Porque a Marcha para Jesus é um trunfo na política brasileira?
Sexta-feira, 21 de junho de 2019

Porque a Marcha para Jesus é um trunfo na política brasileira?

Por Simony dos Anjos

Nos últimos tempos, muito se discutiu sobre a postura conservadora da igreja em relação à política. É certo que muitas Igrejas tendem a avaliar que a esquerda tem pautas que ferem a “ética cristã”, principalmente nas questões de gênero. Em entrevista ao teólogo popstar Yago Martins, o pastor presbiteriano Fanklin Ferreira disse que a esquerda está ligada às pautas identitárias e que isso faz com que o evangélico não possa ter essa posição política, pois ferem os princípios cristãos. Entendo, na fala do referido pastor, que política identitária é a política que protege quem a igreja sempre atacou: populações lgbts, os que professam as religiões de matrizes africanas, os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres etc.

Contudo, me parece que o apoio à esquerda ou à direita, por parte das lideranças evangélicas, não está muito ligado às pautas que as diferentes posições políticas defendem, mas é feito em causa própria. Ou seja, para mim, as lideranças evangélicas assumem a posição política que mais lhes traz benefícios. E por saber disso, os governos dão muitos privilégios a esses “poderosos pastores”. Vejamos o caso da Marcha para Jesus, evento que é organizado pela Igreja Renascer em Cristo, desde 1993, e é liderado pelo Bispo Estevam Hernandes e por sua esposa Bispa Sônia Hernandes (o mesmo casal que que foi preso nos Estados Unidos por evasão de divisas e lavagem de dinheiro , em 2007).

O que parece ser uma manifestação proselitista que tem o afã de ganhar novos fiéis para as igrejas e de promover uma manifestação pública de fé, vai muito além de espiritualidade. Na marcha de 2004, o Bispo Estevam Hernandes profetizou que seria aprovado um decreto de um dia específico para a manifestação. Em 4 de setembro de 2009, o site da Igreja Lagoinha anunciou “Lula sanciona Dia Nacional da Marcha para Jesus”, assinando o decreto que inseria a Marcha para Jesus no calendário comemorativo nacional, uma proposta do então senador Marcelo Crivella (PRB-RJ). Uma publicação do site G1, do dia 3 de setembro de 2009, descreveu que  a pequena cerimônia contou com a presença das Igrejas Universal do Reino de Deus, Assembléia de Deus, Renascer em Cristo, Sara Nossa Terra e Igreja Batista e que os Religiosos fizeram oração pela saúde da então ministra Chefe da Casa Civil Dilma, que também esteve presente.

Em 18 de novembro de 2015, o então governador de São Paulo, Geraldo Alckimin (PSDB-SP), sancionou o Projeto de Lei, de autoria do deputado estadual Carlos Cezar (PSB-SP), que instituiu o Dia da Marcha para Jesus no feriado de Corpus Christi. O evento solene contou com a presença de dezenas de lideranças evangélicas no Palácio dos Bandeirantes. Entre elas, estavam o Apóstolo Estevam Hernandes e Bispa Sonia Hernandes, segundo o site da Marcha para Jesus.

E porque esse evento teria tanta dedicação dos políticos? Eu me lembro em minha infância de ouvir a Marcha para Jesus pela rádio Renascer, eu não estava lá, mas ouvia tudo. Segundo Daniel Liidtke, do site Canal da Imprensa, em 2005 eram 470 emissoras de rádios evangélicas e quatro emissoras de TV (incluindo a compra da Rede Record pela Universal  do Reino de Deus).

Com as redes sociais, esse alcance ganha novas proporções. Atrações gospel que mantém altos números de seguidores nas redes sociais como Aline Barros (14 milhões de seguidores), Ana Paula Valadão (3,6 milhões de seguidores), Elaine de Jesus (2,9 milhões de seguidores), Eyshila (2,6 milhões de seguidores) – todas apoiadoras do Bolsonaro nas últimas eleições -, são atrações presentes na Marcha. É um evento criado para ser midiático, que aumenta a capacidade de influência da igreja na opinião pública e que é milimetricamente coberto pela mídia hegemônica. Que político haveria de abrir mão desse apoio todo?

Recuperando alguns números das Marchas para Jesus que aconteceram na cidade de São Paulo, percebe-se que os participantes ultrapassam os milhões. Apresento, aqui, dados da organização: 3 milhões em 2016; 2 milhões em 2017; 1,5 milhões em 2018 e cerca de 3 milhões em 2019.  Um evento que mobiliza esse tanto de gente na rua, sem contar os que acompanham pela mídia, nunca será ignorado por pessoas que têm interesses eleitoreiros.

No ano do golpe, no início da caminhada guiada por trios elétricos, fiéis se ajoelharam e oraram pelo “fim da corrupção” – à Juiz Moro. Em 26 de maio de 2016, o jornal Folha de São Paulo publicou reportagem intitulada  “Políticos evitam aparecer em Marcha para Jesus em São Paulo”, de Flávio Ferreira e Reynaldo Turollo Jr., que trazia a seguinte fala do organizador Bispo Estevam Hernandes: “Muitos estão fugindo das grandes concentrações, por conta dos escândalos de corrupção. Estão com medo de levar vaias”. Na minha avaliação, era um momento de instabilidade, ainda não se sabia como seria o desenrolar do impeachment da Presidenta Dilma.

