A insolência das religiosas que pensam
Domingo, 16 de junho de 2019

A insolência das religiosas que pensam

Por Simony dos Anjos

Em 2016, foi produzida pelo Netflix a série intitulada Juana Inés que retrata a vida e a obra de Juana Inés de Asbaje que viria tornar-se Sor Juana Inés de la Cruz, freira da ordem Jerônima, conhecida como A Fénix da América. Provocada por essa série, resolvi fazer um pequeno relato sobre grandes mulheres que me inspiram a ser uma religiosa insolente. Amo a Deus, e porque O amo, não aceito ser subjugada. Afinal, se ele habita em mim, meu corpo tem o mesmo valor que o corpo de um homem. Eu não fui a primeira a pensar assim e não serei a última. Desse modo, apresento a vocês Juana Inés, Sojouner Truth, Frida Maria Strandberg Vingren, Elizabeth Cady Stanton e Ivone Gebara, mulheres religiosas insolentes, graças a Deus!

Juana Inés era uma intelectual de alto quilate, grande conhecedora dos filósofos gregos, dos teólogos católicos e das ciências. Juana Inés nasceu em 1651, na colônia espanhola do México e, para poder estudar, candidatou-se a dama de companhia da corte espanhola. Juana tornou-se freira unicamente para poder passar os dias lendo e escrevendo, pois a ela foi negada a possibilidade de ingressar na Universidade. Alta conhecedora da bíblia, ousou debater teologia, uma atividade proibida para mulheres e por tal produção intelectual foi perseguida. É uma história que vale a pena para nós religiosas, sempre tão tolhidas no mundo secular e, principalmente, nas Igrejas Cristãs. Disse Sor Juana Inés que “Meu único pecado foi ser mulher, em um mundo de homens”, e a ela ainda fazemos coro, quase 400 anos depois.

A história é potente para pensarmos dois aspectos da vida feminina subjugada: a sexualidade e o livre pensamento. Como esposa de Cristo, devia manter castidade, contudo ela transpirou todo desejo e potência do corpo através de seus poemas, nos quais revelou sua paixão por Lisy, a Marquesa de La Laguna. Juana e Lisy protagonizam um lindo romance no qual é evidenciado a potência do amor entre mulheres em um mundo medieval que atribuía às mulheres apenas o dever de procriar, lhes negando o prazer do gozo, com o qual Deus presenteou a humanidade.

Ao romper com as amarras que lhe negavam a oportunidade de aprender e produzir teologia, Juana Inés traz consigo a imagem de uma mulher livre: sexualmente e intelectualmente – um escândalo para a época! No poema “Hombre Necio” a Décima musa – um dos seus apelidos – diz que “Homens néscios que acusais/ à mulher sem ter razão,/ sem ver que sois a ocasião /do mesmo que vós culpais:” Corajosamente Juana acusa os homens de causarem todo o mal que atribuem às mulheres, trazendo-os às responsabilidades por suas atitudes e recusando a pecha de pecadoras e eternas devedoras da humanidade. Juana Inés morreu em 1695.

Em 1797, nasceu, nos Estados Unidos, Sojourner Truth, mulher negra escravizada que mudaria os ânimos do movimento sufragista americano. Ela destoa da maioria dos nomes que se destacam na primeira onda do feminismo, que emerge no final do século XIX, protagonizado por mulheres brancas preocupadas com seus direitos civis, em detrimento das necessidades das mulheres negras escravizadas. Desse modo, Truth aponta que o movimento sufragista era limitado ao proferir o discurso Ain’t I a Woman? (Não sou eu uma mulher?), na Convenção dos Direitos da Mulher de Akron, Ohio, em 1851. Para Angela Davis “ao repetir sua pergunta, ‘Não sou eu uma mulher?’, nada mais do que quatro vezes, ela expunha o viés de classe e o racismo do novo movimento de mulheres”.

Há, contudo, um lado de Truth que pouco se sabe: como a maioria das pessoas trazidas de África, Truth passou pelo processo de cristianização forçada. Ela se converteu ao cristianismo, mas não lhe bastou ouvir sermões que defendiam a inferioridade do povo negro e das mulheres. Truth ousou a fazer a sua própria interpretação da Bíblia, abrindo portas para o que se chamou de Teologia Negra, que tem como um dos seus grandes ícones Reverendo Martin Luther KIng. Afrontou o patriarcado ao declarar: “Daí aquele homenzinho de preto ali disse que a mulher não pode ter os mesmos direitos que o homem porque Cristo não era mulher! De onde o seu Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com isso.”

