O caso do menino Rhuan e a manipulação da comoção pública
Terça-feira, 23 de julho de 2019

O caso do menino Rhuan e a manipulação da comoção pública

Imagem: divulgação

 

Por Alberto Luis Araújo Silva Filho

 

Em um país onde diariamente o noticiário policial está cheio de crimes brutais, porque a direita tenta criar comoção em torno de uma história de horror específica?

 

 

Na live presidencial oficial, que já está se tornando tradicional, do dia 11/07, o presidente Jair Bolsonaro reiterou que uma de suas missões governamentais, expressa desde o discurso de posse e mesmo nas promessas de campanha, éabortar de uma vez por todas a ideologia de gênero que supostamente teria como consequência nefasta a tentativa de transformação de meninos em meninas e de meninas em meninos, causando, por conseguinte, a dissolução de pilares fundamentais da família tal qual tradicionalmente a concebemos. Para exacerbar sua crítica ao ideário que questiona a generificação vigente, Bolsonaro citou o caso do menino Rhuan que chocou não apenas o Distrito Federal mas todos aqueles que de fora dele puderam acompanhar as notícias acerca dos requintes de crueldade que foram aplicados no assassinato do garoto Rhuan Maycon da Silva Castro, morto na madrugada do dia 31 de maio de 2019 na cidade-satélite de Samambaia. Mas a menção do presidente em relação a esse crime não foi algo isolado entre seus pares. 

 

Em grande parte do espectro da direita – cobrindo ai MBL, Novo e PSL – o menino Rhuan se tornou uma espécie de mártir. A ministra Damares chegou a mostrar uma camisa em homenagem a ele em um evento no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Três deputados do PSL (Bia Kicis, Carla Zambelli e Eduardo Bolsonaro) apresentaram PL com seu nome que prevê aumento da permanência de pessoas na prisão em até 50 anos, contra os atuais 30 anos. Já alguns dias após o corpo do garoto de nove anos ser encontrado repartido em duas mochilas infantis e uma mala nas proximidades de um campo de futebol (graças a denúncia dos que ali frequentavam), o alerta de que a mídia estaria negligenciando a história de horror tomou conta das vozes conservadoras. Ao contrário do afirmado, entretanto, um dos principais jornais do país já estava levantando todas as informações do caso desde que esse veio a tona. O que se poderia dizer, no máximo, é que a cobertura tinha uma densidade muito menor do que os mais indignados esperavam. Nada como ocorreu com o caso da menina Nardoni em 2008, por exemplo, em que a imprensa explorou exaustivamente a imagem dos criminosos e da vítima. Entretanto, há alguns elementos muito particulares na execução de Rhuan que fazem com que seu assassinato seja lido como resultado de “ideologias nefastas” (sic). 

 

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Primeiramente, quem perpetrou o crime foi um casal de lésbicas: Rosana Auri da Silva Cândido (27), a mãe do menino, e Kacyla Pryscyla Santiago Damasceno (28), ambas advindas do Acre e residentes no DF. É inegável que boa parte da comoção da direita começa com esse aspecto. A interpretação de uma parcela desse campo (ainda que muitas vezes não dita dessa forma) é de que os meios de comunicação brasileiros, liberais quando o assunto são os costumes sociais, não gostariam de associar a pauta LGBT a um crime dessa magnitude. Afinal, por muito tempo houve uma luta para provar que casais do mesmo sexo tem as mesmas condições que qualquer casal heterossexual para criar crianças saudáveis e felizes. Um acontecimento como o de Rhuan desmontaria essa bandeira do “politicamente correto”, mostrando o quão perigosa pode ser a convivência de um menor de idade com pares homossexuais. Toda essa linha de raciocínio não passa, claramente, de um absurdo, e demonstra, cabalmente, o forte teor homofóbico da comoção conservadora. É a velha máxima de que se alguém de uma minoria comete uma atrocidade, o ônus tem que ser repartido por toda aquela minoria. Associação que nunca seria feita se o criminoso fosse homem, branco e heterossexual. 

