Cortem as cabeças! Anjos, demônios e “ideologia de gênero”
Terça-feira, 25 de junho de 2019

Cortem as cabeças! Anjos, demônios e “ideologia de gênero”

Jamais a perspectiva feminista consentiria na violação da integridade corporal, subjetiva e mesmo espiritual de uma pessoa

Por Tatiana Lionço

 

O menino Rhuan foi brutalmente assassinado pela mãe e sua companheira no dia 31 de maio de 2019. O laudo do Instituto Médico Legal apontou que Rhuan foi apunhalado enquanto ainda dormia, decapitado ainda em vida. Outro elemento da perícia sinaliza para a emasculação do menino, que teria tido o pênis decepado alguns anos antes da morte, sinalizando anos de violência doméstica. A mãe, Rosana Auri da Silva Cândido, e sua companheira, Kacyla Priscyla Santiago Damasceno, abandonaram os pedaços do corpo da criança esquartejada em um bueiro na periferia da capital da República, em Samabaia [1].

 

Jair Bolsonaro se pronunciou no dia 18 de junho sobre a barbaridade do crime. Lamentou a gravidade do assassinato de Rhuan e explicitou sua autoria: duas mulheres em situação de conjugalidade. Duas lésbicas assassinaram com requinte de crueldade um menino, diante do quê o presidente aproveita para declarar sua aprovação moral da prisão perpétua. Na sequência, uma avalanche de comentários de seus apoiadores seguem disseminando conteúdos que, no momento, delimito na perspectiva do que podemos entender como uma ofensiva antigênero: satanizam as mulheres em função de sua condição lésbica, sugerem em meme e em discurso que o feminismo levou ao extremismo da violência letal e desmedida do ódio contra homens, alegam que a mídia não repercutiu o caso devido a uma conspiração de protecionismo abusivo da agenda nefasta de feministas, LGBTs, esquerdopatas e comunistas.

 

Em vídeo no YouTube, Eduardo Bolsonaro [2] afirma que a mãe de Rhuan fizera caseiramente uma cirurgia de “mudança de sexo”, e que este seria o motivo para o silêncio da mídia sobre o caso. Eduardo Bolsonaro alega que seria óbvia a conexão do caso do menino Rhuan à “ideologia de gênero” e que o mesmo estaria sendo abafado para que as supostas conexões não viessem a público. Ora, caso uma mãe emascule o filho, estaríamos diante de grave violação de direitos, não cabendo defesa do ponto de vista dos direitos sexuais e sequer das estratégias que vem sendo consensuais entre movimentos sociais, especialistas, gestores e conselhos de classe profissionais nos serviços de referência para atenção à saúde de travestis e transexuais. Estamos longe deste debate, sobretudo em função da idade da criança, que não atende aos critérios estabelecidos para o acesso às políticas de atenção à saúde mencionadas pelo deputado nos termos da “mudança de sexo”. Pelo que entendo, quem está associando a “ideologia de gênero” ao caso é exatamente Eduardo Bolsonaro e outros possíveis oportunistas políticos que abusam de uma tragédia e de um crime bastante grave para tripudiar diante de reivindicações legítimas de transexuais, que integram a sociedade brasileira.

 

Muito tardou para que Jair Bolsonaro se pronunciasse a respeito de crimes brutais que tem se disseminado em nosso país. Me limitarei a recuperar apenas alguns, todos ocorridos no presente ano.

 

Em 20 de Janeiro de 2019, Quelly da Silva, travesti, foi brutalmente assassinada em Campinas/SP. Seu coração foi arrancado e seu corpo foi largado no local do assassinato junto à imagem de uma santa. Caio Santos de Oliveira, assassino confesso, alegou que Quelly seria um demônio. O crime foi tipificado como latrocínio. A violência não parou por aí: seguiu-se atuante no silêncio absoluto das autoridades, inclusive do presidente da República, não apenas durante os nove dias que antecederam o Dia Nacional da Visibilidade Trans (29 de janeiro) mas ainda até hoje. Até onde acompanhei, nenhuma palavra foi proferida fora dos círculos do ativismo trans para se referir a este crime de ódio transfóbico, sequer sobre a associação entre o discurso de ódio demonizador no fanatismo religioso e a extirpação literal de vida humana dos corpos de determinadas pessoas. Insuportavelmente, Quelly teve seu coração arrancado na idade média das travestis assassinadas no Brasil: 35 anos de idade.

 

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Existem dimensões da violência inomináveis, e por isso mesmo precisamos fazer todo o esforço possível para falar algo sobre o crime de ódio e sobre o horror. Começo pelo coração. O que levaria alguém a arrancar o coração do corpo de uma pessoa? O que representa o coração em um corpo humano? O coração é um órgão vital. Suprimir-lhe decorre na anulação da vida. Outras parte do corpo, no entanto, cumprem a mesma função de manter a sobrevida. O coração, além de manter a vida por meio do bombeamento do sangue por todo o corpo humano, é também um órgão revestido de significados simbólicos. O mais recorrentemente associado a ele é o amor. O coração, para além de sua função vital, é símbolo da potencialidade humana para o amor, sendo a representação mais frequentemente associada a esta disposição para a relação que promove enlace e funda o mistério dos efeitos que outra pessoa tem sobre alguém, movendo sua paixão para a vida.

