Neymar e Mc Reaça: semana difícil para as mulheres
Sexta-feira, 7 de junho de 2019

Neymar e Mc Reaça: semana difícil para as mulheres

Uma mulher aceitar presentes, jantares, viagens, e até mesmo se casar com um homem não a obriga a ter relações sexuais quando e do jeito que ele quer

Arte: Daniel Caseiro. 

Por Thamíris Evaristo Molitor

 

Essa semana já começou complicada para as mulheres. Além das rotineiras notícias de violência contra as mulheres que não dão um dia sequer de trégua no país – que, segundo o Datafolha, teve 1,6 milhões de mulheres espancadas ou que sofreram tentativa de estrangulamento no último ano–, destacaram-se os casos de dois homens conhecidos do público.

Um deles era conhecido como “Mc Reaça”, que ficou relativamente famoso durante a campanha presidencial do ano passado ao apoiar o então candidato Jair Bolsonaro, compondo músicas que tinham como objetivo ofender feministas e as pessoas que discordavam de Bolsonaro (em geral pessoas que se identificam a esquerda). No sábado, tivemos a notícia de que ele teria espancado uma mulher grávida, na tentativa de, aparentemente, matá-la ou fazê-la sofrer um aborto, tendo em seguida se matado. Essa mulher estaria grávida dele, fruto de um relacionamento extraconjugal, já que ele era casado com outra pessoa.

O segundo caso é o do jogador Neymar Junior. No domingo, um dia após a morte de Tales Volpi, o jogador publicou um vídeo em rede social em que se “defendia” de uma acusação de estupro, argumentando que a moça que o estava acusando teria conversado com ele por Whatsapp de maneira “provocante”, dizendo que ela tinha vontade de transar com ele, afinal havia enviado fotos dela nua etc. Confesso que fiquei surpresa com os rumos que a discussão sobre ambos os casos tomaram nas redes sociais, principalmente com relação ao caso do jogador de futebol.

Em todas as páginas de redes sociais que li, vi pessoas defendendo o jogador a partir, principalmente, dos seguintes argumentos:

(1) ele seria uma pessoas pública e, por isso, teria o direito de se defender publicamente para que a acusação não manchasse a sua reputação; e

(2) que a moça estava correspondendo à “paquera” do jogador e teria aceitado presentes caros, inclusive que ele pagasse sua ida até a cidade em que ele estava.

O fato de o jogador ser uma pessoa pública não torna lícito a exposição da moça da maneira como ele fez. Ela fez um boletim de ocorrência –comunicou o fato apenas à polícia, não à mídia–, e a polícia irá abrir inquérito para apurar se o crime ocorreu ou não. Em um suposto Estado Democrático de Direito em que vivemos, a vítima tem a possibilidade, inclusive, de solicitar o segredo de justiça para casos como esse. Salvo engano, não fosse o vídeo divulgado pelo próprio Neymar, o público não ficaria nem sabendo daquele boletim de ocorrência. Provavelmente houve a atuação de assessoria de comunicação do jogador com a intenção de conter danos à imagem dele, claro, sem a menor consideração pela exposição da possível vítima. Ou seja, houve a escolha dele de falar sobre o assunto antes que a impressa descobrisse o caso.

Ou seja, a polícia ainda nem teve a oportunidade de investigar o caso e o jogador já está se defendendo. Não estou aqui dizendo que Neymar é culpado e que devemos exigir sua punição virtual. Ocorre que esse não é o nosso papel. O papel de investigar e punir é da polícia e do poder judiciário. Quando o público “toma o lado” do possível criminoso, está passando uma mensagem muito clara de que a mulher está sozinha e ela é culpada até que se prove o contrário. A presunção de inocência que tanto se defende ao homem não se aplica no tribunal do facebook à vítima (que se não foi vítima do estupro com certeza foi vítima da exposição na rede social do jogador, que tem mais de 60 milhões de curtidas em sua página só no facebook).

Muito se falou sobre o fato de que uma falsa acusação de estupro pode destruir a imagem do homem. Concordo, a presunção de inocência é para todos. Mas e a moça? Não se pensa no que essa exposição causou à vida dela? Ou, se o crime ocorreu, não se pensa no trauma que ela sofreu? E, agora, ainda tem que lidar com a sociedade a tratando como “golpista” sendo que ela não tinha divulgado nada?

Redes sociais não deveriam ser tribunal e os fãs não deveriam ser os juízes para que o famoso se defenda e seja “absolvido”. Mesmo que o jogador desse a sua versão sem expor a outra parte, ainda assim, seria injusto com a vítima, dado o alcance da página do jogador, atleta conhecido mundialmente.

Não se pode defender um suposto direito de pessoas públicas a expor outras pessoas sob a desculpa de estarem sendo injustiçadas. Isso é tratá-lo como moleque mimado que não teria responsabilidade pelos seus atos (no mínimo pela exposição das fotos íntimas, crime por força da lei nº 13.718/2018).