 

É preciso dizer o óbvio: Rosana e Kacyla não são um simples casal de lésbicas. São um casal de criminosas frias que fugiram com um garoto e uma garota sem antes avisarem aos pais dos mesmos e às respectivas famílias – atitude flagrantemente ilegal já que o ex-marido de Rosana bem como o ex-marido de Kacyla já haviam conseguido a guarda de seus filhos na justiça. Testemunha-chave do caso, a menina de oito anos (filha de Kacyla) também residia na casa da Samambaia e assistiu a execução de Rhuan. Dessa forma, foi considerada crucial para desvendar todo o enredo[3]. Sem avisar a ninguém, as duas mulheres passaram por vários estados em sua escapada do Acre; saindo do Norte, passaram pelo Nordeste (Sergipe) até chegar ao Centro-Oeste (Goiás) e finalmente a Brasília em uma tentativa de, mudando de endereço durante cinco anos, despistar a todos que já as procuravam, angustiadamente. Qualquer distinção a ser feita com relação a ambas deve ser realizada levando em conta critérios éticos e morais e não de sexualidade como implicitamente estava posto em muitos dos indignados. O que pouco se menciona é que várias vezes Rosana alegou motivos religiosos para a sua parceria macabra com Kacyla. Na delegacia, a mãe do menino chegou a se comparar com o Deus do Velho Testamento: seria ela uma espécie de justiceira. E mais: as duas se conheceram dentro de uma igreja evangélica em Rio Branco.

 

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Em segundo lugar, as agressões pareciam conter certa dose de misandria[5]. Rhuan foi emasculado (dois anos antes da sua morte), esfaqueado, decepado, esquartejado e ainda teve a sua pele arrancada. Logo depois, as criminosas ainda pretendiam fritar algumas partes do corpo e cozer outras, mas capitularam e se livraram dessas partes de outras formas. Com a filha de Kacyla aparentemente não houveram violências físicas dessa magnitude, embora essa tenha sido abusada sexualmente e recebido lesões corporais. O menino, segundo afirmou Rosana em depoimento, lembrava o pai que, também segundo ela, a agredia constantemente. Além disso, Rhuan era desobediente e tentava partir pra cima dela em várias situações. Matá-lo seria uma espécie de “corretivo”. Dessa forma, por ter sido vítima de violência de gênero, Rosana entendeu que seria coerente executar outro homem. Uma miniatura de homem nesse caso. Aqui, outra agenda importantíssima do campo progressista pode ser mobilizada de maneira desonesta pela direita na sua comoção manipulada: a agenda feminista, que no entendimento superficial de alguns conservadores, se constitui antes e, sobretudo, como uma agenda de ódio ao homem e não de luta por igualdade de direitos em uma sociedade desigual. Ademais, “ideologia de gênero” e feminismo fazem parte do mesmo universo conceitual se formos partir do imaginário bolsonarista.

 

Em terceiro lugar, houve o fato que se passou bem antes da execução – já mencionado acima – e que despertou grande polêmica na avaliação realizada pelos peritos. Rosana e Kacyla produziram uma espécie de cirurgia caseira de mudança de sexo no menino no quintal de casa. Esse acontecimento é nevrálgico para compreender porque a direita resolveu se apropriar da imagem do garoto. Em um dos depoimentos noticiados pela imprensa, Rosana conta que Rhuan já havia lhe pedido para se tornar uma garota (um das narrativas que forma as histórias de crianças trans). Sua mãe entendeu que o melhor a fazer com esse suposto pedido era promover uma transição com os próprios punhos. Ela e a companheira, então, cortaram a genitália do menino e criaram uma espécie de vagina com a pele no local, o que o fez passar por muitos momentos de dor naquele momento e em todo o período seguinte no qual urinar se tornou um ato sacrificial. Obviamente se tratava de mais uma maldade espiritualmente informada (como reiterou Rosana nos seus depoimentos contraditórios) e não de algo que estivesse baseado em conhecimento sobre teorias de gênero como malandramente a narrativa da direita faz supor. Não se pode sequer aqui dizer que foi o charlatanismo religioso que tanto coopta mentes a fonte de responsabilidade: hipótese mais forte para quem analisar os fatos com calma já que as duas eram fervorosamente religiosas. Trata-se, isso sim, de uma psicopatia ou outro distúrbio ainda a ser analisado, até mesmo pela frieza e tranquilidade das assassinas durante as confissões.

