Não é pela farda ou prestígio. É para fazer um país melhor. Para essa luta, eu sempre serei policial
Terça-feira, 18 de junho de 2019

Não é pela farda ou prestígio. É para fazer um país melhor. Para essa luta, eu sempre serei policial

Quando eu virei policial, eu sequer sabia a diferença entre oficiais e praças. Eu queria era ir combater o crime igual nos filmes

Imagem: Secretaria de Segurança Pública, governo do estado do Paraná (seguranca.pr.gov.br)

Por Martel Alexandre del Colle

 

 

Eu queria era ir combater o crime igual nos filmes

Lembro-me de uma situação bem engraçada que ocorreu no meu curso de formação de oficiais. Tive aula com um coronel muito reconhecido por sua operacionalidade. Tenho de reconhecer que ele era muito bom instrutor. A matéria ministrada era a de tática para confrontos armados. Quando eu entrei na polícia, eu sequer sabia a diferença entre oficiais e praças. Eu queria era ir combater o crime igual nos filmes. Eu tinha uma visão muito mais militar da polícia e as aulas operacionais eram um prato cheio para os meus objetivos.

 

Esse coronel nos deu aula em duas oportunidades, em dois anos do curso. A parte engraçada é que, antes de ministrar-nos aula pela primeira vez, esse coronel tinha ido para um curso em Israel. Um curso com as tropas de elite de lá. E as tropas de elite de lá eram treinadas de maneira muito semelhante as tropas de elite daqui do Brasil. Então, quando alguém errava um tiro no alvo ele gritava, xingava, ficava bem zangado.

 

Porém, no ano seguinte, quando ele foi nos dar o segundo ano da matéria, ele tinha acabado de retornar de um curso na Europa, com as tropas de elite de lá. E o tratamento dele conosco foi totalmente diferente. Ele nos tratava com muita paciência e respeito. Explicava a mesma coisa diversas vezes, se necessário. Eu fiquei bastante surpreso com aquela mudança.

 

O ponto é que esse coronel fez uma coisa que muitos oficiais nunca fizeram: ele avaliou seus próprios erros e mudou. Esse coronel se tornou comandante geral da polícia. E, sinceramente, ele é mais um dos caras que eu tenho esperança de que façam algo para mudar a polícia. Porém, eu me tornei um pouco cético quanto à isso.

 

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Muitos soldados narram a mudança drástica dos oficiais conforme eles vão ascendendo na carreira. Quando eu estava em patrulhamento e falava com o soldado que era meu motorista sobre as coisas que a polícia precisava melhorar – que ela precisa dar qualidade de vida para os soldados, instruções, ascensão de carreira, que a polícia deveria ter metas, deveria ouvir o que as praças têm a dizer sobre a construção da segurança pública – quando eu dizia todas essas coisas, a resposta dele era,

Tenente, sabe o coronel fulano? Então, eu era motorista dele igual eu sou do senhor. E ele era todo indignado também. Ele reclamava da forma com que os capitães o tratavam, reclamava da falta de estudo dos coronéis. Dizia que eles agiam de maneira egoísta em vez de pensar na segurança pública. E sabe o que aconteceu depois que eles viraram capitães? Eles se tornaram exatamente iguais aqueles que eles criticavam.

Essa fala me tirava do sério. Eu sempre dizia que, se me tornasse igual a um desses caras, o meu motorista podia me dar um tapa na cara quando me encontrasse.

 

O sistema era tão autoritário que eles aguardavam que eu os obrigasse a fazer. Mas eu não os obriguei.

E essa mudança já era patente no curso de formação de oficiais. O curso é dividido em três anos hierarquizados. Ou seja, o segundo ano manda no primeiro e o terceiro manda nos dois. Quando estava no primeiro ano, eu reclamava, juntamente com toda a minha turma, das ofensas, abusos de autoridade, irracionalidades cometidas pelos alunos mais antigos. O engraçado foi ver a mesma turma tratar os mais novos da mesma forma, quando foi a nossa vez. E eu não sou inocente aqui, eu só continuei me questionando e, por isso, sou crítico de tudo o que já fiz.

