A verdade em tempos da mentira: quais são os desafios do material de The Intercept?
Terça-feira, 25 de junho de 2019

A verdade em tempos da mentira: quais são os desafios do material de The Intercept?

Donald Trump foi prolifico na produção de alegações falsas, que segundo o Washington Post, calculou que ele fez 2.140 alegações falsas ou enganosas no seu primeiro ano de governo, uma média de 5.9 por dia[1]. Bolsonaro, discípulo não reconhecido, não ficou atrás.

Segundo um levantamento do site Aos Fatos, desde a sua posse, em 1º de janeiro de 2019, o presidente Jair Bolsonaro deu 149 declarações passíveis de checagem, das quais 82 eram completamente falsas ou apresentavam algum grau de erro. Isso significa que, a cada 10 declarações do presidente durante as primeiras dez semanas do seu mandato, quase 6 eram falsas ou distorcidas. Também significa que Bolsonaro disse, em média, uma informação equivocada por dia desde que se tornou presidente[2]. Claro, Bolsonaro se movimento em time familiar, onde essa média pode se multiplicar sensivelmente. Esse é o contexto que temos que compreender o processo atual.

O magnífico trabalho de Glenn Greenwald e The Intercept está mudando o ritmo da política brasileira. O material analisado e contextualizado exibe a promiscuidade institucional que vulnerabiliza leis e a própria Constituição Federal. The Intercept hoje está no olho do furação. Mas não devemos confundir: o extraordinário trabalho do The Intercept trazendo verdades incomodas não se traduz no novo salvador da pátria. Eles nos estão trazendo verdades incomodas e óbvias, algumas delas para aqueles que gritaram desde 2016 as anomalias existentes.

The Intercept é jornalismo investigativo de alta qualidade. Uma raridade em terras brasilianas. Aí reside sua fortaleza mas também suas limitações. O que a gente faz com a verdade? O que a gente faz com toda a informação num momento onde a mentira está mais valorizada que a verdade, onde as opiniões são mais importantes que os fatos? Que verdade penetra num contexto de vida em bolhas?

The Intercept e seu material pode mudar coisas da política, mas não vai salvar o Brasil. Não é o novo herói, o novo Moro. É jornalismo de qualidade. E temos que defender seu trabalho que beneficia a sociedade. Mas o que a gente faz com isso?. É a sociedade que tem que exigir agora os processos institucionais e jurídicos para canalizar o material trazido. É a sociedade que tem que lotar as ruas, como está fazendo, para pedir justiça imparcial, uma raridade quanto ao jornalismo investigativo.

É preciso ter em conta que a postura de Moro revelada nas reportagens do The Intercept Brasil encontra ressonância em modos de pensar e agir que são normalizados por parte da sociedade com alcance ainda a ser avaliado. Seja no meio jurídico, cujas relações promíscuas entre juízes, procuradores e advogados podem ser naturalizadas, seja nas fileiras mais convictas de que o combate ao PT como metonímia da corrupção deve ser desempenhado a despeito dos limites da legalidade.

Não devemos esquecer que vivemos em um país no qual, por exemplo, as polícias matam à margem da lei todos os dias com ampla complacência da opinião pública e até mesmo com apoio de certo ativismo pela violência policial. Por mais anômalo que o bolsonarismo seja aos olhos de quem ainda insiste em ver o mundo por parâmetros que separam a verdade da mentira, não podemos recair em certo narcisismo que ignore que há quem meça suas convicções pelo metro de Bolsonaro, sua prole, Moro e seus Blue Caps.

Neste sentido, compreendemos que estamos num Estado de Direito pós-impeachment. Com ele, a Constituição de 1988 é implementada arbitrariamente. Ela não desapareceu, só não está sendo implementada na sua extensão e é aplicada de forma seletiva e escancarada.

Falar da Vaza Jato é falar de um processo como um todo. Não se trata só de Moro, Dallangol e o powerpoint da impunidade. Todos com seus dias contados. Lembremos, Dilma Rousseff foi destituída por um processo ausente de crimes, requisito necessário para poder destitui-a. A absurda prisão do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva é parte fundamental do processo. Bolsonaro é só uma consequência dele.

Lembremos da violência contra Marielle e todos seus símbolos, democráticos profundamente. Assim, o material de The Intercept nos faz refletir sobre o processo de exceção, com retrocesso absurdos de direitos sociais, de castração da participação na coisa pública, da concentração como objetivo econômico e de erosão da soberania nacional a uma dependência absurda para uma potência regional e uma das dez economia mais importantes do mundo.

Claro, hoje, a partir dos informes do The Intercept se coloca o Poder Judiciário, o poder do Estado mais desconhecido, na mesa para ser observado, analisado, pesquisado. Com ele, se abre uma caixa que poucas vezes teve alcance massivo. Quem são? Quanto ganham? Quais são suas funções e responsabilidade? Existe acesso à justiça no brasil? Quanto custa o poder judiciário no orçamento da União? Quem fiscaliza o Poder judiciário e seus membros? Enfim, muito pode ser perguntado.

Mas, nesse processo, a participação de setores militares, agentes econômicos, grupos de telecomunicação e outros atores do cenário são parte do processo que temos que refletir e dar a responsabilidade da maluquice dos últimos anos que cada um deve ter.

O material trazido pelo jornalismo, talvez nos exija como sociedade compreender e lutar pelos significados de instituições republicanas, pelos sentidos de da democracia e da ética na política. Mas lembremos que estamos num momento onde o descaso pelos fatos, a substituição da razão pela emoção, e a corrosão da linguagem estão diminuindo o valor da verdade. O The Intercept nos dá a oportunidade de voltar a dar sentidos à política, a luta e a militância, por uma democracia plural de todos e todas.

 

Andrés del Río é doutor em ciência política pelo IESP-UERJ e professor adjunto da UFF.
André Rodrigues é doutor em ciência política pelo IESP-UERJ e professor adjunto da UFF.

 

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________________
[1] KAKUTANI, Michiko. A morte da Verdade. Rio de Janeiro: intrínseca. 2018.
[2]https://aosfatos.org/noticias/em-dez-semanas-como-presidente-bolsonaro-deu-uma-afirmacao-errada-por-dia/

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