Uma semana entre os neopentecostais: um projeto vigoroso de poder político
Segunda-feira, 17 de junho de 2019

Uma semana entre os neopentecostais: um projeto vigoroso de poder político

 

Por Flávia D’Urso

 

No propósito de um tratamento natural para perder uns quilinhos e melhorar meus índices glicêmicos encontrei um espaço muito sedutor. A clínica e spa apresentava um ambiente acolhedor, a natureza era exuberante, uma belíssima estrutura de esporte, atendimento médico atencioso e competente, a culinária saborosa (a despeito de vegana e diminuta…) e uma equipe de massagistas, educadores físicos e fisioterapeutas simpaticíssima. 

Muito embora a página na internet trouxesse a informação de que local mantinha uma referência religiosa, a ênfase era o tratamento natural e alterações no estilo de vida. A sempre alimentação saudável e a importância da atividade física eram as diretrizes, como de resto em qualquer recomendação médica ou nutricional para os preocupados – ou quase neuróticos como eu – pela saúde. 

A estadia foi de uma semana. Na rotina diária, intercaladas às atividades físicas, de relaxamento, terapias com chás e hidroterapias, havia o momento da oração. Uma massagem; uma reza; que era precedida sempre por um pedido gentil e carinhoso em nome da família, de valores e do bem-estar. Horários muito rigorosos para dormir, acordar, comer, exercitar-se e… orar. Além disso, em todas as manhãs, os hóspedes eram convidados ao momento das “reflexões”. Tratava-se de uma reunião com um pastor durante 30 minutos para, ao que se propugnava, a possibilidade de um profundo entendimento de si e das relações dos homens com Deus. 

A proposta, em verdade, aparente de autoconhecimento, revelava o que já se notava em poucos minutos da fala: um abono divino de riqueza material. Na oratória do líder religioso, destacada em cada frase, menção bíblica (“Eu vim para que eles tenham vida e a tenham em abundância” (João 10:10) e referências doutrinárias, o objetivo era o de transmitir uma benção financeira. A prosperidade – conclamava as “reflexões”- é o desejo de Deus para os cristãos e a fé, o discurso marcadamente otimista (sem a culpa característica dos católicos) bem como as doações, aumentariam o poder econômico dos fiéis. 

Em uma das manhãs, o pastor se pôs a nos encorajar a fazer declarações positivas dos aspectos da vida familiar, conjugal e profissional, sem deixar de acrescentar o que se pretendia melhorar. Repetidas vezes, posteriormente aos depoimentos, o orador  enaltecia a grande necessidade do otimismo e de seu poder de, miraculosamente, modificar o estado de coisas indesejáveis. É o que se conhece por confissão positiva: uma retórica de assunção, professada de forma mecânica, para alcançar todos os objetivos através do poder espiritual. Como se vê, um programa minuciosamente traçado. Para além de uma alimentação e atividades físicas de todo saudáveis, práticas disciplinadas e estratégicas de um empoderamento individual. Fruto, evidentemente, da vontade divina de um povo feliz.

Os rituais experimentados naquela semana puderam conferir mais concretamente a dimensão e o propósito dos evangélicos que tanto tem despertado a atenção no cenário político brasileiro. De fato, talvez tenha sido esse segmento social um dos maiores responsáveis pela eleição de um candidato improvável, assustadoramente despreparado e que já protagoniza possivelmente um dos maiores períodos de instabilidade no país. 

Um levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) aponta um importante avanço da bancada evangélica no Congresso Nacional. Para a Câmara dos Deputados foram eleitos 84 candidatos identificados com essa crença religiosa – nove a mais do que na última legislatura. No Senado, os evangélicos anteriormente as eleições de outubro de 2018 eram três. Hoje, sete senadores. No total, o grupo que tinha 78 integrantes ficará com 91 congressistas [i].

A ideia é a de investigar neste texto o sucesso da teologia da prosperidade que fundamenta o significativo destaque do movimento neopentecostal como um projeto sólido de poder político a partir de dois eixos de pensamento: o poder disciplinar e a agenda neoliberal.

