“Defendia a execução de criminosos, mas quando se deparou com um criminoso fardado, não fez nada”
Terça-feira, 4 de junho de 2019

“Defendia a execução de criminosos, mas quando se deparou com um criminoso fardado, não fez nada”

Eu perguntei o que o impedia, ele respondeu com toda a sinceridade: porque sou cúmplice e não quero ser preso nem morto pelos policiais que denunciaria

Foto: Sebastian Nogier.

Por Martel Alexandre del Colle

 

Escrever mudou bastante a minha vida. Comecei a escrever porque fui transferido, perdi contato com muitos policiais, e estou afastado de serviço. Mas escrever também me deu a oportunidade de conhecer pessoas fantásticas e de ouvir histórias muito reveladoras sobre o sistema policial.

Uma história que me chamou bastante a atenção veio de um policial que começou a se comunicar comigo de maneira anônima. Ele me encontrou em uma rede social – uma das poucas que mantive – e disse que acompanhava os meus textos pelo justificando.

Se todos fazem e ninguém reclama, se eles fizeram na minha frente e na frente do tenente, então isso não deve ser tão errado

Ele relatou que foi policial e que se sentiu representado nos meus textos. Começamos a conversar com mais frequência até que ele resolveu contar um pouco da sua experiência como policial. Ele me relatou que presenciou diversas torturas. Disse que sentia vontade de denunciar esses abusos.

Eu perguntei a ele o que o impedia de denunciar. Ele me respondeu com toda a sinceridade: porque sou cúmplice e não quero ser preso, e porque não quero ser morto pelos policiais que eu denunciaria.

Começamos uma conversa sobre denúncias de crimes dentro das instituições policiais. Por que é tão difícil um policial denunciar a tortura dentro dos órgãos de polícia? Ele me respondeu com a história que eu queria contar desde o início para vocês.

Ele relatou que, quando ainda era um recruta, dirigia para um policial mais antigo (mais tempo de serviço). Durante um serviço à noite, ele conta que houve um assalto. Todas as equipes foram mobilizadas para encontrar os criminosos. Uma equipe encontrou-os numa estrada rural e o policial mais antigo decidiu ir lá para ver se conhecia os criminosos. Chegando ao local, o policial relata que já estavam lá outras equipes. Seis policiais estavam lá e os autores do crime estavam sendo torturados por uma dupla de policiais para entregarem os produtos do roubo. Posteriormente, chegou o oficial que fiscalizava a tropa. A tortura não parou e o oficial não fez nada.

Continuamos a conversa e o argumento dele era: como é que eu iria denunciar algo que todos os policiais sabem que existe e sobre o que ninguém faz nada?

Ele era um recruta e diz que temeu se mostrar horrorizado com aquilo e ser desprezado pela tropa, ganhar fama de covarde. Como era muito novo, relata que acabou entrando na cultura policial. “Se todos fazem e ninguém reclama, se eles fizeram na minha frente e na frente do tenente, então isso não deve ser tão errado, pensei.”

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Ele continuou contando sua história e mostrando que, aos poucos, foi percebendo que estava se tornando um monstro e decidiu investir em um curso superior para sair da polícia.

A indignação dos policiais não era quanto ao fato de eles não concordarem com o que eu disse. Era por revelar o que eles já sabiam

Queria eu que essa história fosse um caso isolado, mas não posso afirmar isso com alguma convicção. Quando escrevi um texto dizendo que eu não votaria em Bolsonaro, vários policiais que eu conheço vieram me relatar um fato. Eles encontravam muitas rodas de policiais falando sobre mim, tanto de oficiais como de praças.

Mas o ponto que me chamou a atenção não foi o fato de eles falarem, mas qual era o conteúdo da esmagadora maioria desses relatos. Os policiais de diferentes lugares diziam que eu estava errado por revelar os problemas das polícias. Segundo esses policiais, eu estava errado, pois devia ter tentado resolver os problemas relatados no texto escondido da população, dentro dos muros da corporação.

Ou seja, a indignação de grande parte dos policiais não era quanto ao fato de eles não concordarem com o que eu disse. Eles não achavam que eu mentira. A indignação era por revelar o que eles já sabiam.

