O romantismo e o racionalismo se enfrentam na arena social brasileira
Quarta-feira, 12 de junho de 2019

O romantismo e o racionalismo se enfrentam na arena social brasileira

O atual confronto político e cultural, não só no Brasil, mas também na Europa e Estados Unidos, remete a uma antiga pendenga novecentista. Caudatários do pensamento revolucionário que incendiou o Ocidente, Romantismo e Racionalismo opõem duas concepções de mundo que podem perfeitamente ser confrontadas, à luz das disputas encetadas em nossa atribulada sociedade política.

O Romantismo, de um lado, preconiza, como molas propulsoras do seu agir, o voluntarismo, a intuição, as emoções, os sentimentos, o solipsismo, as paixões, o entusiasmo e o subjetivismo. Já o Racionalismo, de outra senda, implica a razão, a ciência, o cálculo, as deduções complexas, a ponderação e a análise como fundamentos de seu proceder.

Em linhas gerais, podemos notar a marca divisória bem nítida entre os adeptos da vontade de poder, do “eu em si”, e os defensores do intelectualismo e da busca pela construção lógica e sistemática do conhecimento, a partir de valores transcendentes ao homem, fruto do exercício racional.

Byron, Schopenhauer e Nietzsche representam a ala romântica, ao passo que Bentham, Stuart Mill e, por que não?, Marx traduzem a verve racionalista. Essa dualidade talvez explique um pouco de que lado do jogo político e da cultura se está.

Ou seja, o modo romântico de se revoltar é muito distinto da maneira racionalista de se indignar, na medida em que a primeira ressalta a vontade em detrimento da inteligência, revela impaciência diante das tramas do raciocínio, hostiliza aquilo que frequentemente se denomina razão, peca por ser anticientífica e, não raro, exalta alguns espectros da violência.

Na práxis política, o Romantismo alia-se, fervorosamente, ao nacionalismo exacerbado e cego, razão pela qual se constata que a Alemanha fora mais susceptível ao romantismo do que qualquer outro país, haja vista que, no auge, protagonizou a apologia antirracional do voluntarismo sem limites.

A degeneração do Racionalismo, a seu turno, levou, ao extremo, à desumanização da sociedade, renunciando aos afetos, à amabilidade e ao sentimento de solidariedade, de maneira que despiu o homem dos sentimentos que lhe eram inerentes, haja vista que o próprio caminhar racional da História apontava para esta construção. Teve, no socialismo real soviético, à imagem e semelhança de Stálin, o seu corifeu mais infame.

Restringindo tal análise ao Brasil, sob a batuta do bolsonarismo triunfante – ainda e por enquanto, na medida em que “os dados do jogo político” estão sempre rolando –, o diagnóstico é de que o pensamento romântico, apesar de um tanto quanto acaboclado e chinfrim aqui em Pindorama, deseja desesperadamente se impor.

O desprezo pela ciência, pela filosofia, pelos direitos humanos, pela dignidade das pessoas, pelos pobres, pretos e favelados; o sentimento gratuito e rancoroso de vingança, retaliação e revanchismo baratos; o modo arrogante, grosseiro e amador de conduzir a política; o delírio de seus métodos e a pequenez insólita dos objetivos buscados, esquecendo até mesmo o conselho maquiavélico segundo o qual o príncipe, de verdade, deve se ocupar das “coisas grandes” que envolvem seu governo, denunciam a primazia e o ressurgimento irritantes e desavergonhados de um Romantismo precariamente recauchutado, em detrimento de alguma atitude consentânea à razão e ao trabalho intelectual mais consciente.

A tragédia voraz, infelizmente, está à espreita dos que querem defender as instituições democráticas, a prevalência do governo das leis sobre o dos homens e o progresso científico e social, na medida em que o presidente comanda um assustador e numeroso exército recrutado nas grotescas e inusitadas fileiras do ressentimento, do ódio, do medo, da desesperança e do senso comum mais rasteiro e ignóbil, mal disfarçados numa pobre fantasia dita liberal (na economia) – conservadora (nos costumes)? e num opaco e fino verniz pseudorreligioso, bem como num patriotismo jeca, submisso incondicionalmente – não aos nobres ideais dos pais fundadores dos Estados Unidos da América – à política deletéria do “síndico” esquisito de plantão.

Impera o gosto discutível pela estética da fealdade, do ridículo e da avacalhação, fazendo-o permear todos os níveis da sociedade, de alto a baixo, com atrevimento e despudor inauditos. Tempos obscuros, em meio aos quais não é possível sequer tatear minimamente os rumos que vamos tomando. Os de espírito Iluminista, cuja tradição revela otimismo em relação ao futuro, são tomados pela tensão e pela amargura. Atordoados, tentam inutilmente interpretar este estado de loucura, para, talvez, encontrar alternativas ao precipício em que nos metemos.

Para ilustrar melhor o raciocínio, espanta o argumento insano de que cursos como Filosofia e Sociologia não dão retorno prático à sociedade, o que, em si, não passa de uma grande mentira. Somos o que somos, saímos das cavernas em direção aos confins do universo por conta sobretudo da maneira elegantemente filosófica de pensar. Aliás, o corte de verbas na educação, ao invés de causar lamento, foi motivo de comemoração e regozijo do ministro Weintraub.

Entretanto, a fim de desmontar os sofismas por eles propalados, dados estatísticos, atuariais, econômicos e contábeis – dados matemáticos e eminentemente instrumentais, portanto – são maldosamente desprezados, pois jamais são e serão levados em conta na adoção de, vá lá, suas “políticas públicas”. Isso só confirma o fim tenebroso para o qual estamos nos encaminhando, na medida em que tanto as ciências humanas quanto as exatas não têm valor nenhum para os atuais inquilinos de Brasília, e que, a qualquer momento, quando os incomodarem de fato, as ditas ciências “que trazem retorno” tornar-se-ão descartáveis, irrelevantes e supérfluas.

É óbvio que os que estão no poder não são “culpados” disso tudo sozinho. De um modo geral, a classe política, tão vituperada por este governo, e, de um ponto de vista especial, a esquerda contribuíram com o seu quinhão para o atual “estado da arte” da (im)política e da (des)governança brasileiras.

Ouso discordar do inigualável Bertrand Russell quando sustenta, no magnífico livro “A Conquista da Felicidade” – embora, é claro, o diga de forma filosoficamente provocativa – que “a inveja é a base da democracia”. Na verdade, a inveja é, antes e acima de tudo (penso eu, modestamente), a base do despotismo e da truculência.

 

Marcos Antônio da Silva é mestre em Direito pela UENP.

 

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