“Primeira vez com um negão não dói” diz promotor para a defensora durante um Júri na Bahia
Sexta-feira, 12 de julho de 2019

“Primeira vez com um negão não dói” diz promotor para a defensora durante um Júri na Bahia

 

Por Flávia Albaine, defensora pública

 

No início do mês de julho a comunidade jurídica assistiu, estarrecida, a conduta do promotor de justiça Ariomar José Figueiredo da Silva. 

 

 

Durante uma sessão plenária do Tribunal do Júri no interior da Bahia, o referido promotor se dirigiu à defensora pública Fernanda Nunes Morais da Silva dizendo que ela ficasse calma porque a “primeira vez com um negão não dói”. O episódio lamentável mostrou, mais uma vez, como as mulheres ainda são vítimas de machismo nos diversos segmentos de suas vidas – inclusive no exercício de suas profissões –  onde, muitas vezes, sofrem constrangimentos, coações, ridicularizações de cunho sexual, piadas baseadas nos ultrapassados pensamentos do patriarcado, dentre outras.

 

A Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos, assim como diversas outras entidades, demonstraram publicamente o seu repúdio diante do ocorrido, já que é inadmissível que tenhamos práticas misóginas e sexistas dentro e fora das relações de trabalho.

 

O constrangimento não doeu apenas na Fernanda. O constrangimento doeu em todas nós que ainda enfrentamos o machismo, independentemente da classe social que ocupamos. E que muitas vezes somos surpreendidas com condutas que nos humilham vindas de pessoas que deveriam exatamente nos proteger e lutar para garantir a nossa dignidade. 

 

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Queremos apenas existir e sermos respeitadas nos diversos segmentos de nossas vidas. Mas a realidade cruel nos mostra que involuntariamente do que venhamos a fazer e da forma que venhamos a escolher para existirmos, nós seremos julgadas e até mesmo desrespeitadas. Muitas vezes pagamos um preço doloroso para sermos autênticas, para não fingirmos diante de uma sociedade hipócrita, para sermos simplesmente quem nós somos. 

 

Se não nos casamos, somos julgadas por pensamentos do patriarcado de que toda mulher deve se casar. Se optamos pelo matrimônio, mas não pelos filhos, igualmente somos julgadas, já que para alguns a mulher só se torna plena com a maternidade. Se a nossa escolha for por ser mãe, mesmo sem estarmos num relacionamento afetivo, vem o estranhamento diante do fato, esquecendo-se de que mãe é mãe independentemente de ser solteira ou casada. Se desejamos uma vida sexual ativa e prazerosa, logo somos vistas como vulgares, já que isso não é conduta de “moça de família”.

 

Eu mesma já sofri machismo quando sai do Rio de Janeiro para trabalhar como Defensora Pública no interior de Rondônia. Pelo fato de não expor a minha vida afetiva e de ser solteira, ouvi comentários de que eu seria lésbica, pois não era possível uma mulher bem sucedida não ter um namorado ou um esposo. E por qual motivo todas as mulheres têm que ter namorados ou esposos? Uma mulher não pode simplesmente ser solteira e ser feliz assim? E ainda que eu fosse lésbica, qual é o problema disso? Será que as pessoas estão mais interessadas na minha vida afetiva do que naquilo que eu posso oferecer como profissional e como pessoa? 

 

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O que mais querem de nós além de dominarem os nossos corpos com modelos estereotipados de beleza, fora de nos imporem padrões de comportamentos advindos do patriarcado, assim como de nos fazerem provar constantemente que temos a mesma capacidade profissional dos homens, além de nos culparem quando somos vítimas de algum tipo de constrangimento sexual, para além de que nos entristecerem diante dos índices alarmantes que o Brasil possui de violência (física e psicológica) contra a mulher, sem contarmos por nos julgarem por qualquer escolha que venhamos a fazer? 

 

Doeu na Fernanda. Doeu em mim. Doeu em todas as mulheres que sofrem humilhações e violências pelo simples fato de serem mulheres. Pedimos socorro. Pedimos paz. Queremos apenas sermos livres. Nós somos demais, nos deixem viver isso. Será que é pedir demais? 

 

 

Flávia Albaine Bacharel em Direito pela UFRJ (2008), é mestranda na Universidade Federal de RO e especialista em Direito Privado pela UERJ. Atualmente é Defensora Pública do Estado de RO, colunista de educação em direitos da Revista Cenário Minas, membro integrante da Comissão de Pessoas com Deficiência e Comissão dos Direitos da Mulher da Associação Nacional de Defensoras e Defensores Públicos, e criadora do Projeto Juntos Pela Inclusão Social.

 


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Sexta-feira, 12 de julho de 2019
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