E isso bate muito com o relato do policial acima. O caso dele revela uma possibilidade assustadora. Talvez a tortura e a execução nas policiais militares não seja algo que poucos policiais saibam, mas algo que muitos sabem, mas escondem.

Essas correlações ficaram mais fortes no meu pensamento depois de ler o livro “Operários da Violência”. Esse livro é elaborado em cima de um estudo feito com policiais militares e civis que decidiram relatar de maneira anônima as violências que praticaram e foram praticadas na presença deles.

O livro vale muito à pena. Dentre os diversos relatos e exemplos, eu quero contar um que junta a minha experiência com a do policial acima. No capítulo 7, um policial que usa o pseudônimo de Jorge, relata que estava em guarda em um cemitério, junto com seu parceiro, quando viu alguns vultos vestidos de branco. O parceiro de Jorge entrou em desespero e efetuou disparos contra os vultos. Jorge se aproximou dos vultos e percebeu que eram pessoas. Tratava-se de um grupo de religiosos do candomblé que realizavam uma cerimônia religiosa. Diante dos fatos, Jorge chamou os seus superiores ao local. Os superiores chegaram e constataram que se tal situação caísse na boca do povo, a imagem da polícia poderia ser prejudicada. O superior ordenou que Jorge matasse a todos os civis presentes. Foi entregue uma arma fria na mão de Jorge para que ele executasse o serviço. E ele fez.

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15 inocentes mortos para preservar o nome de uma corporação que jurou proteger esses 15 inocentes. Ódio e perseguição a todo o policial que ousar denunciar esses absurdos. Jorge só contou o que fez porque estava protegido pelo anonimato. Jorge sabia que estava errado, mas justificou dizendo que não teve escolha, que agia sob ordens de um superior, portanto, não é um criminoso.

O mal é banal.

Defendia a execução de criminosos, mas quando se deparou com um criminoso fardado, ele simplesmente não fez nada

Quando trabalhei em Foz do Iguaçu, procurei selecionar policiais bons e honestos para as unidades onde eu iria trabalhar. Quando surgiam suspeitas de corrupção eu investigava e, se descobrisse serem verdadeiras as suspeitas, eu tirava o policial do grupo. Um dos policiais que coloquei me relatou que teve de trocar o seu local de trabalho, pois tinha um parceiro corrupto. Quando lhe perguntei se ele havia pensado em denunciar o policial corrupto, ele me disse que temia pela vida dele e que preferiu mudar de local de trabalho.

Engraçado é que esse policial vivia dizendo que bandido bom era bandido morto. Ou seja, defendia a execução de criminosos, mas quando se deparou com um criminoso fardado, ele simplesmente não fez nada.

E a polícia sofre o mesmo problema da economia. Quando li a monografia do Jose Henrique Sales, bacharel no curso de Economia da Universidade Federal do Paraná, cujo título é “A cientificidade da economia sob a perspectiva do positivismo lógico e do falsificacionismo“, as semelhanças ficaram nítidas.

Ambas as áreas têm uma base científica. Existem muitos estudos sobre segurança pública acerca de diversos locais do mundo e acerca do Brasil, assim como existem inúmeros estudos sobre modelos econômicos e análises econômicas nacionais e internacionais. A questão é que existe uma luta para ignorar fatos em ambas as áreas. E isso não acontece ao acaso. Acontece porque, ao ignorar os fatos, alguns grupos levam vantagem.

Não há evidências de uma economia melhorar através de políticas de austeridade aplicada em momento de crise, mas o governo Bolsonaro insiste nessa ideia. Entretanto, eles conseguem aval na escola de Chicago. O que faz parecer que há provas dessa estratégia ultraliberal. Mas não há. A economia, em certos centros de estudos, está afastada do que é científico e muito próxima do que é comercial. Permita-me explicar.

