Olhos que condenam: A insubmissão na narrativa pela verdade
Quinta-feira, 27 de junho de 2019

Olhos que condenam: A insubmissão na narrativa pela verdade

Olhos que condenam, nova série da Netflix, trata do polêmico caso real da condenação nos EUA de cinco jovens negros acusados de um crime que não cometeram

Imagem: Divulgação/ Netflix.

Por Marco Aurélio da Conceição Correa 

 

A explosão de Olhos que condenam (When They See Us, 2019) série do canal de streaming Netflix é inquestionável. Não é nenhuma surpresa que a série tenha alcançado já tanto sucesso de crítica, sendo a série mais assistida na plataforma desde sua estréia. A temática da série é mais do que atual e a narrativa por ela tecida, mesmo tratando um caso real ocorrido do século passado, ainda é pertinente no cenário político atual. A série dramatiza o polêmico caso da condenação injusta de cinco jovens negros  do Harlem – Antron, Kevin, Yusef, Raymond e Korey – pelo estupro de Trisha Meilli no Central Park.

 

Para combater a onda de crimes causadas pelo cenário de desigualdade em Nova Iorque do final dos anos 1980, a delegacia de polícia decide culpar a todo custo esses jovens, servindo assim como bode expiatório e ainda assustando outros possíveis jovens de cometer delitos do tipo. Para “solucionar” o problema da cidade, os policiais decidem usar táticas de coerção para forjar confissões dos cinco menores de idade que foram levados a delegacia como suspeitos. Partindo de agressões físicas e verbais, tortura psicológica e ameaças, os policiais conseguem que os jovens confessassem um crime que não cometeram, sendo assim detidos pela justiça, acalmando a opinião pública.

 

 

A grande questão da série não é só como a grande mídia da época fez uso das televisões e jornais para incitar a opinião pública com a gravidade do caso, fazendo com que o público aceitasse qualquer suspeito como culpado. Um célebre momento da série acontece quando são retratados os anúncios pagos pelo então empresário Donald Trump pedindo a volta da pena de morte. A grande questão da série é como percebemos que as verdades não são únicas e universais, mas são tecidas através de diferentes narrativas que nos fazem criar nossos pontos de vista.

 

Pelo o que nos é apresentado, sabemos que os meninos são inocentes, pois eles apenas acompanharam um grupo de jovens no parque, sem se envolver em nenhum delito. Porém, a opinião dos jovens não tem vez na delegacia, os policiais os pressionam de todos os jeitos possíveis para poderem conseguir alguma materialidade que pudesse servir de prova para incriminá-los. Pelas regras do direito e da lei, aquela investigação não poderia ter acontecido de nenhum jeito, eles eram menores de idade, desacompanhados das famílias e sem qualquer proteção legal. Sem contar toda a coerção agressiva dos policiais. Porém, sabemos que nem sempre os direitos de um cidadão são respeitados plenamente: eles variam dependendo de quais são as suas origens, cor, classe social.. variam segundo diversos fatores e em diversos níveis. Como aponta Milton Santos: “todos não são igualmente cidadãos, havendo os que nem são cidadãos e havendo os que não querem ser cidadãos, aqueles que buscam privilégios e não direitos” (1996, p. 7) [1].

 

Caso os jovens não fossem de origem periférica, de pele negra e hispânica e a vítima não fosse uma mulher branca as condenações aconteceriam da mesma forma? No caso estadunidense, existem inúmeros exemplos semelhantes de jovens negros que foram injustamente acusados de estupros de mulheres brancas, todos tendo destino parecido com o caso nova iorquino. Emmett Till, George Stinney Jr, os nove meninos de Scottsboro além de muitos outros casos mostram o racismo no sistema judiciário dos Estados Unidos. E essa complexidade não se apresenta apenas na conjuntura estadunidense, o Brasil e muitos outros países do mundo atlântico também sofrem com a questão do encarceramento em massa de jovens negros.

 

 

Este encarceramento em massa é um reflexo do racismo estrutural das sociedades que viveram a experiência traumática da escravidão. “Todo camburão tem um pouco de navio negreiro“. Para justificar a prisão de qualquer jovem negro suspeito, é preciso existir um aparelho que crie “verdades” materializando provas que possam subjulgar estes jovens à prisão.

