O Rap como ferramenta de libertação e culto à ancestralidade
Quarta-feira, 24 de julho de 2019

O Rap como ferramenta de libertação e culto à ancestralidade

Imagem: AfroX e Dexter | Arte: Justificando

 

Por Renan Almeida

 

O rap, assim como o jongo e a capoeira, é uma ferramenta contemporânea de luta, resistência, libertação e ancestralidade. Movimentos estes os quais sua cultura fez negros resistirem.

 

A escravidão no Brasil foi longa, durou mais de 300 anos. Foi marcada por uma sociedade que não considerava o negro como ser humano, condenando-o à situação de escravizado. Mesmo quando abolida de 1888, a escravidão deixou marcas profundas em nossa sociedade, marcas estas que perduraram no tempo. Essa dominação racial gerou resistência, em razão da dívida histórica e disparidades sociais, culturais e econômicas provenientes do período. E dessa resistência, surgiram diversas expressões que se tornaram ferramentas de libertação.

 

O jongo, por exemplo, foi uma dessas ferramentas. O jongo foi trazido ao Brasil através dos escravos africanos de origem bantu, vindos do Congo e Angola. Em um terreiro, acendiam uma fogueira, benzia-se os tambores sagrados, organizavam-se em roda e a negra mais idosa improvisava um canto de abertura, onde todos os outros escravos respondiam cantando e batendo palmas. Tornou-se ferramenta de libertação quando muitos jongueiros trocavam os sentidos das palavras, criando um novo vocabulário de mensagens secretas em que protestavam contra a escravidão, passavam informações, zombavam dos patrões, combinavam festas e, acima de tudo, fugas.

 

Outro exemplo é a capoeira. Capoeira foi uma luta criada por negros trazidos da África, sendo a maior parte deles da Angola. Quando chegavam ao Brasil eram alojados em senzalas, sendo escravizados e submetidos a diversos tipos de violência pelos senhores do engenho. Sendo assim, para se defenderem dos capitães do mato (aqueles que tinham como atribuição capturar escravos fugitivos), começaram a desenvolver a capoeira. Como eram proibidos de praticar qualquer tipo de luta, a música foi usada como maneira de disfarce, sendo assim, seria vista como uma dança. Além disso, acredita-se que a capoeira tinha como objetivo também aliviar o estresse do trabalho e manter as tradições africanas.

 

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Capoeira e Jongo. Ambas expressões culturais que traziam em si o objetivo da libertação. Ambas expressões culturais que traziam em si a música. E sendo assim, não temos como não traçar um comparativo com o rap e o movimento hip hop. Desde sua criação, o rap cada vez mais se apresenta como importante ferramenta de libertação, resistindo e lutando por igualdade. Não a toa, na década de 70, foi utilizado como ferramenta de denúncia da desigualdade social e violência policial nos bairros mais pobres de Nova Iorque. MCs, DJs, b-boys, grafiteiros e integrantes do movimento hip hop, utilizaram aquele momento para dizer: “Chega! Não aceitaremos mais o que fazem conosco”.

 

Esse movimento libertou mentes de pessoas negras e pobres, dando novas perspectivas e um novo lugar para olhar. Artistas como Zulu Nation, Tupac, Notorious B.I.G e Snoop Dog encontraram no rap (arte que há pouco tempo não existia) a oportunidade de contar ao mundo o que viviam e de mostrar que chegou a hora de libertar-se dessa realidade de opressão.

 

No Brasil, o rap nacional demorou a ser aceito. Na década de 80 o gênero era considerado violento, e de fato era, tendo em vista que refletia o que ocorria nas periferias espalhadas pelo Brasil. Sabemos que não era nenhum conto de fadas. A violência policial vinha forte.

 

Já na década de 90, o rap nacional começa a se popularizar com a chegada de Thaíde e DJ Hum, Racionais Mc’s, Detentos do Rap, Xis e Dentinho, Planet Hemp, Gabriel O Pensador e muitos outros. Agora, para além do próprio discurso do “rap libertar mentes”, ele começa a libertar os corpos dos que o utilizam. Pois, além do rap ganhar espaço, neste momento, ele começa também a ganhar dinheiro. Dinheiro este que faz com que MCs e DJs comecem a se libertar da pobreza e miséria que lhes foi imposta como herança da escravidão. Dinheiro este, que nos fez sonhar com a possibilidade da libertação ser ainda maior, ser para todos os negros, pobres e periféricos. E, além do dinheiro, o rap torna-se algo muito importante pra crianças e jovens: torna-se referência.

 

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Como não citar Sabotage?  O rapper de nome Mauro Mateus dos Santos Filho, assassinado em 2003, que antes do rap já tinha sido traficante, mas que no rap usava suas letras para alertar os jovens quanto ao abuso de drogas na periferia, onde a informação é limitada. Sabotage, pouco antes de se tornar um nome gigante no rap nacional, mal conseguia trazer comida para dentro de sua casa e alimentar seus filhos, no entanto, foi na música que encontrou sua libertação da miséria.

 

Quer exemplo maior de rap como ferramenta de libertação do que o grupo 509-E formado por Afro-X e Dexter? Os dois MCs se conheceram na penitenciária do Carandiru, na cela “509-E”, que leva o nome do grupo. Se tornaram um dos maiores grupos de rap de São Paulo, debatendo em suas próprias letras o poder transformador do estilo: “O R-A-P te deixa bem mais louco. Informação, autovalorização, pretos de periferia em ascensão. Alô, alô força da favela” (Hora H, 509-E).

 

O rap, assim como o jongo e a capoeira, é uma ferramenta contemporânea de luta, resistência, libertação e ancestralidade. Movimentos estes os quais sua cultura fez negros resistirem. Hoje o rap se mostra não apenas como libertação de corpos e mentes, mas como libertação social. Hoje já não basta libertar apenas os integrantes do movimento hip hop, é necessário libertar a sociedade como um todo. Libertar do racismo, da escravidão contemporânea, da desigualdade e da miséria.

 

E assim como o jongo e capoeira venceram, o rap vencerá. Independente do momento político, estas são fortes ferramentas de luta. Seja ontem, seja hoje ou amanhã… Resistiremos.

 

 

Renan Almeida é músico, produtor audiovisual e militante do movimento hip hop.

 


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