Falar bem de austeridade, privatizações sem estratégias, e se ter sucesso com isso, é muito mais fácil do que se ter sucesso competindo com os dados e análises mais apuradas. Resumindo de maneira bem simplificada: você só conhece o Paulo Guedes porque ele optou por essa estratégia. Se ele fosse um economista sério e tentasse mostrar suas ideias em um ambiente normal de competição, ele não seria ninguém para a economia. A escola de Chicago faz o trabalho de dar títulos a pessoas que aceitam essa estratégia. A ideia econômica que um país aplica interessa muito para a burguesia, e isso faz com que a burguesia compre o discurso e diga que a ciência não vale nada.

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Sei que ainda não está claro, vou melhor um pouca mais a explicação. Lembra do filme “As aventuras de Dick e Jane?”. No começo do filme o Jim Carrey recebe uma promoção de última hora. Ele é promovido para ir a televisão falar bem da empresa dele. Ele fica muito feliz e vai a televisão defender as atitudes da empresa. Porém, a empresa o colocou lá porque a empresa estava falida e precisava de alguém que mentisse em nome da empresa. Um boi de piranha. Alguém que falaria que tudo ia ficar bem, mesmo sabendo que não iria, e essa pessoa teria sua imagem destruída, mas manteria a imagem dos donos da empresa boa. O Paulo Guedes é o Jim Carrey. E, assim como o personagem do filme não tinha muita noção do que estava defendendo, mas achou ótimo ser promovido, Paulo Guedes não tem noção do que está defendendo, mas gosta da fama que conseguiu por levar uma ideologia pseudocientífica à frente.

No filme, a empresa vai a falência e prejudica um número gigantesco de pessoas, mas algumas pessoas se dão bem mesmo nessa tragédia. Interesses…

A segurança pública é igual. Praticamente, todos os estudos sérios apontam que não há correlação entre mais armas e mais segurança, ou mais armas e menos violência, mas, mesmo assim, Bolsonaro insiste nessa política.

E por que ele insiste em algo que não funciona? Porque tem gente que ganha muito com isso.

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Eu não sou um cara totalmente contra a posse de arma, mas a minha linha de argumentação não perpassa a ideia de mais segurança, pois essa correlação é falsa.

Portanto, se eu fosse prometer mais segurança, eu recorreria aos estudos que demonstram os fatores que melhoram a segurança. Um dos fatores que tem forte correlação com o aumento da segurança é a redução da desigualdade social. É praticamente uma regra que quanto mais desigual é um país, mais violento ele é. E o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo.

O triste é constatar que estamos em um loop infinito. Um while (true) {i++} em que o “i” é a violência [1]. O Brasil sempre teve taxas altas de violência, e a solução apresentada sempre foi a mesma: prender e matar mais. Isso não aconteceu só com Bolsonaro, mas como todos os outros presidentes durante o período da ditadura e pós-ditadura. E ninguém conseguiu perceber ainda que isso não dá certo.

O loop infinito funciona da seguinte forma: Um governo assume com uma taxa (suponhamos) de 100 homicídios/ano e 5.000 presos, e uma população querendo melhorias na segurança devido a assaltos, estupros e os já narrados homicídios. O governo pergunta para a polícia se ela tem culpa no cartório, e ela responde que não, que, na verdade, ela está engessada para trabalhar devido a leis muito rígidas e protetoras de bandidos, somado a falta de efetivo. A culpa, então, é transferida para a sociedade e o Estado se exime da responsabilidade de investigar as causas da violência. Parte-se para o aumento da repressão. A estratégia não dá certo e a violência aumenta.

Um outro governo assume com 200 homicídios/ano e 10.000 presos. Ele faz o mesmo caminho, aumenta a violência por parte do Estado e entrega o governo com 400 homicídios/ano e 20.000 presos. E o loop segue infinitamente.

Infinitamente não. Ele tem um fim. Ele acaba quando o último brasileiro matar o penúltimo brasileiro dentro de um presídio e cometer suicídio depois.

Qual a solução então? Ouvir a ciência e parar com achismos. Não temos a resposta perfeita para a segurança pública, mas já temos caminhos muito mais virtuosos do que o que estamos novamente escolhendo.

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E esse apelo vai para as pessoas mais importantes para essa virada: os policiais do Brasil. Civil, militar ou Guarda Municipal. O poder está nas mãos de vocês.