A disciplina no estudo da genealogia de poder em Michel Foucault

Foucault revolucionou o pensamento filosófico em sua analítica de poder ao priorizar o conceito de dominação e de fabricação de sujeitos. E a disciplina mereceu nesse projeto um acurado interesse.  Para o filósofo, esse termo significa um conjunto de técnicas em virtude das quais os sistemas de poder têm por objetivo o governo de corpos, uma técnica para criar indivíduos dóceis e úteis [ii]. Trata-se de uma forma de poder que visa os corpos em seus detalhes, em sua organização interna e na eficácia de seus movimentos.

A finalidade desta técnica, para Foucault, é o de aumentar a força econômica do corpo e, ao mesmo tempo, reduzir a sua resistência.

É uma nova relação entre poder e corpos, como o autor explica em Vigiar e Punir [iii]:
”o momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente ao aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição [iv] , mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna muito mais obediente quanto útil, e inversamente. Forma-se então uma política de coerções que é um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra em uma maquinaria de poder que o esquadrinha, desarticula e o recompõe. Uma “anatomia política”: que é também uma mecânica de poder, está nascendo (…) a disciplina fabrica assim corpos submissos, exercitados, corpos dóceis”.  

O corpo está, desta forma, mergulhado em um campo político. E as relações de poder têm um alcance imediato sobre eles: elas o investem, o marcam, o dirigem e obrigam-no à cerimônia e exigem—lhes sinais. É manifesto o desejo da captura dos corpos no universo religioso dos neopentecostais nos moldes propostos de relações de poder que estabelece Foucault. E o rigor de horários, o aprimoramento físico, a mecanicidade das orações e a retórica otimista, como algum dos exemplos aqui trazidos, revelam duas significativas conclusões da analítica do poder político quanto à disciplina: 

1. trata-se de uma eficácia produtiva, uma positividade em contraponto a uma ascendência exclusivamente repressiva;
2. ela proporciona uma  singularidade às pessoas, que as distingue e as individualiza. 
 
Estas parecem ser as chaves da dominação capitalista.

O neoliberalismo evangélico

A estrutura foucaultiana de compreensão da modernidade, anteriormente investigada no mecanismo da sociedade disciplinar, torna-se mais complexa quando o filósofo esquadrinha o conceito de governamentalidade. Nesse momento de suas pesquisas ele estuda as práticas de governo no mercantilismo, no cameralismo, no liberalismo clássico e do neoliberalismo. Foucault não aborda a questão do liberalismo como um teoria ou uma ideologia, mas sim como uma prática, ou seja, “uma maneira de fazer”, um  princípio e um método de racionalização do exercício de governo. 

Esta prática implica duas características. A primeira, é a aplicação do princípio da máxima economia, quer dizer, maiores resultados ao menor custo. E maiores resultados não se traduzem em crescimento do Estado; ao contrário, significa uma limitação da ação do governo. A sua apreensão e alcance se dá, na verdade, no âmbito privilegiado do mercado. É, com efeito, neste ambiente que a racionalidade política do liberalismo é demonstrada. 

Neste passo, importante algumas considerações desta lógica. 

De fato, no século XVIII a economia não era um assunto específico e  fazia parte da “Filosofia Moral”. Foi Adam Smith o primeiro filósofo a reconhecer que as ações de mercado mereciam um estudo cuidadoso e em tempo integral numa moderna disciplina das Ciências Sociais.

Ele é o  criador das premissas teóricas  mais aceitas na economia moderna acerca do liberalismo. Nelas, ele confrontou as ideias de Quesnay e Gournay, afirmando que a desejada prosperidade econômica e a acumulação de riquezas não são concebidas pela atividade rural e nem comercial. Para Smith, o elemento de geração de riqueza está no potencial de trabalho individual sem ter o Estado como regulador e interventor.

Outro ponto fundamental, e que nos interessa particularmente à compreensão da teologia da prosperidade, é o fato de que todos os agentes econômicos são movidos por um impulso de crescimento e desenvolvimento econômico pessoal. Em um contexto mais amplificado, defendem os adeptos do liberalismo, ele traria benefícios para toda a sociedade, uma vez que a soma desses interesses particulares promoveria a evolução generalizada, um equilíbrio perfeito.

