“A segurança pública deveria criar ambientes sociais saudáveis, não espaços de violência”
Terça-feira, 11 de junho de 2019

“A segurança pública deveria criar ambientes sociais saudáveis, não espaços de violência”

Se o meio tem grande influência nas ações dos indivíduos, então a segurança pública deve ser pensada como forma de mudar os ambientes sociais

Por Martel Alexandre del Colle

 

Comprei pela internet os dois livros Mein Kampf do Hitler faz um tempo. Não é muito fácil achar esses livros. Acho que o grande motivo é que as pessoas esperam que o livro seja monstruoso. Que ao se ler, perceba-se com facilidade que Hitler era um lunático, um ser doente, mau por natureza. Na verdade, essa é a imagem que querem passar dele. De que Hitler era alguém nascido mau. Alguém que nós jamais poderíamos ser.

Mas, ao ler, percebi que ela era um cidadão comum. Um cidadão preconceituoso comum, criado em um meio preconceituoso comum. Não estou dizendo que as opiniões dele não eram monstruosas, o que estou dizendo é que elas não eram patológicas, eram culturais.

Ele relata que cresceu em um meio preconceituoso, que acreditava que judeus eram “sujos, maus, avarentos”. Também acreditava que o comunismo era como um vírus que precisava ser extirpado da sociedade.

A questão é que Hitler não era tão diferente daquela galera que fala em “ideologia de gênero”, “marxismo cultural”, e outras asneiras.

Hitler também se aproxima dos terraplanistas, dos supremacistas brancos e dos racistas, no quesito de não conseguir entender física e biologia corretamente e criar sua forma idiossincrática de interpretação da realidade.

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Não é possível conceber que na década de 1940, na Alemanha, só tenham nascido pessoas más. O que aconteceu na época foi uma ação cultural de preconceito, somada as pressões sociais. O meio aplicou uma forte pressão nos cidadãos alemães e o preconceito que andava pelos bueiros veio à tona.

Guardadas as devidas proporções, é o que está acontecendo no Brasil. O machismo, o racismo e a homofobia estavam se escondendo em porões, mas forçaram as portas com toda a força possível e criaram uma sensação de cultura permissiva das atrocidades no Brasil. O que não quer dizer que tudo era perfeito antes. O Brasil já era um país violento para os LGBTI+, para os negros, para as mulheres, e para os pobres. A diferença é que agora, esse pensamento já não precisa ser escondido e pode angariar mais pessoas, como aconteceu na Alemanha através de Hitler.

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Existem duas perguntas que podem dar grande contribuição para o problema da violência no país. A primeira é: o quanto das ações de uma pessoa é influenciado pelo meio em que essa pessoa está inserida? Se o meio influencia pouco, então uma pessoa que é má não tem muita recuperação, e uma pessoa que é boa não mudará independentemente do local onde estiver. Nesse sentido, não adianta muito mudar o ambiente, e as ações de segurança pública deveria se focar nos indivíduos: identificar os indivíduos maus e tirá-los de circulação. Porém, se o meio tiver uma influência grande nas ações dos indivíduos, então a segurança pública deveria ser pensada como forma de mudar os ambientes sociais. As prisões deveriam ser revistas com urgência, já que o ambiente hostil das prisões brasileiras seria propício para o aumento da violência.

A segunda pergunta é: Se o meio influencia as pessoas, ele influencia em quanto tempo? Pois se o tempo para que uma sociedade saudável gere pessoas saudáveis for muito grande, então construir sociedades saudáveis não ajudaria na redução da violência de maneira imediata ou de curto prazo. Mas se as mudanças ocorrerem rapidamente, então o investimento na mudança dos ambientes traria resultados satisfatórios em curto prazo, o que nos indicaria que devemos “forçar” um ambiente social mais saudável para resolver os problemas de segurança pública brasileiros. E deveríamos investir muito mais esforços nisso do que em ações individuais, ações de segregação de pessoas etc.

Será que a ciência já conseguiu responder a essas perguntas? A resposta é: sim, conseguiu.

A guerra do Vietnã durou cerca de 20 anos. Durante a guerra, muitos soldados americanos se tornaram viciados em drogas como maconha, heroína e outros derivados do ópio. Com o fim da guerra, uma grande preocupação surgiu nos Estados Unidos. Presumia-se que os soldados voltariam viciados para os EUA e que lá procurariam por traficantes para manterem o vício. Havia, também, um receio do comportamento violento dos militares com suas famílias e vizinhos. Já que eles haviam passado muito tempo em um ambiente hostil e violento, presumia-se que eles retornariam à sociedade estadunidense com comportamentos agressivos e isso causaria um aumento da violência. Os soldados retornaram para o país e, para a surpresa geral, abandonaram o vício em drogas e não apresentavam o comportamento violento esperado. A mudança de ambiente fez com que eles mudassem. E a mudança foi muito rápida.

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Em 1971, a universidade de Stanford realizou um dos experimentos mais controversos já registrados. A universidade, numa tentativa de analisar o comportamento humano, simulou um presídio. Os presos seriam estudantes e os carcereiros também seriam. Para selecionar os estudantes participantes, eles fizeram um teste para avaliar a agressividade dos candidatos. Só foram selecionados estudantes considerados normais. Ou seja, sem uma agressividade elevada, sem desvios de conduta, sem demonstrações de sadismo e violência. Cidadãos comuns.

Em pouquíssimo tempo, devido a pressões propositais do estudo, os alunos no papel de carcereiros começaram a apresentar condutas abusivas com os presos. Atrapalhavam o sono dos presos, chamavam os presos por números, obrigavam-nos a tirarem a roupa.

O experimento teve de ser interrompido em 6 dias, pois os carcereiros haviam se tornado monstros devido ao ambiente em que estavam e a autoridade a que eram submetidos. A sensação de poder e o desafio da masculinidade gerou o máximo de violência possível, já que os alunos eram proibidos de agredir os prisioneiros. Alguns carcereiros se negaram a executar ações violentas, mas não coibiram as ações dos agressores. Na verdade, eles utilizavam os agressores como parâmetro para ganhar pontos com os presos. Uma relação estranha que lhes dava um certo poder e prazer por serem diferentes dos agressores, pois eram apenas cúmplices.

Outros testes foram realizados mundo afora. Os testes de Milgram colocavam pessoas comuns em situações de autoridade e pressão e o resultado era a atitude insensível ou tirânica. Em alguns casos, os autores do estudo informavam subjetivamente alguns adjetivos desumanizadores acerca da suposta vítima. O resultado era quase sempre mais violência. O teste pedia para que os participantes aplicassem choques em uma pessoa que estava em outra sala – o participante não via a pessoa, mas ouvia os gritos. Os choques eram falsos, mas o ator gritava de verdade quando o participante girava o botão para emitir a descarga elétrica. O resultado foi alarmante. Pessoas comuns eram capazes de torturar uma pessoa se alguma autoridade exigisse, se houvesse uma ausência de responsabilidade e identificação ou se elas recebessem alguma informação da vítima que adjetivasse aquela pessoa de maneira negativa.

A resposta da ciência é: o ambiente tem uma enorme influência sobre nossos comportamentos.

O que significa que investir em melhoramentos para a sociedade é uma forma mais eficiente de prevenir crimes do que investir em mais armas, mais prisões, mais violência.

Martel Alexandre del Colle é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.

 

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