Um relato das periferias das metrópoles: grandes câmaras de tortura
Sexta-feira, 28 de junho de 2019

Um relato das periferias das metrópoles: grandes câmaras de tortura

“Ei, mas a periferia não é só isso”. Eu sei. Mas isso é muito da periferia. Muito mesmo. E eu não estou aqui pra passar pano e nem colocar a culpa sobre o povo da periferia
 
Por Feliphe Silva
 
Ah, o canto dos pássaros. As doces notas seriam audíveis, se não fosse pelo ronco dos motores, que junto ao insistente celular atuam como despertador. E lá vai nossa heroína, Maria, acordando novamente às seis da manhã. Arrasta-se, como uma zumbi, do quarto para a sala-cozinha, põe a água no fogo, açúcar, passa o café no coador e engole com dois ovos fritos e farinha. Vai para o banheiro, fita o espelho; caga com pressa, escova os dentes, toma banho, se veste, coloca a maquiagem, caminha até a avenida, espera, faz sinal com a mão e encara uma hora e meia dentro do ônibus, em pé, até chegar ao trabalho. Cuida de chegar antes da hora; melhor garantir do que arriscar ficar presa no trânsito e chegar atrasada. Inicia às oito, sai às cinco – às vezes cinco e meia. Meia hora no metrô, chega na faculdade – graças a Oxalá conseguiu pegar o FIES. As aulas se encerram às nove e meia: ônibus, uma hora de trajeto, quase cochilando, desce na avenida, sobe a ladeira com medo de ser assaltada – ou coisa pior -, cansada, com sono, chega em casa, come o macarrão de ontem, toma banho e, finalmente, deita-se para dormir, ao som dos motores que passam.
 
Isso é uma breve síntese do que eu vi e vivi nas periferias de São Paulo. Para tornar mais breve a introdução, excluí toda poluição audiovisual e, obviamente, as pequenas violências do dia-a-dia, resultado da aglomeração humana em meio a trabalho árduo, desemprego iminente, prazos, contas a pagar, uma guerra às drogas falida, café, cachaça, esgoto, asfalto, gás carbônico e o esforço para seguir em frente.
 
Eu vim de uma cidade no interior da Bahia e, durante minha estadia na capital paulista, morei em um bairro de classe média alta e em três bairros periféricos diferentes. Dos três bairros periféricos, um deles eu considero habitável, o outro moderado – dava pra levar -, e o último (que na verdade foi o primeiro, quando cheguei na cidade) eu consideraria indigno para o meu pior inimigo, se eu tivesse um.
 
As casas sem reboco se amontoam no morro, o córrego passa ao lado da quadra onde crianças jogam bola de pés descalços, na praça ao lado uns moleques estão fumando um; uma viatura vem vindo, eles jogam tudo no mato, perto do córrego, para onde vai a ponta acesa. A viatura passa. No sábado tem um batuque de um terreiro de Umbanda, em uma ruazinha, fui lá visitar. Na avenida principal ecoam as vozes roucas de uma dúzia de pastores em igrejas diferentes. Outra viatura, dessa vez com a sirene ligada; um carro branco vai na frente, faz a curva cantando pneu. De manhã, a polícia estava em um prédio na avenida, parece que alguém cometeu suicídio – ainda bem que não fui eu. Outro dia ouvi uns estouros de madrugada, achei que era bomba, mas podia ser tiro. Outro dia ouvi os gritos de uma mulher, “Socorro! Socorro! Meu celular! Filho da puta!”.
 
Se você mora em um bairro de classe média alta, mais tranquilo, lembre-se que, muitas vezes, são as pessoas que vivem nessas condições que cuidam do seu prédio, que varrem sua rua, que te atendem no mercado, que fazem a sua comida no restaurante.
 
Minha experiência me levou a concluir que as periferias da metrópole são grandes câmaras de tortura para essas pessoas, criadas e ainda mantidas pelo Estado, onde os torturados vivem resignados, sob a ameaçada de que, se fugirem, não terão onde cair mortos.
 
 
Com o agravante de que os torturados mais cegos e mais bestializados ante esse processo – frutos de um sistema de educação tradicionalmente vilipendiado -, com frequência, tornam-se eles mesmos os torturadores dos seus semelhantes.
 
O Kauê é filho da vizinha da Maria, a Marineide. Ele decide reunir os amigos e fazer um baile funk na sexta-feira, durante toda a madrugada, enquanto a Neide trabalha como arrumadeira em um Motel e a Maria tenta dormir. Maria liga para a PM. Tem medo de ir falar com os vizinhos, às três da manhã, já embriagados. “Ocorrência de barulho? Vou transferir para o setor responsável”. Ela espera por meia-hora, até que a ligação cai. Tenta de novo. Mesmo resultado. Ela descobre que pode fazer a queixa pela internet; o faz, o tempo passa, nada acontece. Ninguém se importa que ela está grávida de três meses, trabalha no sábado e tem prova na segunda-feira. Começa uma discussão entre os festeiros; insultos, ameaças de morte. “Graças a Deus”, pensa Maria.
 
“Ei, mas a periferia não é só isso”. Eu sei. Mas isso é muito da periferia. Muito mesmo. E eu não estou aqui pra passar pano pro errado falando do certo. E nem colocando toda a culpa sobre o povo da periferia.
 
E a mudança? Bom, ou você se muda para outro lugar, ou passa por tudo isso até que haja uma mudança política, concomitante a uma mudança na consciência dos cidadãos que habitam essas regiões. Não acredito que uma deva necessariamente preceder a outra. Elas podem ocorrer em consonância. Ou hora mais de uma, hora mais de outra. E podem até ocorrer antes ou depois de você se mudar para outro lugar. Desde que ocorram, e logo, ficarei feliz. Pois, como eu disse, não desejaria o que ocorre com o povo da periferia nem para o meu pior inimigo, se eu tivesse um.
 
Feliphe Silva é estudante de Direito, ser político e aspirante à polímata.
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