A mediocracia tupiniquim
Sexta-feira, 21 de junho de 2019

A mediocracia tupiniquim

“Não existem sozinhos. Sua amorfa estrutura os obriga a se apagarem numa raça, num povo, num partido, numa seita, num bando: sempre a fingir que são outros

Crescem, porque sabem adaptar-se à hipocrisia social, como as lombrigas às entranhas.”

José Ingenieros

 

Não sei por que razões ocultas ou inconfessáveis, estando eu no silêncio de minha biblioteca, a cismar mil coisas, um tanto incomodado pela choldra que tomou de assalto o poder, como diria Brás Cubas: “pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a espernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.”

Levantei-me, tal qual um sonâmbulo acordado e me dirigi a uma das estantes e, como que em obediência a algum desígnio secreto, encoberto, furtivo, incógnito, meus dedos me guiaram até um pequeno volume, que dormitava em uma das prateleiras, retirei-o da companhia dos demais e o trouxe junto a mim até a mesa de leitura. Tudo se passou, como eu disse, num transe incognoscível. Ao sentar-me, dei com o tal livro entre minhas mãos, mirei o título e li: “O Homem medíocre”, do escritor ítalo-argentino José Ingenieros, cuja primeira edição se fez publicar em 1913. Fiquei, senão atônito, ao menos pensativo nas razões, inimagináveis para mim naquele momento: por que razão aludida obra, lida já há algum tempo, veio parar em minhas mãos?

Penso que alguma razão deve haver. Quem sabe o meu amigo leitor não a possa perscrutar? Já que o livro está aqui, aproveito para reproduzir um trecho para seu deleite ou fastio: “Desprovidos de asas e de penacho, os caracteres medíocres são incapazes de voar até o píncaro, ou de lutar contra um rebanho. Sua vida é uma perpétua cumplicidade com a vida alheia. São hostes mercenárias do primeiro homem firme que saiba colocá-lo sob seu jugo.” (José Ingenieros. O Homem Medíocre. Edições Spiker, S/D).

Como já nos ensinou Maquiavel, o príncipe que acabou de se sair vitorioso numa batalha não pode simplesmente confiar na força de suas armas, pois uma coisa é derrotar um exército, outra é administrar uma cidade, o que são coisas muito diferentes.

Com pouco mais de cinco meses o governo Bolsonaro, composto por uma camarilha de pessoas medíocres e que têm se mostrado completamente ineptas para as altas funções a que foram alçadas, só conseguiram produzir, até aqui, um festival de besteiras que deixaria bestificado até mesmo o cronista Sérgio Porto, que atendia pelo pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. À Título de exemplo dos disparates disparados pela equipe ministerial: “A terra é plana”, “O Brasil vive uma nova era em que menino veste azul, menina veste rosa”, “A igreja evangélica está perdendo espaço para a Ciência”, “Não existe aquecimento global”, “a globalização econômica passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”, “Europa é apenas um conceito burocrático e um espaço culturalmente vazio”.

A equipe escolhida pelo presidente Bolsonaro é composta de mulheres e homens prosaicos, alguns mais toscos e parvos que outros, com ideias rasas, estreitas e apequenadas, quando não eivadas de preconceitos medievais e destituídos, todos, dos ideais que deveriam nortear a liderança de uma nação. Segundo José Ingenieros: “Sem idealistas, seria inconcebível o progresso. O culto do “homem prático”, limitado às contingências do presente, importa numa renúncia a toda perfeição. O hábito organiza a rotina, e nada cria no sentido do porvir; só dos imaginativos é que a ciência espera as suas hipóteses, a arte o seu vôo, a moral, os seus exemplos, a história, as suas páginas luminosas. São parte viva e dinâmica da humanidade; os práticos nada fizeram do que aproveitar do seu esforço, vegetando na sombra.” (José Ingenieros. O Homem Medíocre. Edições Spiker, S/D).

Cada membro deste estafe de néscios, que ora nos governam, certamente ouviu e bem aprendeu as lições que, em dado momento, um cioso pai deu a seu estulto filho “Janjão”: “— Tu, meu filho, se me não engano, pareces dotado da perfeita inópia mental, conveniente ao uso deste nobre ofício. Não me refiro tanto à fidelidade com que repetes numa sala as opiniões ouvidas numa esquina, e vice-versa, porque esse fato, posto indique certa carência de ideias, ainda assim pode não passar de uma traição da memória. Não; refiro-me ao gesto correto e perfilado com que usas expender francamente as tuas simpatias ou antipatias acerca do corte de um colete, das dimensões de um chapéu, do ranger ou calar das botas novas. Eis aí um sintoma eloquente, eis aí uma esperança. No entanto, podendo acontecer que, com a idade, venhas a ser afligido de algumas ideias próprias, urge aparelhar fortemente o espírito. As ideias são de sua natureza espontâneas e súbitas; por mais que as sofreemos, elas irrompem e precipitam-se. Daí a certeza com que o vulgo, cujo faro é extremamente delicado, distingue o medalhão completo do medalhão incompleto”. (“Teoria do Medalhão” in: John Gledson. 50 Contos de Machado de Assis. Companhia das Letras, 2007).