 

Rosana e Kacyla foram condenadas a crimes que juntos somam até 57 anos de prisão. O enredo de uma trama que mais parece um filme de horror envolve vários dos elementos essenciais para a construção de um discurso conservador demagógico que tem como fim último culpar a esquerda e as suas teses críticas sobre o funcionamento de uma sociedade patriarcal pela produção de mentes perturbadas. A grande questão é que o caso do menino Rhuan é um episódio deprimente que tem como figura central uma criança que nada fez para merecer seu destino. Segmentos conservadores em meio a guerra cultural em curso no país viram aqui a oportunidade perfeita para promover sua agenda (essa sim verdadeiramente ideológica no que tange aos papeis de gênero). 

 

Infelizmente no caso da travesti Dandara em 2017 ou mesmo no caso Marielle em 2018 faltou a mesma revolta dos humanistas momentâneos na denúncia de tantas crueldades vis praticadas contra sujeitos de direito. Naquela época houve displicência e mesmo comemorações por parte de quem diz hoje proteger a vida e a infância. Não se pode haver coerência naqueles e naquelas que acham que certas vidas valem menos, ao mesmo tempo em que afirmam que o caso Rhuan é um episódio de violação dos direitos humanos. Só há condições de verdadeiramente prevenir e eliminar violências como essa em uma sociedade na qual conselhos tutelares, delegacias, escolas e outros equipamentos públicos sejam fortalecidos e não subfinanciados pelo projeto neoliberal que os mesmos indignados de plantão defendem de maneira tão terrível. A falha dessas instituições durante um longo tempo explica em parte porque se chegou a tal  tragédia. Não é com argumentos desonestos que se pode falar em momentos de tristeza.

 

 

Alberto Luis Araújo Silva Filho é mestrando em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB) e Bacharel em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI)

 


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Notas:

[1]”Bolsonaro cita caso Rhuan e diz que vai abortar “ideologia de gênero” em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2019/07/11/interna_politica,770145/bolsonaro-cita-caso-rhuan-e-diz-que-vai-abortar-ideologia-de-genero.shtml

[2]Primeira notícia do caso no portal do jornal Correio Braziliense: “Mãe e companheira esquartejam menino de 9 anos em Samambaia” em: https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2019/06/01/interna_cidadesdf,759372/crianca-de-9-anos-e-esquartejada-em-samambaia.shtml

[3]Além disso, a menina foi obrigada a manter relações sexuais com Rhuan.

[4]“Polícia: Mulher que matou e esquartejou filho de 9 anos disse que o odiava” em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2019/06/12/policia-mulher-que-matou-e-esquartejou-filho-de-9-anos-disse-que-o-odiava.htm

[5]Ódio a figura do homem ou a figura masculina

[6]“Esquartejado pela mãe, Rhuan teve pênis cortado um ano antes de morrer” em: https://istoe.com.br/esquartejado-pela-mae-rhuan-teve-penis-cortado-ha-um-ano/

[7]“Caso Rhuan: existe algo capaz de explicar tanta crueldade?” em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/caso-rhuan-existe-algo-capaz-de-explicar-tanta-crueldade/ 

Terça-feira, 23 de julho de 2019
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