Bandidos são vítimas da sociedade, assim como bolsonaristas são vítimas do PT
Terça-feira, 2 de julho de 2019

Bandidos são vítimas da sociedade, assim como bolsonaristas são vítimas do PT

 

Por Martel Alexandre Del Colle

 

É difícil ser brasileiro e nunca ter ouvido a seguinte afirmação: “A esquerda diz que bandidos são vítimas da sociedade”.

 

 

Vale à pena ressaltar que essa acusação não se refere a todos os bandidos. Ela se refere ao bandido pobre, negro e de comunidade periférica. Segundo a direita bolsominiana, essas pessoas não têm nada de vítimas.

 

Eu poderia debater a frase acima de várias formas, mas eu gosto de olhar as coisas por diferentes ângulos

Vamos admitir que essa seja uma premissa da esquerda brasileira. Aquela  que alguns julgam por “pão com mortadela”, “mamadeira erótica” e “comunista”. Aquela que recebe orientações da KGB e é patrocinada por George Soros com o único objetivo de destruir a família e os valores cristãos. E por que a esquerda quer isso? Simples: De acordo com os conservadores, porque ela quer.

 

Fazendo o controle moral dos discursos possibilitam que eles se julguem muito mais éticos que as pessoas de esquerda. Por isso você não vê separação de casal na direita, não acontece traição, não encontra pessoas de direita em prostíbulos, não usam drogas, não fazem sexo fora do casamento, não amaldiçoam ninguém, são humildes, e todas as outras qualidades que você possa imaginar.

 

Agora vamos assumir hipoteticamente que a esquerda diga que “bandidos são vítimas da sociedade”. E vamos admitir, por um momento que a direita tenha razão e essa afirmação é falsa.

 

O curioso é que, utilizando-se do mesmo subterfúgio argumentativo, nas poucas pesquisas que encontrei sobre policiais que executaram e torturaram pessoas eles sempre se colocam como vítimas da sociedade. Dizem que a sociedade criminosa que exigiu o sacrifício moral daqueles militares.

 

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Este é apenas um exemplo de comportamento que prevê os reflexos do passado para justificar a prática desviante de conduta que permeia todo o seio social. Mas não são poucos os exemplos, encontramos muito outros como:

 

Quando você descobre que aquele super-empresário está devendo até as calças em impostos e que não pagava os funcionários corretamente, ele provavelmente lhe dirá que é uma vítima do Estado e que tal ente cobra impostos demais;

 

Quando você pergunta ao marido que trai a esposa qual o motivo da traição, ele dirá que ela não lhe dava amor, ou sexo, ou atenção. Ou seja, é vítima da esposa;

 

O marido que bate afirma ser vítima de uma mulher que o tira do sério. Novamente a culpa é da mulher e o agressor é uma vítima;

 

O oficial que faz autopromoção em vez de segurança pública nas policiais militares afirma que faz isso porque é vítima de um sistema mais antigo que ele. Vai afirmar que todos os outros oficiais se aliam com políticos e que ele só está seguindo o fluxo; 

 

O policial que pega arrego na boca de tráfico se diz vítima de uma polícia que só valoriza oficiais e que paga uma miséria para o policial. Como o militarismo não aceita reivindicações, a solução é lucrar com o tráfico;

 

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O cidadão que pede nota fiscal para o dentista se diz vítima de uma cobrança excessiva de impostos;

 

O atleta que se dopa se diz vítima de outros atletas que fazem o mesmo;

 

O dono do posto que combina preço se diz vítima do cartel do qual ele participa;

 

O pastor desvia dinheiro, pois é vítima da tentação da serpente;

 

O padre que abusa é vítima do celibato, ou é vítima das provocações daquelas crianças com roupas provocantes;

 

Os eleitores de Bolsonaro se dizem vítimas do PT;

 

O político corrupto é vítima do jogo político. Afirma que se não fosse assim não conseguiria fazer nada. Ele é vítima de uma dança que ele não criou, apenas entrou para dançar;

 

O médico que faz cirurgias desnecessárias é vítima da pressão social pelo sucesso. Todos os colegas de graduação dele estão ricos menos ele;

 

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Desde que todos os exemplos acima parem de se vitimar também, eu aceito dizer que o criminoso não é vítima da sociedade. Por que a corda sempre estoura para o lado mais fraco? Por que todas as outras corrupções e incompetências são aceitáveis e só algumas são condenáveis?

 

A questão é que nenhum de nós age só por nossa culpa, mas também não agimos só por culpa dos outros. Somos seres sociais que somos coordenados e impulsionados coletivamente, sob a influência biopsicosocial, da natureza, do meio social e da cultura. Portanto, é importante que se frise que a ideia do bandido vítima da sociedade não sai da boca da esquerda, mas da direita que tenta culpar a esquerda pelos problemas sociais existentes para que a direita se considere apenas vítima. 

 

Com isso, essa ideia de tentar dizer que alguém é só vítima ou só perpetrador é vazia. Não chegaremos a lugar algum. O caminho mais interessante é compreender que todos nós somos influenciados e influenciamos o meio em que vivemos.

 

Desta forma, ao lidar com o crime, o foco deve estar nas formas de diminuir as influências que levam a violência e criminalidade, cientes de que elas ocorrem invariavelmente em maior ou menor grau. Devemos estimular a prevenção e cuidado com o meio, para que o sistema não viva de correção e punição, mas de mais estímulos positivos. 

 

A solução passa por diminuir as oportunidades do crime, e não em encontrar culpados. Quando buscamos os culpados estamos fazendo um serviço paliativo pós crime (que deve ser feito). Ou seja, o crime já ocorreu, “Inês é morta”. 

 

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Não é pela farda ou prestígio. É para fazer um país melhor. Para essa luta, eu sempre serei policial

Por que você acha que a quantidade de crimes solucionados no Brasil é ridícula? Porque investimos em pegar culpados e abarrotamos as delegacias de investigações. Este mecanismo falho de busca de culpados estimula que se espere a moça ser estuprada para pegar o estuprador. É loucura! E está sendo a estratégia do Brasil por anos. E esta ideologia está sendo intensificada nos discursos de Bolsonaro.

 

É importante que se entenda é que o crime e o desvio da norma sempre irá ocorrer. O que podemos fazer é diminuir a quantidade de crimes e a violência deles. O crime é um fato social. A investigação deve ser uma ferramenta utilizada quando um crime consegue passar a malha da prevenção, e não como solução primeira. Esperar o crime acontecer para fazer algo põe toda a sociedade em risco, põe o policial em risco. E diante disso é importante dizer que isso nem sempre é caso de polícia, mas de uma conjuntura de fatores que perpassam todas as outras esferas que não só a segurança pública.

 

Todos somos um pouco vítimas consequenciais da sociedade. E todos nós usamos essa ferramenta da vitimização para nos sentirmos menos derrotados ao burlar uma norma ou moral. Usamos para dizer que teríamos um emprego melhor se não precisássemos trabalhar desde cedo e ficássemos sem tempo para estudar. Que viajaríamos mais se não fosse o sistema. Que seriamos mais amorosos se tivéssemos sido tratados com mais amor. E por aí vai. E isso não está errado. 

 

Nenhum de nós vive isolado, somos seres sociais. E dizer que ninguém é vítima, é, também, dizer que seus pais, amigos, familiares e amores não influenciaram em nada o seu caráter e a sua vida, nem para o bem, nem para o mau. 

 

Martel Alexandre del Colle é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.

 

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