Um mês antes da marcha, a bancada evangélica tinha declarado apoio ao processo de Impeachment e era necessário evitar a exposição dos políticos que sabiam que grande parte dos frequentadores das igrejas evangélicas tinham sido beneficiados pelos programas sociais petistas. Em outras palavras, ainda não era o momento de usar o palco da marcha para expor o projeto de país que estavam planejando. O ódio ao PT timidamente se fazia presente nas coberturas das mídias evangélicas, o site Gospel+ disse que “Fernando Haddad nem deu as caras” – uma vez que a presença do prefeito da cidade sempre foi comum nesse evento. Nos trios elétricos, havia bandeiras do Brasil e o senador e pastor Magno Malta (PR-ES) esteve presente.  

Em 2017,  a marcha teve novamente oração contra a corrupção.  O Pastor evangélico e senador Magno Malta declarou que “a solução para todas as questões (da política) está em Jesus Cristo […] Nós marchamos pela família, pela nossa nação. Marchamos para que haja um mover de cura, salvação e libertação da nação brasileira, que tem enfrentado uma das maiores crises de sua história.”

Em 2018, o site Uol publicou uma matéria cujo título era “De olho em voto evangélico, Bolsonaro participa de Marcha para Jesus em SP”, feita por Daniela Garcia. Além do então pré-candidato (PSL), a marcha contou com a presença do Pastor Silas Malafaia e do Senador Magno Malta. Embora, essa fosse a primeira edição da Marcha paulista que Bolsonaro participou, ele já havia participado de duas edições (2014 e 2015), no Rio de Janeiro, ao lado de Malafaia e Eduardo Cunha (preso pela operação Lava Jato).  Essa mesma reportagem evidencia o batismo de Bolsonaro no rio Jordão e que, em 2014, ano do pleito anterior, nenhum presidenciável havia ido à marcha. A reportagem indica, também, que “nos últimos anos, o evento adotou um tom mais político, com discursos de combate à corrupção”.

Neste ano de 2019, agora presidente, Bolsonaro foi à Marcha e sob gritos de “Mito” declarou: “Ano passado eu estive aqui e disse que se Deus quisesse, eu estaria aqui como Presidente. Um presidente que diz que o Estado é Laico, mas ele é cristão”. A Bispa Sônia Hernandes (aquela dos dólares) aclamou com entusiasmo: “Pela primeira vez na presidência do Brasil se ouviu o nome de Deus acima de todos”. E como não podia faltar uma gafe do tiozão, teve foto de dedo de arminha, para honra e glória de Jesus.  Foi a primeira vez que um presidente participou do evento evangélico.

E para deixar o evento ainda menos palatável, teve #Bolsodória. O Governador João Dória (PSDB) declarou: “Este é o caminho da paz, essa é a marcha da paz, da harmonia, daqueles que amam São Paulo, o Brasil, amam sua família[…] São brasileiros de todas as origens que aqui vêm. Teremos mais de 3 milhões de pessoas aqui. Vamos juntos fazer uma oração, ergam as mãos aos céus, agradecer a Jesus, a paz, a saúde, a harmonia, viva Jesus, viva São Paulo, viva o Brasil!”. Não faltou o prefeito playboy.

Por fim, a Marcha para Jesus é um respaldo moral para os políticos que participam dela, pois é nesse espaço que eles estarão evidenciados nas mídias religiosas, nas fotos, nos comentários dos corredores das igrejas. E indecorosamente aproveitam da comoção e fé das pessoas, que se sentem seguras em votar em alguém que “ama a Jesus”. Muitos políticos se valeram das alianças com as lideranças evangélicas para conseguirem votos, não é novidade. Os governos do Lula não só se aliançaram com evangélicos, como deram cargos de destaque para muitos deles, inclusive passaportes diplomáticos. Contudo, o que vivenciamos nesses últimos quatro anos, é a igreja evangélica deixando de ser uma coadjuvante no jogo eleitoral e passando a dar as cartas.

É bom termos em mente que se trata de um projeto de poder, lideranças religiosas estão tomando proporções gigantescas no poder político e econômico do país. Estão controlando cada vez mais a  mídia e setores financeiros – não se esqueçam da Jesus Company. E para você, pessoa evangélica, que leu até aqui, sigo reafirmando que a política está nas relações humanas e como tal deve ser tratada. A Marcha para Jesus tornou-se o trunfo que todo mundo quer possuir para ter vantagem no jogo político, e a liderança evangélica sabe disso e segue nesse jogo torpe, em nome de Deus. Que Ele tenha misericórdia de nós!

 

Simony dos Anjos é graduada em Ciências Sociais (Unifesp),  mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

 

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