 

“O racismo é, por um lado, um comportamento, uma ação resultante da aversão, por vezes, do ódio, em relação a pessoas que possuem um pertencimento racial observável por meio de sinais, tais como: cor da pele, tipo de cabelo, etc. Ele é, por outro lado, um conjunto de idéias e imagens referente aos grupos humanos que acreditam na existência de raças superiores e inferiores. O racismo também resulta da vontade de se impor uma verdade ou uma crença particular como única e verdadeira” (GOMES, 2005, p. 52) [2].

 

A disputa pela verdade é uma empreitada do pensamento tardio-moderno europeu que quer justificar a sua dominação através de uma suposta razão universal. “Desde o Iluminismo, diz-se que o papel da ‘ciência’ é o de apresentar uma descrição ou conhecimento ‘verdadeiro’ do mundo: objetivo, imparcial, e racional” (HALL, 1997, p. 29) [3]. O caso contemporâneo das cruzadas estadunidenses pela democracia é semelhante.

 

O grande paradigma dos processos civilizatórios ocidentais é desconsiderar a diferença como humana. Nesse paradigma, aponta Mbembe em sua necropolítica que “a razão é a verdade do sujeito, e a política é o exercício da razão na esfera pública. O exercício da razão equivale ao exercício da liberdade, um elemento-chave para a autonomia individual” (2015, p. 124) [4]. Então, se o diferente é desprovido da razão humanitária ele não pode exercer por completo a sua liberdade, nem constituir seu próprio eu, ou a sua própria verdade.

 

Esses são os efeitos da coloniedade que ainda afetam nossos cotidianos atualmente. Uma velha relação de subjugação. Fanon, em Condenados da Terra, coloca:  O colono e o colonizado são velhos conhecidos. E, de fato, o colono tem razão quando diz que ‘os’ conhece“, pois, “é o colono que fez e continua a fazer o colonizado. O colono tira a sua verdade, isto é, os seus bens, do sistema colonial” (1968, p. 26) [5].

 

A primazia pelo materialismo é uma forma de dominação ocidental onde o material é visto como detenção de poder. Tem poder aquele que tem. Deter é um privilégio daquele que domina e possui o material, não se limitando a propriedades físicas mas também a informações. Narrar a história além de sua materialidade é uma forma de compreender o ser humano e suas relações com a diferença como potência de sentidos e significados.

 

“O cotidiano também nos põe diante de outras categorias, como a da materialidade e a da imaterialidade. O cotidiano são os dois, ele não é dado apenas pela materialidade que nos cerca. A imaterialidade também é um constrangimento às vezes mais forte que a materialidade: essa idéia de tecnosfera e de psicosfera que andamos tentando difundir, de um lado esta esfera técnica que envolve o homem no fim do século, e, de outro, a esfera das paixões, das crenças, dos desejos, tão objetiva em nossa vida quanto objetiva é a esfera da materialidade” (SANTOS, 1996, p. 10-11).

 

 

Forjar provas materiais com depoimentos escritos forçados, forçar a confissão de um crime não feito em audio e vídeo, ou então julgar numa linguagem que não é de domínio democrático são formas de dominação da narrativa da verdade. Assim, o próprio conceito de democracia entra em xeque em sociedades desiguais.

 

A supremacia da linguagem escrita é um grande paradigma, até mesmo nos dias de hoje altamente audiovisualizados. Em Tradição viva, do filósofo malinês Hampaté Bâ, encontramos alguns questionamentos dessa relação entre o dito e o escrito: nas sociedades tradicionais africanas a tradição oral é uma escola de vida e a mentira é uma lepra social. A oralidade, “pode parecer caótica àqueles que não lhe descortinam o segredo e pode desconcertar a mentalidade cartesiana acostumada a separar tudo em categorias bem definidas“(2010, p. 169) [6]. Mas será que o elitismo de uma linguagem escrita não é uma forma de dominação também?

 

O direito de narrar é uma luta pela autodeterminação das populações negras por toda a diáspora negra. Esta disputa acontece desde o simples direito de ter a sua opinião ouvida nos cotidianos, até o momento de se defender perante ao júri. Mas também está presente quando um sujeito busca narrar sua subjetividade em um poema, compartilhar experiências em um livro ou criar suas próprias histórias no cinema – é o que a diretora Ava Duvernay faz com Olhos que condenam.

