Estética do capitalismo financeiro: a sociedade binária
Sexta-feira, 28 de junho de 2019

Estética do capitalismo financeiro: a sociedade binária

Se a máquina continuar no centro da vida, como um deus a comandar atitudes, pensamentos e alteridades, logo voltaremos a níveis de barbárie pré-capitalista

Arte: Daniel Caseiro.

Por André Márcio Neves Soares

 

 

Quando o matemático, criptoanalista e cientista da computação britânico Alan Turing desvendou os códigos da frota naval alemã na Segunda Guerra Mundial, ele acreditava piamente na força do progresso científico, especialmente o computacional, para tornar a humanidade livre das tiranias. O arquétipo populista-autoritário das décadas seguintes ao período das guerras mundiais deveria ser banido pelo poder da ciência na valorização dos indivíduos e de suas potencialidades. Se o século XX começou assombrado por sociedades mecanizadas e iludidas quanto ao potencial redutor das pessoas como meros fantoches no picadeiro mundial da globalização em franco desenvolvimento desatinado, o futuro imaginado por Turing e seu legado era para ser de esplendor estético e material, como já pensado por tantas outras mentes célebres.

 

A segunda década do século XXI, porém, irá chegar para os “tardomodernos” (BERARDI, 2019) pelo avesso do que imaginou Turing. Não só a estética do capitalismo financeiro mundial tornou a paisagem da vida humana menos promissora, como a materialidade das condições impostas por essa atual estética-mundo ficou bem longe da vislumbrada pelo inventor da máquina “Enigma”. A aceleração e a velocidade da economia moderna, traduzidas em uma produtividade sem precedentes na história do capitalismo, nunca exerceram, amplamente, sua promessa de dias menos difíceis para a pessoa comum. É verdade que tivemos a chamada “era de ouro” do capitalismo pós-guerras. Mas ela beneficiou basicamente um continente do planeta, com migalhas sendo absorvidas pelas elites das periferias possuidoras de recursos naturais, e perdurou por um curto espaço, aproximadamente três décadas.

 

A sociedade binária, sobre a qual Turing tem grande responsabilidade (e teve grandes sonhos), não elevou o patamar civilizatório do animal humano “tardosocial”. Pelo contrário, o fez regredir a níveis do entreguerras, com rápido declínio das condições mínimas de sustentabilidade econômica, ecológica e relacional (ou psicossocial) entre os humanos “sapiens”. Se a máquina continuar no centro da vida de todos nós, como um deus a comandar nossas atitudes, nossos pensamentos e nossas alteridades, não demoraremos a voltar para níveis de barbárie pré-capitalista. Importa lembrar que o capitalismo não passa de um momento histórico. Antes dele o homo sapiens já era sapiens (HARARI, 2012). Tornar-se pessoa plena de direitos e deveres após novo retrocesso não será fácil. Não se recupera a empatia para com o outro tão rapidamente. Como reconstruir novas ágoras, se as de hoje já são tão insuficientes? E o principal: como recuperar a esperança no futuro, se já o tivemos e o desperdiçamos?

 

Quando, no século VI a.c., o filósofo grego Heráclito de Éfeso conceituou o “devir”, obviamente não tinha consciência do quão grandes seriam as mudanças nesse mundo. O “devir” histórico permeia o campo de atuação da humanidade desde que ela se tornou diferente dos outros “homos”. Se tivemos mais chances, mais recursos, maiores capacidades e mais tempo que nossos parentes, isso só foi possível pelo aperfeiçoamento da nossa cognição individual e coletiva. Em algum momento da nossa história, os números 0 e 1 foram fundamentais para mais um salto, agora rumo ao desfiladeiro da modernidade tecnológica. Poderíamos descer os morros em rapel, controlando nossos fluxos de conhecimento e afluxos de sabedoria. Mas se continuarmos lançando a história do homem com flechas de fogo do alto da montanha, queimaremos o resto de tecido social que ainda nos resta, para atenuar nossa descida em busca de novos campos férteis para a continuidade da espécie. O fim desse desfiladeiro pode ser, ao invés da utopia realizada, a inevitável distopia: a tirania.

 

André Márcio Neves Soares é Mestre em Políticas Sociais e Cidadania e Pós-Graduado em Direito do Trabalho pela UCSAL – Universidade Católica do Salvador.

 

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Referências:

BERARDI, Franco. DEPOIS DO FUTURO. São Paulo. UBU Editora. 2019;

HARARI, Yuval Noah. SAPIENS. Porto Alegre, RS. L&PM. 2015.

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