AS ideias precursoras do liberalismo clássico influenciaram de forma decisiva as atuais concepções do neoliberalismo, relacionadas na sociedade contemporânea ao capitalismo financeiro. Em uma das últimas aulas, “Nascimento da Biopolítica”, Foucault analisou o neoliberalismo americano da Escola de Chicago. Nessa prática, ele estende a racionalidade do mercado como critério para além do domínio da economia, isto é, à família, à delinquência ou a política penal. E, como agora se vê, à algumas religiões.  

A industrialização da economia, anteriormente investigada na ótica liberal por Smith, ingressa em uma nova etapa histórica: a economia torna-se agora financeirizada. É o que se entende por neoliberalismo, apreendendo-se nesta sofisticada forma de capitalismo  políticas de liberalização da econômica extensas, como as privatizaçõesausteridade fiscaldesregulamentaçãolivre comércio, e o corte de despesas governamentais com o fito  de reforçar o papel do setor privado.

E a  força produtiva de  corpos dóceis bem como a  ausência de resistência pela satisfação pessoal abençoada por Deus e  prometida pelo  empoderamento individual financeiro são ingredientes extremamente  eficazes para estas práticas capitalistas. De fato, a  motivação religiosa do movimento neopentecostal, não parece haver dúvida,  fundamenta um impulso aquisitivo que é a pedra de toque deste  sistema econômico. 

Os objetivos econômicos dos adeptos deste tipo de evangelismo ensejam, ao menos, duas constatações. 

A primeira, é a de que as virtudes próprias caras aos princípios religiosos professados por cristãos ou não cristãos, ou de qualquer outra crença, não estão em   um horizonte próximo. Talvez sequer remoto. A ideia é, na verdade, a inserção em uma sociedade consumista o que é, de primeira intuição, assunto muito mais relacionado a prazeres terrenos do que espirituais. 

A segunda constatação, cujo potencial de repercussão vem se apresentando de forma devastadora, é a de tratar-se de um projeto de poder político muito organizado para a imposição de uma agenda neoliberal. O Presidente da República, que em seu programa eleitoral garantia a consecução deste modelo na economia teve, como se sabe, apoio maciço dos evangélicos.

O afastamento do Estado, como querem os neoliberais, acaba por comprometer a democracia representativa na medida em que ele é retirado do seu protagonismo constitucional de garantia da essencialidade da condição humana. A dignidade humana, como quer a nossa Constituição Federal, é ainda o núcleo dos direitos fundamentais da pessoa e não de instrumentos econômicos produtivos e reificados. 

Paradoxalmente, o desejo de poder político dos neopentecostais, ocupando a cada eleição mais cargos públicos, nessa nova ordem social é o da despolitização, ou seja, retirar os cidadãos da sua condição de sujeitos essenciais do Estado. Vale dizer, almejam a substituição da subjetividade política, cidadãos centrais da democracia participativa, pelo homo economicus, um fragmento humano, que se limita mediocremente à produção e ao consumo. 
 
A propósito, perdi alguns quilos. A que preço!

 

Flavia D’Urso. Defensora Pública aposentada. Mestre em Processo Penal e Doutora em Filosofia Política pela PUC de SP. Autora da obra “ A crise da representação política do Estado”,  Editora Manole.

 

Leia mais:
A crise da representação política – Subjetividade política
A crise da representação política do Estado
A crise da representação política do Estado – Ações políticas


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[i] Correio Brasiliense, de 18/10/2018.
[ii] CASTRO,  EDGARDO.  Vocabulário de Foucault. Belo Horizonte:Autêntica Editora, 2009. P 332
[iii] FOUCAULT, MICHEL.  Vigiar e Punir. Petrópolis:Vozes, 1999, p. 127.
[iv]  Por não  se tratar  de um sistema de escravidão .
Segunda-feira, 17 de junho de 2019
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