 

Depois de me formar, um oficial que era mais novo de polícia que eu, mas era meu contemporâneo de escola, contou-me que eu fiquei marcado para o pelotão dele por uma situação ocorrido no final de um pernoite. Ele contou que, depois do pernoite, eu reuni o pelotão deles, o qual estava sob meu contando, e informei a eles de que eu havia preparado uma dinâmica para fazer com o pelotão. Então, eu perguntei quais deles gostariam de participar da dinâmica e nenhum deles levantou a mão. Diante disso, eu dispensei o pelotão. Ele se lembrou disso porque era uma atitude inacreditável. Como era possível um superior perguntar aos subordinados se eles queriam fazer algo? O sistema era tão autoritário que eles aguardavam que eu os obrigasse a fazer. Mas eu não os obriguei.

 

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Isso me lembrou uma situação em Foz do Iguaçu. Certa vez, após horas de instrução ministradas ao meu pelotão – e minhas instruções geralmente eram bem cansativas –, quando já estávamos nos preparando para ir embora, o tenente do setor de inteligência apareceu na porta da minha sala. Ele estava muito agitado e pediu minha ajuda, acreditando que nós estávamos com o tempo livre e sem nenhuma atividade realizada anteriormente.

 

Ele, então, pediu minha ajuda, pois recebera a informação de que um grupo de criminosos perigosos estava em um hotel e seria necessário um cerco para prendê-los. Eu olhei para os meus policiais, cansado após o treinamento e perguntei, “quem é voluntário para virar a noite comigo na missão?”. Antes da resposta, o tenente se aproxima e diz,

Pô, Del Colle! Pedir? Você acha que algum soldado vai fazer o que você pede? Você tem de mandar.

Todos os soldados do grupo foram voluntários e nós passamos a noite na campana.

 

Não entrei na polícia para agradar meus superiores.

O pelotão da escola não era comandado só por mim, mas por mais todos os colegas de turma. E o pelotão estava tão acostumado ao esculacho que já não ligava mais para a retórica do “o militar sempre tem de ser voluntário”. Eles imaginavam que a minha instrução seria como quase todas as outras (muita sugação e pouco aprendizado) e, também, que não fazia diferença ser voluntário ou não, pois seriam abrigados no final.

 

Mas o  grupo de Foz trabalhava somente comigo e já tinha entendido que eu lutaria por eles em quaisquer circunstâncias. Sabia que eles não precisariam pedir uma reposição daquela madrugada trabalhada a mais, mesmo que os meus superiores não gostassem da ideia da reposição. Não entrei na polícia para agradar meus superiores. Entrei para fazer um mundo melhor, e isso incluía um mundo melhor para os meus soldados.

 

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Voltando ao coronel do começo do texto. Sabe por que a polícia muda tão devagar? Sabe por que o que um comando geral constrói o outro destrói? Sabe por que a cada troca de governador a polícia se perde?

 

Porque ela ainda é uma instituição totalitária. Ou seja, há muito poder na mão de pessoas que se consideram muito melhores do que elas são. O exemplo desse coronel é uma exceção dentro da polícia. É uma exceção ver alguém que admite os seus erros e faz diferente.

 

É básico que o policial seja um cidadão com direitos de um cidadão

Portanto, se eu acredito em uma mudança real na polícia, eu acredito que ela venha ou de fora ou de baixo. Ou a administração pública faz ou os soldados fazem. É possível – e até mais fácil – que um comando geral revolucione a polícia, mas é pouco provável. Pois, num sistema autoritário, para mudar é preciso olhar para si mesmo. É preciso se criticar. Se eu me encontrasse com o meu EU de 5 anos atrás, certamente eu teria muito para ensinar a ele.

 

Lembro-me de ter feito uma roda de críticas à minha forma de comandar em duas oportunidades na polícia. Uma no BPEC e uma na ROCAM de Foz. Nos dois momentos, eu pedi para que meus comandados me dissessem as coisas as quais eu deveria melhorar. Foi uma experiência fantástica.

 

Uma das críticas me dói até hoje. Dói porque eu não tinha culpa sobre ela. Alguns soldados reclamaram que eu não os acompanhava mais nas operações tanto quanto antes. Eu dei uma desculpa esfarrapada para isso, mas a verdade é que a minha depressão tinha começado a sair do controle, e eu não conseguia mais ficar acordado por muito tempo. Mas eu não tinha coragem de admitir isso ainda.