Destituir uma pessoa de coração é também reconhecer-lhe isenta da capacidade de amar. Dito pelo avesso, poderia ainda significar que não se pode amar alguém a quem falta coração. Diz-se de uma pessoa insensível às necessidades e anseios dos outros: ela não tem coração. Quelly da Silva, privada de coração, largada à morte e sem a atenção de quase ninguém, a não ser daquelas pessoas que poderiam amá-la, que reconheceriam sua potencialidade amorosa, ou que se deixariam mobilizar amorosamente pela sua pessoa.

O jovem de vinte anos de idade de nome Caio arrancou-lhe fora o coração. Não apenas extirpou-lhe a vida por meio do assassinato, mas ritualizou a materialização do corpo sem coração. Ao ser interpelado, enunciou que “Ele era um demônio, eu arranquei o coração dele. É isso” [3]. No lugar do coração, a imagem de uma santa foi introduzida. Curiosamente, a feminilidade de Quelly negada no discurso de Caio que a ela se refere no masculino retorna com toda a força na figura de uma santa. O assassino confesso expressa assim toda a complexidade da determinação do ódio transfóbico: é ele que não consegue sustentar ou justificar o não reconhecimento da identidade de gênero da vítima.

Outros crimes de ódio contra mulheres transexuais lhes atingem partes do corpo que também podem ser entendidas a partir de seu significado simbólico. Mikaela, travesti de vinte e três anos, foi baleada no rosto no centro de Teresina, capital do Piauí [4], no início de fevereiro de 2019. Da mesma forma, uma travesti de sobrenome Arcanjo foi assassinada também em 2019, tendo o rosto desfigurado por golpes de espancamento com tijolos e pedaços de madeira [5]. Anna Carolina, por sua vez, foi assassinada e encontrada decapitada e com os órgãos sexuais extirpados também em fevereiro de 2019, no Espírito Santo [6].

 

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Um corpo sem rosto, um corpo sem cabeça. Estas medidas de retaliação da integridade corporal associadas à face humana impedem que o corpo morto seja velado por aquelas pessoas que amam as pessoas falecidas, privadas de rosto. O velório, como ritual que mobiliza a despedida da pessoa que morre, na maior parte das vezes dispõe da face como elemento que resta disponível para que aqueles que amam se despeçam. O rosto da pessoa morta é a parte do corpo que resta apresentável no velório para que as pessoas que ainda não morreram possam identificar o sujeito diante do qual lamentam a impossibilidade de compartilhar a vida. Um corpo morto sem face é reduzido a um pacote funerário, a um caixão fechado, à lacuna de representação do corpo morto, confinado à ideia abstrata de seu desaparecimento. Este corpo sem rosto é largado à impossibilidade do reconhecimento, dificultando, para muitas pessoas, o processo de simbolização de seu desaparecimento. Corpos esquartejados também não dispõem mais de rostos.

Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo não apenas se esqueceram de lamentar estes outros crimes bárbaros, mas decidiram abusar de modo oportunista do assassinato de Rhuan. Não temos elementos suficientes para pensar que estas mulheres cometeram este crime impulsionadas por preceitos feministas, muito menos na busca por soluções para questões relacionadas à transexualidade na infância, como se tem inclusive debatido no contexto internacional e nacional a assistência e cuidado para crianças que expressam gênero fora da norma cisgênero.

Não parece ter ocorrido que mulheres feministas lésbicas decidiram transformar o filho em filha, mas talvez, como forma de retaliação das expressões de gênero da criança, a tenham emasculado. Quem sabe, um ódio desmedido à masculinidade, efeito de uma história de violência, esteja na base da atuação violenta destas mulheres.

Nada comparável a isso se encontra em preceitos feministas: não se está buscando transformar, à força e na base da violência, homens em mulheres. Se a mãe queria que o menino se transformasse em menina, ou se a emasculação fora uma retaliação contra expressões de gênero da criança, não sabemos, e sequer dispomos da presença de Rhuan para enunciar por si seu entendimento sobre si e sobre o teor da violência que certamente vinha sofrendo nos últimos anos.

Eduardo Bolsonaro fez questão de mencionar que Rhuan seria um anjo sem culpa alguma, mas é necessário e urgente reafirmar que dispomos de um marco constitucional e legal que afirma a criança como sujeito de direitos. Isso significa que, no caso de sofrimentos em relação à representação de si mesmo, nenhuma emasculação sofrida em ambiente doméstico seria legitimada no Estado democrático de direitos, e que se depender do transfeminismo, da Psicologia, das Ciências Sociais, esta criança seria acolhida, escutada, acompanhada e protegida.

