Mais de 150 ativistas italianos correm o risco de serem condenados por salvarem refugiados
Quinta-feira, 11 de julho de 2019

Mais de 150 ativistas italianos correm o risco de serem condenados por salvarem refugiados

 

Por Mauro Donato

 

A Justiça italiana conhecida como rigorosa com regimes e governantes ditatoriais, também têm perseguido e levado à prisão ativistas que socorrem refugiados que estejam à deriva no mar.

 

 

A Justiça italiana condenou nesta semana, por homicídio, vinte e quatro agentes da Operação Condor. As penas foram de prisão perpétua para todos. Entre os condenados estão o ex-presidente peruano Francisco Morales Bermúdez, o ex-ministro boliviano Luis Arce Gómez e o ex-ministro uruguaio Juan Carlos Blanco.

 

A Operação Condor foi conduzida por forças militares conjuntas durante as ditaduras de Argentina, Brasil, Uruguai, Chile, Paraguai, Peru e Bolívia. O escopo: matar opositores dos regimes autoritaristas. Algumas das vítimas foram militantes nascidos na Itália, por isso processos foram lá instaurados por seus parentes. Depois de muitos anos (e dezenas de audiências), as sentenças foram promulgadas.

 

Lembrando, a Operação Condor ocorreu há quase cinco décadas.

 

Pois bem, a mesma Justiça italiana, que pela notícia acima poderia ser vista como rigorosa com regimes e governantes ditatoriais, tem perseguido e levado à prisão ativistas que socorrem refugiados que estejam à deriva no mar. Traduzindo: tem criminalizado ações humanitárias. Dá para entender?

 

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O caso mais famoso foi o da alemã Carola Rackete, detida pela polícia de Matteo Salvini por resgatar 40 migrantes e desembarcar em solo italiano com eles. Mas a realidade é que existem muitos outros ativistas perseguidos, processados e em risco de pegarem até 20 anos de prisão por atuarem no salvamento de náufragos.

 

Já são mais de 150 ativistas investigados e/ou processados por agirem com empatia e solidariedade com pessoas fugidas de países em guerra. Como isso não poderia ser condenado em lugar nenhum do planeta, as acusações são de “cumplicidade de tráfico humano” na maioria das vezes.

 

Como compreender isso? Por que essa rigidez com atrocidades do passado e essa conivência com atrocidades similares do presente? É mais fácil condenar autoridades já ejetadas do poder, velhos caquéticos ou fora do alcance da exequibilidade das penas do que os comandantes em exercício?

 

Como um delito precisa esperar quase meio século para receber sua sentença? “A Justiça tarda, mas não falha”. Justiça que tarda, já é falha. Ela não pode estar com a visão embaçada pelo cotidiano e demonstrar-se apta para julgar somente depois que a poeira não apenas baixar, mas calcificar.

 

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A Justiça traz em seu âmago a responsabilidade de observância no respeito à igualdade dentro das normas. Não deveria nunca ser subserviente ao poder de plantão. Para isso não precisaria ter uma única linha legislativa escrita.

 

A história da humanidade está repleta de casos em que a Justiça condenou cidadãos que afrontavam o poder vigente, mesmo que eles estivessem dizendo que era a Terra que girava em torno do Sol e não o contrário.

 

Desde Galileu Galilei a venda sobre os olhos da Justiça tem uma função diversa da pretendida em sua simbologia. Mais parece um acessório covarde que só é erguido para melhor enxergar os fatos depois passadas muitas décadas. Isso pode ter qualquer nome, menos Justiça, “va bene”?

 

 

Mauro Donato é Jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo

 


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