Sojourner Truth, ou Peregrina da Verdade, era seu nome de pregadora cristã, uma mulher que saiu pelo país defendendo a causa negra e das mulheres. A primeira mulher a ganhar um processo contra um homem branco, em uma corte estadunidense: ao recuperar a guarda do seu filho, vendido como escravo ilegalmente. Seu nome era, na verdade, Isabella Baumfree – a mulher negra que ousou a dizer o que pensava da Bíblia, nos Estados Unidos de Lincoln.

Em 1891, nasceu Frida Maria Strandberg Vingren, na Suécia, sendo criada em uma família de crentes luteranos. Em 1917, chega ao Brasil e se casa com o sueco que fundou, em Belém do Pará, a Assembleia de Deus. Em 1924, vai para o Rio de Janeiro e se torna a primeira mulher e dirigir uma Escola Bíblia Dominical. Frida se destacou como uma pregadora contumaz da Bíblia e grande questionadora da ausência de mulheres nos púlpitos e nas instâncias decisórias da igreja. Foi, também, fundadora do Jornal Som Alegre, no qual defendeu o ministério feminino.

Em 1932, ela retorna para Suécia e de forma violenta e desumanizadora, ela é detida na estação de trem de Estocolmo, de onde sai com uma camisa de força em direção ao hospital psiquiátrico. Ela é enlouquecida como modo de calar-lhe e tirar-lhe a possibilidade de ser uma voz dissonante na Igreja. No dia 30 de setembro de 1940, Frida morre na Suécia, internada em um sanatório, estava tão debilitada que pesava 30 quilos. Porém, antes disso, a igreja lhe tira a guarda dos filhos e doa todos os seus bens.

Em 1815, nasceu Elizabeth Cady Stanton que, em 1895, criou uma versão da Bíblia baseada na experiência feminina da religião protestante. Cometendo um ato revolucionário que possibilitou uma interpretação não ortodoxa da bíblia e combativa ao discurso religioso da subserviência da mulher. A teóloga e sufragista ousou confrontar o patriarcado com sua própria arma: a bíblia.

Na contemporaneidade, haveria muitas mulheres a citar, entretanto, escolho uma que sofreu um castigo exemplar do que os homens que regem a Igreja, querem fazer conosco: Ivone Gebara. Em 1995, a teóloga foi processada e condenada pelo Vaticano ao silêncio obsequioso, por fazer críticas à doutrina da Igreja Católica, especialmente em defesa da legalização do aborto. Gebara compõem o que chamamos de Teologia Feminista, que aprofundou o entendimento da Teologia da Libertação em favor dos pobres, para a defesa da vida das mulheres e contra todo machismo eclesiástico. Se a Teologia da Libertação olhava para os pobres, não enxergava que dentre esses pobres, quem mais era oprimida era a face feminina dos excluídos. Sendo assim, mulheres teólogas, como Gebara, começaram a produzir um Teologia a partir da vivência de mulheres que lutavam contra o patriarcado.

Querer calar a voz de uma religiosa insolente, não é um acontecimento raro. E esse mesmo mecanismo de calar para o entendimento teológico, cala as denúncias de mulheres que sofrem diuturnamente violências físicas e psicológicas, em nome de Deus. Um Deus-macho que não olha e nem se compadece das mulheres. Um erro. Na leitura feminista da bíblia, enxergamos que as narrativas exaltadas e repetidas nas igrejas, foram narrativas escritas por homens e para homens. A interpretação desses textos é feita com o afã de castigar o corpo feminino, um corpo que sangra e não morre, como o corpo de Cristo.

Na nossa leitura, encontramos em Maria de Betânia a grande seguidora de Jesus, a quem Ele fala que devemos imitar em memória DELA, por sua devoção e lealdade (Lc 7,37). Para nós, Hagar vê a Deus e Ele a favorece, ao contrário do que fizeram Abraão e Sara (Gn, 21). Para nós, Deus é mãe, Ruah é Mulher e o filho saiu de uma mulher. Uma mulher é a mãe de Deus!

Nós religiosas insolentes, acreditamos que a vivência da fé é constituidora da subjetividade. A quem foi ensinado a crer, é muito difícil negar a fé. Contudo, fé e religião são coisas absolutamente diferentes. Nós decidimos não usar nossa fé para oprimir, pois acreditamos que fomos chamadas para a liberdade (Gl. 5,1)! Desse modo, optamos por re-imaginar Deus e a sua face, pois se o Deus-Patriarcal tem sido há séculos ferramenta de subjugação dos corpos femininos, Deus-mãe nos dá força para lutar pela vida de todas as mulheres! O estudo, o conhecimento, o pensar, que fez dessas mulheres grandes profetas, é nossa ferramenta de libertação e amor à vida. Pensaram que iam apagar toda essa trajetória de resistência à religião hegemônica, mas nós não deixaremos. E vamos seguir!

 

Simony dos Anjos é cristã, evangélica, graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestre em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

 

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