O Capitão-Presidente, a instrução e a educação como meio de superação do homem egoísta
Terça-feira, 2 de julho de 2019

O Capitão-Presidente, a instrução e a educação como meio de superação do homem egoísta

 

Por Zacarias Gama

 

O Capitão-Presidente, coitado, a despeito das boas intenções que possa ter, é refém da instrução sem partido que recebeu.

 

 

Muitas pessoas têm sido favoráveis ao projeto de lei que institui a Escola Sem Partido, mesmo que não levem em consideração os seus efeitos. Defendem que à escola cabe apenas instruir; a educação é de competência das famílias em conformidade com os seus valores. 

 

O debate transcorre no campo da abstração, opondo alunos idealmente instruídos a outros corrompidos pelas ideias disseminadas pelos “petralhas” favoráveis à igualdade de gênero, aborto, divórcio, emancipação feminina etc. Até então nenhum exemplo concreto de homem instruído poderia ser trazido ao proscênio das discussões. 

 

Quando fala em público, os seus discursos são mais rápidos que o preparo de miojo

Mas, eis que o Capitão-Presidente passa a ocupar a boca da cena do grande teatro nacional, vestido em trajes simples, com uma sandália surrada e uma camisa não-oficial de time de futebol certamente comprada em algum camelô, como o melhor protótipo de homem instruído. Quando fala em público, os seus discursos são mais rápidos que o preparo de miojo e igualmente insossos; as entrevistas coletivas ou individuais que dá são marcadas pela rispidez e afirmações titubeantes que podem ser desditas na tarde do mesmo dia. As viagens internacionais e as respectivas gafes, estas então, são de corar os seus mais apaixonados defensores. Fico imaginando o seu sem-jeito diante de um prato de Filets de faisan au muscat et carottes braisés em um banquete servido pela rainha da Inglaterra e pedindo a algum assessor que lhe garanta um pão com leite condensado ou um hamburguer ao sair dos salões do Palácio de Buckingham. 

 

 

A cada dia fica cada vez mais claro a falta de educação do Capitão e a sua transformação em chacota pela imprensa do mundo afora. Mas sempre é bom frisar, ele foi bem instruído militarmente, embora possa ser considerado um homem sem educação de acordo com o ponto de vista piagetiano sobre o que é ser educado.

 

O Capitão mal compara, ordena, categoriza, classifica, comprova, formula hipóteses “em uma ação interiorizada (pensamento) ou em ação efetiva (segundo seu grau de desenvolvimento)”. As palavras incomuns são para ele como pedras em seus discursos. Nem as suas relações pessoais contribuíram para que se educasse para além da instrução recebida, considerando-se que a socialização com mentes simplórias e estrupícias pouco contribuem para a realização de mediações superiores que nos permitem chegar a acordos indispensáveis à convivência democrática e ao estabelecimento de uma sociedade justa, fraterna e livre. É, pois, a educação escolar e social, e não a instrução, que pode transformar a sociedade. 

 

A própria UNESCO se situa no campo educacional para além das concepções favoráveis às escolas de instrução como existem e são formuladas pelos defensores da Escola Sem Partido. Para esta instituição mundial, o ato educacional pressupõe a “ajudar pessoas de todas as idades a entender melhor o mundo em que vivem, tratando da complexidade e do inter-relacionamento de problemas tais como pobreza, consumo predatório, degradação ambiental, deterioração urbana, saúde, conflitos e violação dos direitos humanos, que hoje ameaçam nosso futuro”. Aos seus olhos, o nosso Capitão-Presidente está distante das preocupações para as quais orienta o ato de educar, é simplesmente um homem instruído na caserna, um homem em sua incompletude. Está anos-luz distante do que o atualmente combatido Paulo Freire nos diz a respeito de ser educado: educar-se é se humanizar e se constituir num que-fazer social-político-antropológico-ético. 

 

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Dai a necessidade de escolas que possam instruir e educar. A aquisição de conhecimentos a partir de dada instrução é importante, mas que não se restrinja a conhecimentos técnicos descontextualizados historicamente ou que seja capaz de privar ao educando o processo básico de seu desenvolvimento e relações com os outros e com o mundo. Apenas instruir é individualizar o ser que é naturalmente social, levá-lo a adquirir determinadas competências para as suas intervenções imediatas sobre os objetos da natureza, é tornar egoísta o homem. Educar, ao contrário, é conduzir o educando a assumir papeis preponderantes no processo social.

 

É a educação que permite o desenvolvimento de dimensões importantes ao convívio humano, tais como a ética e determinada concepção elevada de mundo. É pela educação que o homem se humaniza e se socializa e é por meio do processo educacional que vislumbramos as gêneses das ações políticas. Só a educação supera o ser individual, coletivo, egoísta e apequenado. É ela a gênese do ser social, aquele que se une fraternalmente em nome da justiça, igualde e compartilhamento igualitário. 

 

O Capitão-Presidente, coitado, a despeito das boas intenções que possa ter, é refém da instrução sem partido que recebeu. 

 

 

Zacarias Gama é Professor Associado da Uerj. Ex-professor do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas e Formação Humana. Coordenador Geral do Programa Desenvolvimento e Educação – Teotonio dos Santos (ProDEd-TS) e membro do Comitê Gestor do Laboratório de Políticas Públicas (LPP-UERJ).

 


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