A nova democracia ocidental na perspectiva de Chantal Mouffe
Sexta-feira, 14 de junho de 2019

A nova democracia ocidental na perspectiva de Chantal Mouffe

Na perspectiva da teoria politica de Chantal Mouffe vemos a apropriação do antagonismo destrutivo como linguagem por extremos políticos, tendo em vista a existência do inimigo como forma de alimentação e sustentação de regimes autoritários

Imagem: Chantal Mouffe em 2013. Fonte: wikipédia.

Por Jucemir de Oliveira Vidal

 

A atual democracia ocidental produziu processos históricos que permitiram fazer uma análise interligada dos caminhos tomados pela sociedade na contemporaneidade através dos movimentos sociais e a sua correlação com a perspectiva filosófica de Chantal Mouffe. Mouffe é uma filósofa belga que investiga o agonismo em contraponto ao antagonismo na politica (entendida por ela enquanto espaço de confronto e conflito), por meio das  características do agonismo na formação da nova democracia do ocidente, partindo de uma abordagem multidisciplinar das forças politicas existentes e sua correlação com valores culturais, filosóficos, estéticos e morais.

 

Pode-se notar que as democracias mundiais se encontram em cheque quando o retorno a lideranças autoritárias é apresentado como legitimo nos poderes superiores e no executivo em particular, na crítica destrutiva e violenta à tripartição de poder, da legitimidade do parlamento atuante nas formas de fiscalização e transformação da agencia política e no rechaço as vozes criadas por movimentos sociais ou manifestações populares; o que contraditoriamente não produz aumentos das liberdades civis ou avanço de pautas econômicas dos indivíduos como denotado na historiografia recente; o que se tem é paradoxalmente uma guerra comunicacional e disputa de narrativas para a supressão das liberdades e direitos civis, estas sim representantes de características essenciais para uma democracia saudável, mas que são seriamente renegadas e muitas vezes silenciadas; pode-se ver isso, sobretudo, nos grupos de extrema-direita surgidos nos anos 2000, onde o discurso de lideres extremos foi apresentado como sendo a única solução para crises econômicas e sociais; onde postura privadas são sobrepostas às responsabilidades civis e democráticas.

 

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Como saldo de tal comportamento é notório o surgimento de lideres carismáticos com características messiânicas, mitológicas, ditatoriais, egocêntricas e autoritárias que produzem a legitimação do comportamento individual e sua postura pessoal como a única viável  para a aceitação do coletivo pelos seus seguidores, onde a utilização de uma massa com inclinações extremistas tem se mostrado crescente na pós-modernidade. Neste contexto, o perigo que surgirá inevitavelmente é que o questionamento da liderança já não encontra reverberação entre seus seguidores, a ciência é suprimida pelo místico, o politico se apropria da teoria do direito divino absolutista, definindo um regime onde somente uma casta social é reconhecida como digna de receber a honraria de ser o agente politico público.

 

Na perspectiva da teoria politica de Chantal Mouffe vemos que tal comportamento se deu potencialmente pela apropriação do antagonismo destrutivo como linguagem por extremos políticos, tendo em vista a existência do “inimigo” como forma de alimentação e sustentação de regimes autoritários. A proposição de Mouffe, ao contrário de um terceira via, se faz na ressignificação e na transformação do antagonismo em agonismo, onde pontos de contatos em teorias e abordagens políticas possam ser estabelecidos. Isso só pode ser existente quando as linhas do discurso tese, antítese e síntese andem paralelamente na politica.

 

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Na lógica de discurso: elemento A apresentando a tese, elemento B fazendo a antítese e finalmente A+B promovendo a síntese, tanto de ideias abstratas quanto de políticas publicas efetivas. Ocorre, assim, um saldo politico muito maior e tal possibilidade só se fortalece a partir do momento em que o antagonismo politico é substituído pelo agonismo politico, onde a “destruição”, “lacrações” e “mitadas” não sejam consideradas partes do discurso politico, pois frases de efeito não se constituem em experiências politicas práticas de agendas públicas, onde diálogo, negociações e articulações se fazem necessárias.

 

Tal forma de contato se torna praticamente impossível em grupos que já se apropriaram do culturalismo do ódio extremista, todavia até a chegada ao extremista totalitário existem diferentes tonalidades de posturas e posicionamentos que podem e devem ser convergidos para um bem comum, mas que se encontram, infelizmente, cada vez menores no momento atual e percebemos que é assim que as democracias morrem.

 

Jucemir de Oliveira Vidal é  pós-graduado em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Cândido Mendes, Graduado em Administração pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e Sociologia pela Universidade do Norte do Paraná

 

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