É o privilégio masculino aparecendo até em casos de possível violência contra a mulher. E se fosse a jogadora Marta que estivesse expondo um vídeo como esse em suas redes sociais? Será que ela seria tratada como uma criança mimada que pode expor as outras pessoas ao invés de tratar do caso no âmbito jurídico?

Com relação ao outro argumento, de que ela estaria correspondendo à paquera do jogador e, por esse motivo, teria consentido à relação sexual, é triste precisar “defender o óbvio”. O fato de uma mulher aceitar presentes, aceitar jantar com um homem, aceitar viajar com ele, aceitar até mesmo casar com esse homem, não a obriga a ter relações sexuais quando ele quer e do jeito que ele quer. A mulher não deve perder a sua autonomia de decidir se e quando quer transar por nenhum motivo. Defender com base no comportamento da vítima que ela queria antes e, logo, ela não pode reclamar se o homem fez algo que ela não permitiu ou mesmo se ela mudou de ideia e não queria mais, é concluir que mulheres são objetos sem vontade à disposição para satisfazer desejos sexuais dos homens.

As pessoas podem “revogar” seu consentimento para relações sexuais a qualquer momento. Sobre isso, indico o vídeo que compara consentimento para sexo com vontade de beber chá, é muito didático [1].

Se, no próximo dia, ela continuou conversando com ele, isso também não prova que não houve violência. Tal fato pode significar, inclusive, que ela estava em negação naquele momento, ainda não aceitando ou entendendo a gravidade da violência que sofreu. Demorar para aceitar que aquilo de fato aconteceu é comum em vítimas de situações tão traumáticas como estupro, ainda mais com a violência vindo de uma pessoa tão conhecida e admirada como um jogador de futebol famoso. Isso também traz a discussão sobre a “vítima perfeita“: só são levadas a sério publicamente as vítimas que “provam” que agem da forma como a sociedade machista entende como correta. Se ela desvia em alguma requisito, como falar sobre sexo, demorar a denunciar etc, a opinião pública fica contra ela.

Afora isso, ainda foi preciso ver páginas de humor (e até mesmo páginas sérias) fazendo memes, piadas e trocadilhos com as conversas divulgadas por Neymar. Acredito que isso é intensamente desrespeitoso com as sobreviventes de violência sexual. Mesmo que, ao final, não se prove que houve a violência, ainda assim é um gatilho para as vítimas de violência lembrarem disso vendo pessoas debocharem da situação. Vejo com frequência textos, palestras e pessoas acreditando que houve um suposto grande avanço das pautas feministas em nossa sociedade, entretanto, quando esse tipo de situação acontece e pessoas conseguem rir, percebo que ainda há um caminho gigante a percorrer…

Por fim, considerando nossa época atual, o espectro que ronda o Brasil – o espectro da “ideologia de gênero” (e o fato de que “as potências do velho Brasil uniram-se numa Santa Aliança para exorcismá-lo”) – e o tratamento dado por esse governo à questão das mulheres, inclusive com o presidente lamentando a morte de um homem que espancou uma mulher, enquanto se cala sobre as mortes por violência policial ou milícias (exemplo da Marielle Franco), estamos longe do ideal e precisamos continuar insistindo e falando sobre feminismo.

A ministra dos direitos das mulheres, por exemplo, prefere discutir a cor de roupa de crianças como uma “nuvem de fumaça” que tenta afastar não só a discussão de questões importantes como a reforma da previdência e as investigações conduzidas com relação ao filho do presidente, mas a própria discussão sobre gênero, que também é essencial mas que deve ser feita de maneira profunda (e não como se resumisse a rosa e azul). Não é uma questão de cor de roupa, é uma questão de mulheres morrendo e sofrendo violência enquanto homens se sentem no direito de desacreditar a palavra das mulheres, expondo-as e as tratando como “loucas”. É, também, uma questão de violência contra a população LGBT e desrespeito à identidade de gênero das pessoas transexuais.

E ainda somos obrigadas a ver pessoas batendo palma e passando a mão na cabeça dos homens como se eles pudessem agir como proprietários dos corpos das mulheres.

Encerro com uma música simbólica da cantora Karina Buhr para essa semana:

Eu não posso te deixar, te deixar

Querida minha

Te levarei junto

Disse o assassino

Com aplausos do público

 

Thamíris Evaristo Molitor é doutoranda em direito do trabalho e mestra em direitos humanos pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Professora substituta de direito do trabalho e processual do trabalho na Universidade Federal de Lavras – MG. Integrante do Grupo de Pesquisa Direitos Humanos, Centralidade do Trabalho e Marxismo (FADUSP).

 

Leia mais:

Análise do caso Neymar: levando a sério denúncias de estupro e presunção de inocência

Entenda o crime de divulgação de cena de sexo, nudez ou pornografia

Aqui jaz Neymar

O que o caso Neymar diz sobre a cultura do estupro?


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

Disponível com legendas no seguinte link: https://www.youtube.com/watch?v=oKTUElELEv0. Acesso em 04 jun. 2019.

Sexta-feira, 7 de junho de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend