Brasil: a Venezuela da direita
Quinta-feira, 27 de junho de 2019

Brasil: a Venezuela da direita

Se a Venezuela virou à esquerda, o Brasil pegou o caminho contrário para desabar no mesmo desespero

Imagem: Riot Police in The Field Peace, obra do artista Banksy.

Por Felipe Eduardo Lázaro Braga

 

A História é inacreditável, assombrosa, dramática, cruel, mas só é tudo isso enquanto ainda é silêncio, ainda é futuro. Quando a História é agora, ela se transforma em fato inevitável, ela acontece pouco a pouco nas manchetes, escândalos e lamentos de todos os dias, acontece resignada, discretamente, disfarçada de corriqueiro, derruba suas toneladas de capricho nos ombros de uma geração.

 

O populista, mestre em conduzir o aplauso de curto prazo, submete o espírito do tempo ao próprio interesse aventureiro, mente seus encantos impossíveis, imagina-se enorme no seu pedestal de ignorância. Sua função é apontar, sorridente, os atalhos irresistíveis do fracasso. Ao sequestrar o contemporâneo para si, esse egoísmo sem horizonte, sem amanhã, cresce e se enraíza na ingenuidade difusa; cada vez maior, grita sua rouquidão até tudo o mais ser silêncio, uma voz que já não bajula, apenas ordena: “eu sou o povo, a despeito do povo“. É por isso que o otimismo será sempre o obstáculo definitivo da verdade – todo grande erro já foi uma certeza absoluta de sucesso.

 

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Vamos a um exercício de imaginação:

 

Jair Bolsonaro foi afastado do poder em 23 de junho de 2020. Depois de se eleger presidente e assumir como oposição de si próprio, o militar conseguiu ser apenas aquilo que sempre foi: um obstinado refém da própria miopia, limitado a sobreviver naquele horizonte minúsculo de irrelevância em que habitam os que nada tem a dizer, mas dizem-no barulhentamente.

 

E caiu com barulho, por certo: nem bem dois meses se afastavam de sua posse, e as voltas e voltas de arame farpado ideológico já isolavam o Palácio do Planalto de qualquer insolência democrática, prenunciando a enxaqueca política que o país verde e amarelo tão entusiasmadamente regurgitou. Nos seus devaneios de grandeza, a turminha DOI-CODI imaginou que governar era o mesmo que curtir uma festinha terraplanista regada à astrologia durante oito anos de lacração (e uma formalidade eleitoral no meio):

 

Conduzir a oitava maior economia do mundo? Moleza, deixa comigo. Eu sou o novo.

Mas o que é esse novo?

É o diferente de tudo que era até então.

E o que é o diferente?

É a novidade, porra.

 

(Toda incompetência esconde seu vazio fundamental debaixo de pilhas e pilhas de adjetivos que caminham por toda a extensão de lugar nenhum, sem qualquer ambição de significado). 

 

Esse salão de neopentecostais e milicianos esbarrando uns nos outros na neblina olavista, cegos diante do abismo Brasil que escorria cada vez mais rápido no ralo do Terceiro Mundo, era tudo menos administração: PIB, desemprego e previdência gritando diariamente por uma agenda pública virtuosa, e a máquina do Executivo empenhadíssima em derrotar o globalismo ambiental da ideologia de gênero do PT. Vai lá filhão, tweeta que o PIB cresce!

 

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E cada tweet de maturidade pré-adolescente acendia uma labareda gratuita em Brasília, numa matemática insuperável de multiplicar problemas que inexistiam antes de a idiotice abrir a boca. Diante desse naufrágio com data marcada para acontecer, as demais instituições brasileiras – esses nossos arranhões republicanos ainda engatinhando civilidade – resolveram lançar uma âncora de sanidade na Praça dos Três Poderes e, cá e lá, Legislativo e Judiciário, firmaram um pacto de estabilidade que oferecesse uma resposta possível ao desalento brasileiro órfão de presidência. O plano era simples: blindar as reformas econômicas daquela sucessão lunática de erros que a gente era obrigado a chamar de governo.

 

Tá vendo só, cidadão de bem: é Congresso de conchavos! É Supremo de abortistas! É tudo pauta gay! O mito, inconformado com a inimizade da realidade, triste ao ver sua agenda de besteiras derreter diante do silêncio dos adultos, decidiu sobreviver na fúria dos fanáticos, e apostou tudo na ruína: duas mil mensagens de WhatsApp viraram quinze mil, sessenta mil, quinhentas mil, viraram um protesto de convertidos com milhões e milhões de memes e alguns manifestantes. Lá nas ruas, a facção verde e amarela panelava sua histeria anti-verdade, 0,3% da população delirando-se povo; nas estradas, a tropa caminhoneira piquetava orgulhosa o desenvolvimento do país, cantando o hino nacional com o patriotismo da chantagem. Em poucos dias, o Brasil era todo raiva e filas.

 

Ótimo, tudo ótimo, deu Jair! O caos é o filho predileto do populista, ele que só sobrevive caminhando em escombros. E manter a gritaria na rua com a faca no pescoço das instituições era a única rota de fuga possível para a mediocridade histérica, a mediocridade Golden Shower do capitão que vestiu a faixa presidencial sem saber que com ela vinha a presidência junto.     

 

Ali, naquele momento de assombro republicano, o Brasil parou para olhar ao redor, olhar para os seus, olhar para si: da esperança genuína de um país sem corrupção, colhemos apenas a terra arrasada que só a aridez populista consegue devastar – éramos um fragmento de país, uma nação de cabeça baixa que, olhando resignada para o chão, não viu a tragédia logo mais à frente imitando uma arminha com a mão.

 

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Com o cinza nosso sentimento nacional drenando qualquer indignação, a hora finalmente chegou, o momento de rosnar aquele eco autoritário que, durante os 30 anos de redemocratização, jamais aceitou deixar as decisões políticas no colo da liberdade: Jair Bolsonaro, diante das câmeras emocionadas da TV Record, apontou cenograficamente para a arquitetura côncava e convexa da Democracia, e discursou sua idiotice de língua presa:

 

Ali está o problema, tá ok: ou fecha, ou o país acaba. E no tocante à corrupção, precisamos acabar com os conchavos e com a velha política e isso daí… se não há políticos, não há corrupção. Com Jesus Cristo e o Sérgio Moro ambos do nosso lado, vamos em frente!

 

A milícia bolsonarista, armada e atirando contra toda gravata vermelha de Brasília, impediu a abertura do Congresso por 13 dias, 13 dias disfarçados de 1964. Exato, Bolsonaro: não há melhor investimento político do que armar até os dentes os seus fanáticos de estimação…

 

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Caos: bolsa caindo, dólar disparando, inflação corroendo a dignidade da nossa moeda, a União Europeia lamentando o fracasso desse até então simpático subdesenvolvido tropical, e os manifestantes vestidos de CBF dançando a música do pato – estávamos a uma brisa da Venezuela definitiva. A desordem política e a deflagração econômica são os lamentos finais de uma nação suspirando seu pedido urgente de socorro; se a Venezuela virou à esquerda, o Brasil pegou o caminho contrário para desabar no mesmo desespero.

 

Bolsonaro, depois de reaberto o Parlamento, negou indignado qualquer relação com os milicianos vestidos de Bolsonaro, Bolsomito, Bolsominion, Bolsodivo, Bolsocréu. Mesmo assim, em março de 2020, o presidente da Câmara dos Deputados, respaldado pelo fiapo de Congresso que resistiu ao ato patriótico de terrorismo anti-Brasil, deu inicio ao processo de Impeachment. Sem qualquer esperança de conquistar maioria, contudo: PSL e PT, os mais expressivos partidos da Casa, haviam assinado uma nota conjunta denunciando a ilegalidade de destituir o presidente do cargo, ele que fora legitimamente eleito pelas urnas – a soberania inatacável das urnas que emudece o povo durante quatro anos de arrependimento. Impeachment é golpe! É golpe parlamentar! Golpe branco! Soft golpe!

 

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Veja como a conjuntura parlamentar debocha das nossas paixões eleitorais, como o inimigo muda de tonalidade quando o cheiro de poder brisa de outro lado: se a atmosfera de uma nação só consegue respirar extremismos; se a política deixa de ser um exercício responsável de propor e construir futuro, os antípodas percebem um no outro sua mais profunda fraternidade, e deixam de lado a briguinha lateral de guarda-roupa – minha camiseta vermelha é mais bonita; minha blusa amarela é mais cheirosa – e vestem todos o uniforme idêntico do fanatismo ideológico, aquele que só grita o que o líder comanda, capitão ou metalúrgico.

 

Pois nem vermelho, nem amarelo: diante do terremoto político que desmoronava o Brasil em mais uma década perdida (de década em década, a nossa incompetência constrói um século), foi o verde oliva que cravou o ponto final dessa última ingenuidade democrática. Sem consenso no Congresso (consenso? Palavra há tempos desdicionarizada do país), os militares calejados de olavismo anunciaram, em 23 de junho de 2020, a destituição do presidente de suas funções à frente da República, tal como admite, transparentemente, a interpretação com requintes de tortura da Constituição, naquela muito nacional doutrina moro-jurídica de pós-legalismo – ou pré-esculacho. Enquanto a Democracia lamentava sua insistente incompatibilidade brasileira, a História gargalhava essa deliciosa ironia: Jair Bolsonaro sofreu o Golpe Militar dos seus sonhos de juventude, sofreu sua insanidade sobre si mesmo. Otário.

 

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Esse país do futuro condenado a ser sempre um espelho opaco do passado olha para frente e só enxerga sua miséria com 500 anos de certidão – mais um Golpe Militar nos dando bom dia todas as manhãs.

 

A História, no entanto, é inacreditável, assombrosa, dramática, cruel, mas só é tudo isso enquanto ainda é silêncio, ainda é futuro. Quando a História é agora, ela se transforma em fato inevitável, ela acontece pouco a pouco nas manchetes, escândalos e lamentos de todos os dias, acontece resignada.

 

Se alguém me dissesse, em 1º de janeiro de 2010, no dia da posse de Dilma Roussef, que aquela senhora de discurso precário sofreria um Impeachment, que o país do boom das commodities atravessaria a pior recessão econômica de todas, que o seu antecessor recordista de popularidade seria preso por corrupção, que o Brasil de gente pacata tomaria as ruas semanalmente para odiar a política, e que aquele deputado extremista do baixo clero seria eleito Presidente da República, eu apenas sorriria de absurdo, o sorriso de superioridade que ainda não viu a História provar seu artesanato caótico.

 

Jamais podemos subestimar a vocação de um país para escorregar a ladeira abaixo do fracasso: ou bem defendemos as instituições que, dia após dia, silenciosamente, disciplinam nossos piores impulsos, ou o egoísmo populista sequestra a História para si, para desespero irremediável de todos.

 

Felipe Eduardo Lázaro Braga é formado em Ciências Sociais, Mestre em Sociologia, e graduando em Filosofia. Escreve sobre arte contemporânea, e trabalha com pesquisa de mercado e opinião.     

 

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