Ele começou a dizer que, pensando bem, as ideias de Hitler não eram assim tão ruins

No livro citado no começo do texto, existe um capítulo que analisa os danos causados nas vidas dos policiais que aceitaram esse jogo da violência. Aceitaram torturar ou tolerar a tortura, executar ou tolerar a execução.

Esses policiais são comparados com os chefes que sabiam dessa violência, mas não praticaram tais violência, não presenciaram quase que diariamente essa violência, não correram tantos riscos com essa violência. Os policiais que praticavam estavam com as vidas destruídas. Muitos estavam presos. Denunciados pelos mesmos chefes que incentivavam a violência à margem da lei. Ou seja, como já disse mil vezes, você, policial, está sendo usado. Usado para depois ser morto ou jogado fora. O final de quase todos os policiais perpetradores de violência é igual: rejeitados pela polícia, presos ou respondendo a processos, e sem uma família porque não davam atenção para ela.

E o mais engraçado é que os incitadores – os que incentivam, mas não praticam – estavam muito melhores. Tinham uma família mais bem estruturada, estavam menos estressados e não se sentiam culpados, pois nunca torturaram ou executaram alguém, apenas mandavam fazer.

O policial que aceita esse jogo está sendo usado e pagará um alto preço sozinho, mas sempre dá tempo de mudar e salvar a si mesmo, a sua família e ao país.

Tive diversos motoristas durante minha carreira policial, apesar do pouco tempo de caserna. Um deles adorava conversar sobre política comigo. Nós passávamos as 12h do turno discutindo política, polícia, e tudo mais. Ele era Bolsonarista roxo e eu não preciso dizer qual era a minha linha para quem lê meus textos. Várias noites geraram conversas interessantes, mas uma foi bem sombria.

Ele me contou que havia feito um teste de coordenadas políticas. Aqueles testes que dizem se você é de esquerda, direita, autoritário, liberal, e por aí vai. Mas ele fez um teste diferente. O teste dele mostrava onde você estava no espectro político e te mostrava com qual figura histórica você se parecia.

Ele fez o teste e a figura história dele era: Hitler. Quando ele disse isso eu não vi com maus olhos. Achei que essa seria uma chance de ele refletir sobre suas convicções. Se eu fizesse um teste político e caísse com uma figura autoritária, eu imediatamente analisaria minhas convicções. Eu pensei que ele faria o mesmo. Ou talvez que ele começasse a dizer que esses testes são uma furada. Mas não. Ele começou a dizer que, pensando bem, as ideias de Hitler não eram assim tão ruins.

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Nietzsche já dizia: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

É vital para a carreira policial que você, policial, analise sua conduta frequentemente, pois você sempre está perto do abismo. E o abismo não te engole sozinho, ele engole seus amigos e sua família.

Como diria o Coruja BC1 na música lágrimas de Odé:

Não deixe a guerra entrar em nosso terreiro. Se é nós contra nós, nós que morre primeiro.

Usar a violência extensivamente para resolver a violência é como tentar matar a sede de uma população através de um tsunami. Não resolve o problema e mata um monte de gente no caminho. E no final a gente nem vai saber o que estava tentando combater, porque a tragédia criada é pior que a tragédia anterior.

É melhor olharmos para tudo o que temos em comum, antes de olhar para tudo o que nos separa. Mais um pouco de BC1:

Eu sou teu irmão não me olhe assim.

Eu sou teu irmão não me olhe assim.

Eu sou teu irmão não me olhe assim.

Eu sou teu irmão não me olhe assim.

Somos humanos e queremos um mundo melhor. Já é um bom começo se o amor começar, por esses entendimentos, a nos unir e consequentemente começar a solapar o ódio.

Martel Alexandre del Colle é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.

 

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Notas:

[1] em linguagem de programação de computadores, a fórmula while (true) {i++} indica o código para um processamento circular sem fim. Em cada iteração, a condição de ocorrência será avaliada: como a condição é constante (true), o loop será executado para sempre. No caso, o {i++} indica uma somatória, o que torna o loop uma espiral ascendente, isto é, acumula-se perpetuamente o resultado de cada iteração do comando/ação.

Terça-feira, 4 de junho de 2019
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