“O que é interseccionalidade?”
Segunda-feira, 1 de julho de 2019

“O que é interseccionalidade?”

 

Por Maciana de Freitas e Souza

 

O livro “O que é interseccionalidade?’’ escrito pela pesquisadora e ativista Carla Akotirene, faz parte da série Feminismos Plurais, cujo objetivo é introduzir questões relativas ao feminismo negro.

 

 Interseccionalidade é pensada como uma categoria teórica que focaliza múltiplos sistemas de opressão, em particular, articulando raça, gênero e classe. O termo, nas palavras de Carla Akotirene:

“demarca o paradigma teórico e metodológico da tradição feminista negra, promovendo intervenções políticas e letramentos jurídicos sobre quais condições estruturais o racismo, sexismo e violências correlatas se sobrepõem, discriminam e criam encargos singulares às mulheres negras.”[1].

 

No livro “O que é interseccionalidade? de Carla Akotirene, pontua que o termo ganhou espaço a partir de uma palestra realizada por Crenshaw na cidade Durban, na África do Sul, em 2001. Akotirene aponta no texto para os perigos do esvaziamento do conceito e que a interseccionalidade se constitui enquanto ferramenta crítico-política e teórica que “visa dar instrumentalidade teórica-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cis-hétero-patriarcado”[2]

 

Nesse sentido, a interseccionalidade permite uma maior compreensão acerca das das desigualdades raciais existentes. Afirma Akotirene, “racismo, capitalismo e hétero-patriarcado devem ser tratados pela interseccionalidade, observando os contornos identitários da luta antirracista diaspórica”[3]. A interseccionalidade, segundo Carla Akotirene, “instrumentaliza os movimentos antirracistas, feministas e instâncias protetivas dos direitos humanos a lidarem com as pautas das mulheres negras”[4]. Podemos considerar assim, uma categoria analítica relevante para pensarmos a questão racial no Brasil e os desafios para a adoção de políticas públicas eficazes.

 

 

Frequentemente, e por engano, pensamos que a interseccionalidade é apenas sobre múltiplas identidades, no entanto, a interseccionalidade é, antes de tudo, lente analítica sobre a interação estrutural em seus efeitos políticos e legais. A interseccionalidade nos mostra como e quando mulheres negras são discriminadas e estão mais vezes posicionadas em avenidas identitárias, que farão delas vulneráveis à colisão das estruturas e fluxos modernos[5]

 

Dependendo do lugar social que se ocupa, o gênero é vivenciado de maneira diferente, isso porque a situação das mulheres, em especial das mulheres negras e de classes populares, possuem desafios adicionais para o acesso a direitos. Ao apresentar as críticas feitas ao conceito de interseccionalidade, Akotirene aponta que “a interseccionalidade pode ajudar a enxergarmos as opressões, combatê-las, reconhecendo que algumas opressões são mais dolorosas. Às vezes oprimimos, mas às vezes somos opressores”[6]

 

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Portanto, a interseccionalidade, como apresenta Carla Akotirene, assume um papel central na luta do feminismo, “importante dizer que mulheres negras precisavam de uma resposta metodológica que abarcasse múltiplos sistemas de opressão numa proposta metodológica engajada”[7]. Concordamos com a autora ao considerar que a experiência do ser mulher é particular, por conta das condições de vida e relações de poder, e que por isso devemos analisar as questões de maneira interseccional e não isoladamente. Vivemos uma conjuntura marcada pelo aumento da representação política de grupos conservadores, portanto, é necessário pensar estratégias com vistas a superação das várias opressões, buscando transformar a realidade individual e coletiva.

 

Maciana de Freitas e Souza é bacharela em Serviço Social pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).


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Notas
[1] – O Que é Interseccionalidade – Akotirene, Carla – Editora Letramento (2018) – (2018, p.54)
[2] – idem – (2018, p. 14).
[3] – idem –  (2018, p.56)
[4] – idem – (2018, p.57)
[5] – idem – (2018, p. 58)
[6] – idem – (2018, p.92)
[7] – idem – (2018, p.94)
Segunda-feira, 1 de julho de 2019
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