A Lava Jato é de fato, a escolinha do professor Raimundo. Mas não diverte.
Quarta-feira, 3 de julho de 2019

A Lava Jato é de fato, a escolinha do professor Raimundo. Mas não diverte.

 

Por Rayane Andrade

 

Durante a sessão que interrogou Sérgio Moro na Câmara dos deputados o presidente fez um pertinente comentário. Disse o deputado paranaense Francisco Francischini (PSL/PR): “parece a escolinha do professor Raimundo isto aqui”. Raciocinemos, de fato, a referência faz total sentido.

 

 

Hoje, em sessão conjunta de três comissões na Câmara Federal, o atual titular do super-ministério da Justiça brasileiro, Sérgio Moro, atravessou longas horas de inquirição a respeito das mensagens comprometedoras divulgadas pelo Intercept Brasil a respeito da Lava Jato. Sob uma condução bastante passapanista do deputado Fernando Francischini (PSL/PR), o herói do panteão bolsonarista foi depenado em água fervente pela oposição ao governo e sucessivamente bajulado aos gritos balbuciantes e declarações de amor de parlamentares da base do Planalto.

 

Pouco explicou, muito grasnou e não respondeu diretamente as questões que lhe foram dirigidas. Insistiu na tese de que não atesta a veracidade das mensagens, mas que se assim o forem, não trazem nada demais. Repetiu o “showzinho de defesa” que performou no Senado Federal duas semanas atrás: não lembro, invasão hacker, Glenn Greenwald é sensacionalista.

 

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Afirmou Moro, apoiado em parcos artigos jurídicos que saíram em sua defesa – um deles onde o próprio autor, Matthew Stephenson, reconhece que não entende como funciona o Direito in terra brasilis – que o balão de ar da #VajaJato está vazio e não há desvio ético de sua conduta nas mensagens reveladas. Acochado sobre a investigação que a Polícia Federal que, segundo o prestigiado O Antagonista, solicitou ao COAF informações sobre as finanças do editor chefe do Intercept, o marreco calou-se.

 

Contudo, o que achei mais interessante na tarde de hoje foi a brilhante síntese que o presidente da sessão fez sobre mais esse episódio de nossa conjuntura atribulada. Disse o deputado paranaense: “parece a escolinha do professor Raimundo isto aqui”. De fato, a referência faz total sentido.
Na atração Global, os debates sobre a política nacional estavam sempre presentes e alguns personagens do humorístico lembram, de maneira não tão engraçada, alguns dos deputados e deputadas da fauna que a extrema direita brasileira produziu. Pelo menos lá, a balbúrdia fazia parte do processo pedagógico do ilustríssimo professor Raimundo, que tanto denunciava o vilipêndio dos salários dos educadores brasileiros.

 

 

Chico Anysio protagonizava a atração onde um dos estudantes, senhor Brasilino Roxo, interpretado por Benvindo Siqueira, é a caricatura do real. O homem fardado, condecorado com medalhas, que ama o Brasil acima de tudo e que a plenos pulmões tinha como bordão: “O que? No meu país? Só se for na França!” sintetiza muito do que se passa no Brasil pós-golpe.

 

Aos famintos nas ruas, Brasilino Roxo afirmava que melhor era ser pobre, pois nas escrituras restava explícito que era mais fácil um camelo passar por uma agulha, do que um rico entrar nos reinos dos céus. Assim, a fome era uma benção.

 

Ainda que se mostrem áudios, selfies de calendário, mensagens de troca de afeto e de “broderagem” entre Moro e “Delanhol” (como diz Lula), o exército de Brasilinos continuará a procurar na falta de lógica o fundamento para sua defesa irresignada do impossível. O que assistimos na tarde de hoje é o império dos fins que justificam meios, de uma barbaridade e de violação aos princípios liberais do direito burguês.

 

O juiz-acusador-político-ministro continua em seu trono frágil, que tem como pernas a ignorância e a confusão desses tempos velozes. A nós, cumpre o papel de abandonar as ilusões com o STF e de uma atuação firme frente as demonstrações da parcialidade do marreco, pois a forma jurídica é própria do Capital.

 

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A atuação política de Moro é a tônica de muitas casas de Justiça desse país, que por onde as portas entram não réus, mas, condenados. O peso do martelo é mais forte para pobres, população negra e mulheres nesse país. E sempre foi ágil na condenação daqueles que se colocam contra a ordem e que tem a potência de desmascarar a sujeira que empoeira as togas.
Luís Inácio segue sequestrado. O marreco vai cozinhando. A classe trabalhadora agoniza.

 

A nós, cumpre o papel de não esmorecer. O barbudo alemão já dizia que a história da humanidade é a história da luta de classes. 
Estamos em guerra. A decisão de que lado você se coloca é que determinará qual lado vencerá.

 

É de fato, a escolinha do professor Raimundo. Mas não diverte.

 

 

Rayane Andrade é advogada e mestranda em Direito Constitucional pela UFRN. Pesquisa sobre raça, gênero e marxismo e suas relações com a democracia e participação política das mulheres.

 


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Quarta-feira, 3 de julho de 2019
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