A manipulação do termo “zeladoria urbana” nos discursos políticos
Quarta-feira, 10 de julho de 2019

A manipulação do termo “zeladoria urbana” nos discursos políticos

 

Por Jana Viscardi

 

Zeladoria implica, justamente, cuidar, zelar, fiscalizar. Na situação apresentada neste texto, no entanto, o termo esconde a face cruel do que são esses “cuidados”. O termo contribui para a manipulação da realidade ao suavizar as ações que podem ser tomadas em seu nome. 

 

 

Na semana passada, eu estava lendo um texto de um linguista chamado John Wilson em que ele discorria sobre os estudos de discursos políticos, como são feitos, as diferentes perspectivas. Lá pelas tantas ele trouxe o exemplo de um outro autor que estudou a linguagem usada para falar sobre armas nucleares e de como essa linguagem acabava por “suavizar” a descrição de tipos de armas nucleares:

 

  1. Arma nuclear estratégica
  2. Arma nuclear tática

 

Embora estejamos falando de armas nucleares, que causam destruição, os termos empregados em 1) e 2) para definí-las não necessariamente deixam claro ao público não-especializado do que é que se está falando em termos de poder de destruição. Há usos diferentes para as bombas nucleares estratégicas e táticas, no entanto, ambas têm, justamente, grande poder de destruição. E isso não está explícito na distinção entre elas através do uso das palavras “tática” e “estratégica”. E essa escolha lexical pode contribuir para a construção da percepção da realidade, quando se está relatando, por exemplo, o uso de armas nucleares..

 

Mas por que é que estamos falando de armas nucleares? Pois bem. Também na semana passada, eu estava passeando pelo Twitter quando li uma notícia compartilhada por uma amiga que dava conta de uma ação de zeladoria urbana da prefeitura de São Paulo. A tal ação tomou os pertences de um morador de rua que havia inclusive restaurado a praça onde vivia, abandonada até então pelo poder público.

 

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A prefeitura de São Paulo, respondendo à matéria, disse que são conduzidas ações de zeladoria urbana todos os dias, mas que, nelas, os pertences dos moradores não podem ser levados,  a não ser que caracterizem estabelecimento permanente do indivíduo em um local público.

 

Temos aqui dois problemas: primeiro, é vedada a retirada de objetos pessoais de um indivíduo, mas quando caracterizam permanência, podem ser retirados. O que significa permanência? Um cobertor implica permanência? Quem define o que vai e o que fica? (já sabemos a resposta a essa pergunta, não é?). Em meio a tantas dúvidas, vale lembrar que essa ação foi conduzida logo após um dos dias mais frios do ano na cidade de São Paulo.

 

O segundo problema, no qual nos concentramos aqui, é o emprego do termo “zeladoria urbana”, que parece implicar a condução de ações de cuidado com a cidade. Zeladoria implica, justamente, cuidar, zelar, fiscalizar. Na situação apresentada neste texto, no entanto, o termo esconde a face cruel do que são esses “cuidados”. O termo contribui para a manipulação da realidade ao suavizar as ações que podem ser tomadas em seu nome. 

 

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Este não é, de longe, o primeiro caso. Jatos de água, tomada de pertences, expulsão de indivíduos de determinados espaços, todas essas são ações de “zeladoria urbana”. A pergunta que devemos nos fazer é: que cidade é essa em que vivemos que supostamente preza pela zeladoria urbana, mas ignora os indivíduos que nela vivem? (há, que pergunta ingênua, não?). Alexandre Martinez, não a prefeitura de São Paulo, foi o indivíduo que restaurou a praça. A prefeitura, em contrapartida, tira dele e de seus colegas seus pertences – inclusive objetos que vinham sendo usados para revitalização da praça – para, supostamente, cuidar da praça da qual não vinha cuidando até então. Observam o contrassenso?

 

Talvez de modo ainda mais grave do que no caso das palavras usadas na especificação das armas nucleares, que abrem o texto, o termo “zeladoria urbana” não representa, sequer de maneira distante, o que essas ações da prefeitura podem significar. Um zelador é o indivíduo que zela, cuida. Mas a zeladoria urbana deixa de ter esse viés quando desconsidera a humanidade dos indivíduos que vivem na rua e tira deles seus pertences em pró do suposto “cuidado” com a cidade. Que zeladoria é essa que se dedica a buscar, em um dia de tanto frio, roupas e cobertores de indivíduos que não têm onde viver? A que tipo de cuidado o serviço de zeladoria da prefeitura se dedica? A quais interesses se destina? Essas são apenas algumas das perguntas que devemos fazer quando o termo “zeladoria urbana” aparecer nos jornais.

 

Jana Viscardi é doutora em Linguística pela UNICAMP, com passagem pela UniFreiburg, na Alemanha. Professora e palestrante, faz vídeos semanais sobre linguagem e comunicação (e otras cositas más) no canal do Youtube que leva seu nome.

 

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Quarta-feira, 10 de julho de 2019
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