18 de julho: Dia Internacional Nelson Mandela também é dia de Direitos Humanos
Quinta-feira, 18 de julho de 2019

18 de julho: Dia Internacional Nelson Mandela também é dia de Direitos Humanos

Imagem: reprodução

 

Por Ricardo Corrêa

 

Arrisco-me a dizer que Nelson Mandela foi uma quimera que passou em nossas vidas deixando lições de resistência, perseverança e humanidade. Um homem que sacrificou a própria existência em busca de justiça onde a segregação racial vitimava milhões de sul-africanos negros.

 

 

Em reconhecimento da sua contribuição, a Assembleia Geral da ONU, em 2009, declarou o dia 18 de julho como Dia Internacional Nelson Mandela. Portanto, somos convocados a rememorar a experiência desse herói, sem perdermos de vista que qualquer espaço é insuficiente para descrever sua extensa trajetória. 

 

Nelson Rolihlahla Mandela, apelidado Madiba, nasceu em 18 de julho de 1918, na aldeia de Mvezo no Transkei, África do Sul. Ainda muito jovem presenciou uma doença pulmonar que levou o pai à morte. Em seguida, a mãe o entregou a um tutor para que cuidasse da sua educação, conforme desejo expressado em outros tempos pelo falecido marido. No ano de 1939, Mandela conseguiu uma bolsa de estudos para cursar Direito na Universidade de Fort Hare, situada em Johanesburgo. Considerada excelência no ensino, esta instituição atendia a minúscula classe média negra da África do Sul, e devido às injustiças que presenciou, nesta fase de estudante, Madiba resolveu assumir a luta em favor do povo negro. Entrou para o CNA – Conselho Nacional Africano, organização não combativa que centralizava as atividades em formulação de petições, mas algumas questões políticas externas e internas conformaram a mudança de atuação do CNA: a escolha de Mandela para a executiva e a vitória do Partido Nacional Purificado, em 1948. A África do Sul não seria mais a mesma nessa convergência temporal de situações. Em 1951, Mandela se transforma no primeiro advogado negro de Johanesburgo.

 

Leia também:

CNJ publica a tradução das Regras de Mandela para o tratamento de presosResultado de imagem para regras de mandela

 

O Partido Nacional Purificado tinha como plano de governo a instauração do apartheid: sistema que definia a raça branca como superior e validava a segregação racial a partir de leis. A atuação do governo passou a ter um caráter repressor onde qualquer manifestação era respondida com brutal violência.  As atividades do CNA também começaram a ser mais aguerridas sob a liderança de Mandela. Em 1956, foram colocados no banco dos réus 156 manifestantes sob alegação de que faziam atividades contra o governo. Este episódio ficou conhecido como Julgamento por Traição e demorou cinco anos para a absolvição dos acusados, incluindo Mandela. A política repressora alcançou o ápice no chamado Massacre de Shaperville, momento em que 69 manifestantes que lutavam contra a segregação foram assassinados e 186 ficaram feridos. Com essa atmosfera repressora, Mandela não viu outra saída que não fosse assumir a luta armada; partiu para a ilegalidade lançando mão de disfarces, reuniões clandestinas e nomes fictícios. O objetivo era a organização de protestos de massa tencionando a derrubada das leis segregacionistas.

 

Do cárcere ao triunfo

Mandela foi preso, em 5 de agosto de 1962, acusado de incitar o povo à greve, e por sair do país sem passaporte válido. Ainda preso, sofreu acusações de sabotagem e conspiração junto com outros líderes da resistência armada. Conhecida como Julgamento de Rivonia, em 1964, Madiba fez um discurso memorável em sua própria defesa, e a conclusão demonstra qual o limite colocado para alcançar a libertação do povo.

 

“Tenho-me dedicado a esta luta do povo africano. Combato a dominação branca e combato a dominação negra. Alimento o ideal de uma sociedade livre e democrática, onde todos vivam juntos em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e que espero alcançar. Mas, se for necessário, é um ideal pelo qual estou disposto a morrer.”

 

Leia também:

Racismo: “Um policial não tem o direito de ser ignorante sobre certos assuntos”

Racismo: “Um policial não tem o direito de ser ignorante sobre certos assuntos”

 

A prisão perpétua, recebida como sentença nesse julgamento, não foi levada à cabo. O prisioneiro número 46664 na Robben Island, demonstrou muito mais força do que seus algozes poderiam imaginar. No cárcere, apesar de sujeito a tamanho sofrimento, promoveu uma visão mais humana e organizou movimentos em busca de melhores condições aos presos. Tão logo nos primeiros dias questionou o porquê dos uniformes dos africanos serem diferentes dos outros presos, na sua concepção caracterizava imensa falta de respeito. Durante esse tempo, aconteciam diversos protestos reivindicando a liberdade de Mandela, deixando o governo constrangido e encurralado no que se refere às negociações para contenção da convulsão nas ruas da África do Sul. Winnie Madikizela, ativista pelo fim da segregação racial e casada com Madiba, no período de 1958 a 1996, também foi fundamental para manter viva a memória do marido. 

 

Nelson Mandela recebeu proposta de liberdade, em 1985, pelo presidente Pieter Willen Botha, caso se comprometesse a renunciar à luta armada. Sem hesitação, recusou. Mesmo assim, em 11 de fevereiro de 1990, foi colocado em liberdade e, meses depois, as últimas leis do apartheid foram abolidas. Mandela recebeu o prêmio Nobel da Paz (1993) e foi eleito presidente da África do Sul (1997).  No dia 5 de dezembro de 2013, aos 95 anos, faleceu. Considero que uma das maiores vitórias de Madiba não se resume em prêmios e cargos, mas conseguir sair do cárcere despido de ódio, e, além disso, ter derrotado a segregação racial. Precisamos reconhecer que um homem ao colocar a vida em nome de uma causa para salvar milhões de seres humanos tem a estatura moral perdida no infinito.

 

 

Ricardo Corrêa é professor e especialista em Educação Superior

 


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] BOEHMER, Elleke. Mandela: O homem, a história e o mito. Tradução: Denise Bottmann. Porto Alegre, RS: L&PM, 2014.

[2] BORGES, Pedro. Massacre de Shaperville: 69 mortos e 186 feridos. Disponível em: <https://www.almapreta.com/editorias/mama-africa/massacre-de-shaper

ville-69-mortos-e-186-feridos>. Acesso em 15 jul.2019

[3] MANDELA, Nelson. Autobiografia de Nelson Mandela – Um longo caminho para a liberdade. Lisboa: Planeta, 2009.

Quinta-feira, 18 de julho de 2019
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]