 

É básico que o policial seja um cidadão com direitos de um cidadão. Isso é básico para a felicidade do soldado, que merece descanso, respeito, bom salário e segurança no trabalho. E o começo da mudança acontece percebendo que a parte mais importante da polícia são as suas pontas. O administrativo trabalha para que a ponta trabalhe, e os oficiais trabalham para as praças. Não é o contrário.

 

Minha função como oficial é promover o melhor ambiente para que meu soldado trabalhe com a máxima eficiência e segurança e seja feliz. Não é a função do soldado promover a carreira do oficial.

 

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Eles também sangram

Fato é que a polícia precisa mudar. Não é mais tolerável ter tantos policiais cometendo suicídio. Não é mais tolerável tantas filmagens de policiais alterando o local de crime, executando. E essa mudança tem de começar em todos os lugares.

 

Começar nas praças, através da organização dos desejos, do entendimento da importância da ponta, da união.

 

Começar pelos oficiais, através do reconhecimento do erro, do fim da cultura do oficial gênio que acha que sabe mais do que todos os outros oficiais e soldados, da abertura para ouvir as praças, pelo planejamento de metas.

 

No fundo dos olhos deles têm sonhos

E começar, um dia, pelo comando geral. Quando tivermos um comando geral que tenha o entendimento de que o seu cargo é passageiro, mas ele pode mudar profundamente o estado em que ele comanda a força de segurança. O entendimento de que é preciso abrir a polícia para a sociedade e mudar as formas de gerência. De uma gerência que valoriza a carreira individualmente para uma que valorize a melhoria da polícia, da segurança pública e da qualidade de vida das praças e oficiais.

 

Para essa luta, eu sempre estarei aqui, sempre serei policial. Pois, eu não entrei pela farda, não entrei pelo prestígio, eu entrei para fazer um país melhor. E para essa ação eu pago o preço, como já estou pagando. E pago com orgulho.

 

Eles são iguais a nós. Nós. Que somos eles

Nota para curiosos. Tem muita gente falando que não aceita policial corrupto, mas aceita policial que executa pessoas (como se isso não fosse uma corrupção de caráter). Deixa-me contar uma coisa: os policiais corruptos e os executores não são de grupos diferentes. Que poder o policial corrupto tem para cobrar dinheiro da boca de tráfico, para comandar uma área, para coagir a propina? Exatamente! A ameaça de morte. A ameaça de uma morte que não será solucionada. Ele sabe que pode matar uma pessoa dentro de serviço e implantar uma arma, ou fora de serviço e não ser identificado.

 

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Logo, se você quer acabar com a corrupção na polícia, então acabe com as execuções. Investigue direito cada confronto armado. Diminuindo o número de homicídios, eu permito que a polícia civil investigue melhor esses casos. Investigando melhor,  eu começo a responsabilizar os homicidas. Responsabilizando os homicidas eu diminuo os homicídios. Um ciclo virtuoso.

 

Olhe! Não vire o rosto! Olhe!
Eles também sangram!
Olhe! No fundo dos olhos deles têm sonhos.
Assim como no fundo dos seus.
Nos rostos têm apreensão e medo. Você também tem medo, mas tem segurança.
Eles têm sentimentos.
Amor, paixão, ódio. Escondidos atrás da fome.
Disfarça mais amor que o ódio, mas olhe com atenção.
Eles são iguais a nós.
Não existe “eles e nós”. Só nós.
Nós atravessamos o mar para dar uma vida melhor para nossos filhos.
Nós queremos matar a fome.
Nós queremos felicidade e amor.
Nós queremos carinho e cuidado.
Nós. Que somos eles.
Nós queremos roupas e saúde para nossa família.
Nós queremos porque merecemos. Merecemos porque somos humanos.
Nós não somos definidos pelo lugar que nascemos, pela religião que professamos, pela língua que falamos.
Não somos definidos pela cor de nossa pele, nem dos olhos, nem do jeito que cumprimentamos.
Nossa definição maior é sermos humanos. Somos nós. Somos um. Somos herdeiros deste planeta. Somos sentimento. Somos amor.

 

Martel Alexandre del Colle é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.

 

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