas de que ele não é capaz de aceitar o jogo democrático.

E como se governa numa democracia querendo ser um imperador? Só com golpe. Então fica claro que ou Bolsonaro cai, ou ele some e deixa outro governar ficando como decorativo, ou ele dá um golpe.

O chamamento para uma manifestação deixa claro qual estratégia está passando pela mente dele.

Democracia se faz com críticas. Com tese e antítese até chegar a uma síntese. Era óbvio que um militar fraco como ele é, um cidadão fraco e desumano como ele é, e um político fraco como ele é, jamais conseguiria governar.

Na obviedade não há surpresa.

Martel Alexandre del Colle é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.

 

Leia mais artigos de Martel Alexandre del Colle:

.
.
.
.
.

O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Terça-feira, 28 de maio de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend