Aqui jaz Neymar
Terça-feira, 4 de junho de 2019

Aqui jaz Neymar

Frank Underwood era a alma de House of Cards. Mas, sem Kevin Spacey o sórdido, o vil, o perverso, o sem limites que Frank representava existir na política jamais existiria nas telas.

Frank foi um daqueles personagens cujo desparecimento do ator que o interpretava não teria outro destino senão a morte. Ninguém conseguiria substituir Kevin neste papel. Foi brilhante, como em tantos outros papeis que desempenhou. Entretanto, com uma dose de repugnância, para mim, Kevin morreu junto com Frank após todos os incidentes denunciados via #metoo.

Já Neymar nunca considerei um Kevin da bola. A repulsa veio antes. Ninguém que mostrou a adolescentes da idade de meu filho que mentir fazia do jogo merece admiração. Ninguém é “meio ético, “meio” honesto, “meio” mentiroso, “meio” falso.

Rolando pelo campo, como se dor sentisse, Neymar sempre demonstrou não estar aos pés de outros que considero ídolos. Falsidade não existe somente dentro de campo. E, ainda pudesse existir somente entre as quatro linhas, também seria inaceitável. A mentira contraria o sentido do que é esporte.

Enfim, nunca gostei dele, não nego.

Assisti ao vídeo com as explicações de Neymar logo em seguida à postagem. Um vídeo no qual ele, como “homem de bem”, coloca a mão no peito e pede perdão à família (!). Um vídeo em que ele expõe uma “tal mulher” e contra ela inicia com seus seguidores uma cruzada pública de execração.

Lembrei de Neymar, novamente, rolando no campo.

Após a campanha iniciada por Neymar contra a vítima (pois, sim, ela é a vítima, não esqueçamos nunca!), sinceramente, não sei precisar a dimensão que a violência expressa nos hematomas que vi nas fotos virá a tomar. Confesso, com temor, que não me será surpresa se o linchamento público posto em curso por ele (e sua bem equipada assessoria!) torne-se a base do linchamento que muitas vezes o Judiciário replica em suas sentenças contra as mulheres que ousam denunciar suas dores e mostrar seus corpos violados.

Existem inúmeras formas de violência dia a dia praticada contra nós mulheres. E raras somos as que podemos dizer nunca termos passado por situações de dor, de desconforto e até de violência brutal em nossas relações íntimas com maridos, companheiros, namorados, ou mesmo em encontros casuais. Nossos corpos ainda são tomados, literalmente tomados. Somos, no mais das vezes, objeto e não sujeitos na intimidade.

Essa “tal mulher” marcou um encontro e nele viu-se em uma situação de violência que não é desconhecida da maioria das mulheres. Será que uma camiseta de um clube de futebol ou mesmo da seleção brasileira podem pesar mais do que a realidade que a maioria de nós conhecemos? Pergunte a si mesma.

Me fiz essa pergunta. Minha resposta é não. Temos mais dores em comum do que “ídolos” que rolam pelos gramados. Não é possível ficar calada. Que Neymar tenha o julgamento dentro das regras do jogo processual. Mas que nossas vozes se levantem em um movimento que também aqui diga NÃO aos Neymares, assim como já se disse aos Kevins em outras partes do mundo.

Que a terra não lhe seja leve Neymar, assim como não é ao Frank.

 

Soraia Mendes é pós-doutora em Teorias Jurídicas Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, doutora em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília – UnB e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É professora, advogada e coordenadora nacional do Comitê Latino-americano e do Caribe de Defesa dos Direitos da Mulher – CLADEM/Brasil.

 

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