 

 

A diretora que conseguiu aclamação por Selma e 13º Emenda narra uma história que não se limita em ser mais uma denúncia da condenação injusta de jovens negros. Ela cria uma narrativa de resgate à memória e ao direito de sonhar com a esperança. Felizmente, depois de anos, os cinco jovens conseguem a sua liberdade: após um outro preso se sensibilizar com a causa e confessar o crime, amostras de DNA do confesso são encontradas nas roupas da vítima.

 

É importante ver uma voz nessa obra que se enuncia por justiça evocando a humanidade daqueles que a tiveram negada. Ainda mais vindo de uma mulher negra, figura central na narrativa representada pelas mães dos meninos – principalmente também por sabermos a dificuldades de mulheres negras encabeçarem a direção de uma obra audiovisual com essa envergadura. Com toda a propriedade da disputa da verdade que define Lélia González:

 

“A gente tá falando das noções de consciência e de memória. Como consciência a gente entende o lugar do desconhecimento, do encobrimento, da alienação, do esquecimento e até do saber. É por aí que o discurso ideológico se faz presente. Já a memória, a gente considera como o não-saber que conhece, esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita, o lugar da emergência da verdade, dessa verdade que se estrutura como ficção. Consciência exclui o que memória inclui. Daí, na medida em que é o lugar da rejeição, consciência se expressa como discurso dominante (ou efeitos desse discurso) numa dada cultura, ocultando memória, mediante a imposição do que ela, consciência, afirma como a verdade. Mas a memória tem suas astúcias, seu jogo de cintura: por isso, ela fala através das mancadas do discurso da consciência. O que a gente vai tentar é sacar esse jogo aí, das duas, também chamado de dialética. E, no que se refere à gente, à crioulada, a gente saca que a consciência faz tudo prá nossa história ser esquecida, tirada de cena. E apela prá tudo nesse sentido. Só que isso ta aí… e fala” (1983, p. 226-227) [7].

 

O impacto da série não é um acaso, Olhos que condenam agradam o espectador negro que Manthia Diawara defende em suas teses, um espectador que tem como referências seus cotidianos, suas memórias e suas condições psico-sociais. A série chocou muitos com seus primeiros episódios, pois é uma dor lidar com o sofrimento da injustiça, principalmente de semelhantes, mas é necessário se problematizar constantemente o agora e essa é a pertinência da série em tempos de barbárie. Foi a pressão pública de ativistas e de pessoas interessadas com a verdade que inocentaram os jovens e conseguiram uma indenização milionária de quatorze milhões para suas famílias. Retornando ao passado e aprendendo com ele, nos preparamos no atual presente para lutar e possibilitar um futuro melhor: Sankofa.

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Sankofa: representado por um pássaro que volta a cabeça à cauda é parte de um conjunto de ideogramas de tradição africana chamados adinkra. O símbolo é traduzido por: “retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”.

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O problema é que enquanto eles nos verem com olhos que condenam será difícil organizar um futuro distante de injustiças. Mas enquanto nos organizarmos para proporcionar o nosso direito de narrar a própria história, a própria verdade, teremos esperança para um outro futuro.

 

A esperança é um condimento indispensável à experiência histórica. Sem ela, não haveria História, mas puro determinismo. Só há História onde há tempo problematizado e não pré-dado. A inexorabilidade do futuro é a negação da História” (FREIRE, 1996, p. 29) [8].

 

Marco Aurélio da Conceição Correa é graduado em pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

 

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Notas:

[1] SANTOS, Milton. P  or uma geografia cidadã: por uma epistemologia da existência. Boletim Gaúcho de Geografia, 21: 7-14, ago., 1996. 

[2] GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma breve discussão. In: BRASIL. Educação anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal n. 10.639/03. Brasília: MEC/SECAD, 2005.

[3] HALL, Stuart. A centralidade da cultura: notas sobre as revoluções culturais do nosso tempo. Revista Educação e Realidade, v. 22, n. 2, 1997. 

[4] MBEMBE, Achille. Necropolítica, Temáticas, n º 32, 2015. 

[5] FANON, Frantz. Condenados da terra, Tradução: José Laurênio Mello, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968. 

[6] HAMPATÉ BÂ, Amadou. A tradição viva. In: KI-ZERBO, Joseph (Ed.). História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África. 2.ed. rev. Brasília: UNESCO, 2010,

[7] GONZÁLEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Movimentos sociais urbanos, minorias étnicas e outros estudos. Brasília: ANPOCS, 1983, p. 228.  

[8] FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra. 1996. 

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