 

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Depois de adultos e adultas, de preferência, disporíamos da mesma consideração e proteção do Estado, o que parece não ser o caso para todas as pessoas e, no atual cenário político, a seletividade oficial do povo para o qual se governa parece cada vez mais restrita. Exemplo estridente desta constatação foi a afirmação do Governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, de seu desejo de lançar um míssil contra a população “criminosa”.

Não deixo de me chocar, e cada vez mais, com a violência consentida. Não ganharemos nada como sociedade atingindo violentamente aquelas duas mulheres que praticaram esta atrocidade contra Rhuan (como apoiadores de Bolsonaro comentaram, inclusive desejando seu espancamento até a tetraplegia e outras imaginações de agravos bastante evitáveis e não previstos em nosso Código Penal). Que sejam julgadas e condenadas pelos diversos crimes que praticaram, na medida dos acordos constitucionais e penais. A vingança, marca da crueldade, é uma disposição política perigosa pois ela legitima a violência desmedida e a justifica moralmente.

Jamais, como estão conspirando paranoicamente, a perspectiva feminista consentiria na violação da integridade corporal, subjetiva e mesmo espiritual de uma pessoa.

Ao contrário, a paranóia delirante da família Bolsonaro aposta na vingança como disposição política fundamental e trata de apontar culpados genéricos, tais como feministas, “ideólogas de gênero”, para além da situação a ser julgada. Estender o ódio justificado a motivações genéricas para crimes não é uma medida prudente.

Nas perspectivas feministas, também buscamos identificar determinações históricas, políticas, culturais e sociais para as violências, sendo o patriarcado e o machismo, por exemplo, determinações frequentemente evocadas para compreendermos crimes tais como os feminicidas, lesbofóbicos, homofóbicos e transfóbicos. Isso não significa que devemos proliferar ódio generalizado contra os homens, já que inclusive buscamos compreender analiticamente como os homens estão mais expostos aos cenários de violência na sua autoria, mas também sofrendo as consequências da sua participação na cultura masculina da violência.

 

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O feminismo, portanto, não é uma vingança generalizada contra os homens: esta é a interpretação leviana e defensiva que os homens inseguros fazem diante da falta de condições que eles próprios dispõem de imaginar um mundo em que eles não seriam superiores às outras pessoas. Nos espaços de disputas, também encontramos feminismos odiosos. Estes não deixam de existir, mas esvaziam sua potência transformadora e se rendem às barganhas de hierarquias. Não me parecem os melhores caminhos e dificilmente se sustentam epistemologicamente.

Esta paranóia de que a “ideologia de gênero” promoveu um crime como o do assassinato cruel de Rhuan é efeito de uma seletividade abusiva da informação que dispomos sobre as violências e sua relação com questões de gênero. Precisamos pensar mais e melhor, abrangendo toda a complexidade deste cenário insuportável em que nos encontramos. Só os vingativos suportam viver neste mundo. Eu tenho tido muita dificuldade para suportar, e talvez você que me lê agora também não aguente mais tanta violência.

Para que possamos transformar esta realidade, é necessário falar sobre a violência em outros termos, sem nos rendermos à truculência da palavra ungida na gana vingativa. É necessário saber enlutar para lutar. Lamentemos, portanto, todas estas mortes atrozes, sem selecionarmos aquelas que importam daquelas que não mereceriam a nossa consideração. Um amplo luto coletivo seria um bom começo. Se anjos e demônios estão entre nós, o que nos resta, enquanto seres humanos? Ao menos que possamos lamentar nossas perdas, velar os mortos, criar melhores acordos, escutar os sofrimentos das pessoas em vida.

 

Tatiana Lionço é doutora em Psicologia e professora da UnB.

 

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Notas:

[1] Matéria sobre o caso disponível em: https://istoe.com.br/laudo-mostra-que-menino-rhuan-foi-degolado-vivo-pela-propria-mae/

[2] Vídeo disponível no canal do deputado Eduardo Bolsonaro: https://youtu.be/1AzGs-zCv78

[3] Matéria no Huffington Post sobre o assassinato de Quelly da Silva: https://www.huffpostbrasil.com/entry/travesti-coracao-campinas_br_5c47966fe4b025aa26bdf70f

[4] Matéria sobre o ataque a Mikaela no portal G1: https://g1.globo.com/pi/piaui/noticia/2019/02/03/travesti-e-baleada-no-rosto-em-avenida-do-centro-de-teresina.ghtml

[5] Notícia sobre o assassinato da travesti Arcanjo: https://www.acritica.com/channels/hoje/news/travesti-e-espancando-ate-a-morte-e-corpo-e-encontrado-em-bairro-da-zona-norte

[6] Notícia do assassinato de Anna Carolina: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Antifascismo/Matam-uma-Anna-matam-uma-sociedade-/47/43219

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