A equipe de governo do Sr. Bolsonaro vem se notabilizando por seu notório e indecoroso despreparo técnico, cultural, intelectual e, em alguns casos, até moral. São destituídos de características pessoais que os habilitariam para o pleno exercício de suas funções. Como ensina José Ingenieros: “Individualmente considerada, a mediocridade poderia definir-se como uma ausência de características pessoais que permitam distinguir o indivíduo em sua sociedade. Esta oferece, a todos, em idêntico fardo de rotina, preconceitos e domesticidade; basta reunir cem homens, para que eles coincidam no impessoal”. (José Ingenieros. O Homem Medíocre. Edições Spiker, S/D).

As lições de José Ingenieros continuam perenes, em sua minuciosa análise do “homem medíocre”: “Atravessam o mundo cuidando da sua sombra, ignorando a sua personalidade. Nunca chegam a se individualizar; ignoram o prazer de exclamar “eu sou”!, em face dos demais. Não existem sozinhos. Sua amorfa estrutura os obriga a se apagarem numa raça, num povo, num partido, numa seita, num bando: sempre a fingir que são outros.” (José Ingenieros. O Homem Medíocre. Edições Spiker, S/D).

Descartes disse, em seu clássico “Discurso do Método”, não sem uma boa dose de sarcasmo, que o bom senso era a coisa mais bem distribuída do mundo. No governo Bolsonaro a estultice, a parvoíce, a insensatez e a a toleima seriam as coisas mais bem partilhadas, quase de forma equânime,  entre os Ministros que o compõe. Os mesmos nos dão prova diuturna e cotidiana dessa afirmação, em entrevistas e manifestações públicas. Como diria José Ingenieros: “Suas crenças, limitadas pelos fanatismos de todos os credos, abarcam zonas circunscritas por superstições pretéritas. Dão o nome de ideias às suas preocupações, sem advertir que são simples rotina engarrafada, paródias de razão, opiniões sem juízo. Representam o senso comum desbocado, sem o freio do bom senso”. (José Ingenieros. O Homem Medíocre. Edições Spiker, S/D).

O poeta, filólogo, folclorista e ensaísta paulista Amadeu Amaral nos conclamava a não sermos tão implacáveis com a mediocridade, entoando inclusive uma exaltação à mesma: “A mediocridade é necessária, absolutamente necessária — quer no sentido de coisa inevitável quer no sentido de coisa útil. E, porque tem de ser; além disso, é benéfica”. (“O Elogio da Mediocridade”. in: Amadeu Amaral. Estudos e notas de literatura. Editora Nova Era, 1924).

Todavia, talvez, estejamos sendo árduos demais com a mediocridade, que graça por toda parte e não poupa quase nenhum dos habitantes da esplanada dos ministérios. Quem sabe a mediocridade não seja tão perniciosa, tão nefanda, tão desprezível? Imputar a alguém a pecha de medíocre ou cultor da mediocridade não seria algo ofensivo? Como da lama nascem lindos lírios, sejamos esperançosos, da mediocridade podem brotar luminares, doutos, eruditos, inteligências geniais a nos guiar rumo à terra firme e plana. Amadeu Amaral parece nos conduzir por essa senda: “A turba imensa dos medíocres constitui uma como nebulosa Informe, sementeira protoplásmica de estrelas. A maioria dos grandes de lá saiu, e felizes daqueles que saíram de vez, para não mais tornar ao rebanho depois de um esforço máximo e prodigioso”. (“O Elogio da Mediocridade”. in: Amadeu Amaral. Estudos e notas de literatura. Editora Nova Era, 1924).

Os atuais ocupantes do poder são espécimes representativas da incultura, do obscurantismo e do anti-intelectualismo que medram entre nós. Eles têm a pretensão de demolir – com seus arroubos e impropérios verbais, com seu ódio ao conhecimento, ao discernimento, ao esclarecimento – a cultura humanística e científica, as quais levaram séculos para ser construídas, por meio do empenho, da obstinação e do gênio de homens e mulheres ilustrados. O historiador francês Pierre de Nolhac, em prefácio à obra do renascentista Erasmo de Rotterdam disse: “A decadência das humanidades vai deixar-nos muito desarmados para reclamar o melhor de nossa herança espiritual”. (Erasmo de Rotterdam. Elogio da Loucura. Editora Martins Fontes, 1997).

Como designar, no seu conjunto, o estafe presidencial? Socorro-me, para tanto das palavras da “loucura”, pela voz que lhe deu o erudito Erasmo de Rotterdam: “Mas, que epíteto poderei aplicar-vos? Sem dúvida que o de estultíssimos! Que vos parece? Poderia, acaso, a deusa Loucura dar epíteto mais digno aos seus adoradores, aos iniciados nos seus mistérios?” (Erasmo de Rotterdam. Elogio da Loucura. Editora Martins Fontes, 1997).

Nestes poucos mais de cinco meses do governo Bosonaro, fica clara e visível a ausência de projetos, de propostas, de encaminhamento dos principais problemas que afligem a sociedade brasileira. Somos, enquanto país, uma nau à deriva, sem o capitão na proa.

 

Carlos Eduardo Araújo é mestre em Teoria do Direito (PUC-MG).

 

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