Tereza de Benguela: por nós, por todas nós, pelo bem viver!
Quarta-feira, 24 de julho de 2019

Tereza de Benguela: por nós, por todas nós, pelo bem viver!

Arte: Justificando

 

Coluna Féministas

Por Simony dos Anjos

 

“No seio de Mato Grosso, a festança começava

Com o parlamento, a rainha negra governava

Índios, caboclos e mestiços, numa civilização

O sangue latino vem na miscigenação”

 

Os versos acima foram entoados pela escola de samba Unidos do Viradouro, em homenagem à rainha Tereza de Benguela, no ano de 1994. Vinte anos depois, a presidente Dilma, pressionada pelo movimento de mulheres negras, reconheceria o dia 25 de julho como o dia oficial de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Um marco na visibilidade da luta das Mulheres Negras, no Brasil. Para nós, mulheres negras, dia 25 de julho é um dia de luta e resistência! Juntamente com nossas irmãs indígenas, promovemos marchas pelo Brasil, entoando nossos cantos, dançando com nossos corpos e ocupando as ruas de cidades tão racistas e misóginas.

 

Nós somos as que mais  morrem por feminicídio, somos as que mais sofrem violência obstétrica e 70% de nós ocupa os trabalhos mais precarizados do país. Nossos filhos morrem a cada 23 minutos, nossas filhas são as maiores vítimas da prostituição infantil, nossos salários são a metade do salário de uma mulher branca. As mulheres negras estão na base de uma sociedade exploratória e racista.  Desse modo, todo 25 de julho, nós, mulheres negras brasileiras, marchamos com o seguinte lema: por nós, por todas nós e pelo bem viver!

 

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Tendo em vista a proximidade do dia 25 de julho, a coluna féministas traz um pouco da história do Dia Nacional de Tereza de Benguela e do Dia Internacional das Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. Acreditamos que se faz necessário apresentar para todos, parte da história do Brasil apagada pelos escravocratas e que, nesta época obscurantista de Escola Sem Partido, tende a sumir do ensino oficial – mas seguimos na resistência, sem deixar apagar a memória de nossas Ancestrais.

 

De acordo com Emmanuel de Almeida Farias Jr.: 

“O rei [José Piolho] tinha falecido. A rainha, seu nome era Tereza, da nação Benguela, tinha sido escrava do capitão Timóteo Pereira Gomes. Tereza reinava soberana no quilombo, com firmeza e rigor. De acordo com a fonte histórica, a rainha Tereza, governava esse quilombo a modo de parlamento”    

 

O quilombo no qual Rainha Tereza reinou, no século XVIII, se chamava Quariterêre e era localizado Guaporé/Mato Grosso. Segundo o Anal de Vila Bela do ano de 1770, depois que José Piolho morreu:  

A rainha Tereza ordenou que os quilombolas pegassem em armas, para resistir ao ataque. “Alguns de seus súditos assim o fizeram, acudindo à voz e pegando em armas; mas não puderam usar delas pela força que viram contra si” (Anal de Vila Bela do ano de 1770). 

 

Em 1770, o quilombo foi atacado e a rainha Tereza foi capturada. Posta aí em prisão, pá vista de todos aqueles a quem governou naquele reino, lhe diziam estes palavras injuriosas, de forma que, envergonhada, se pôs muda ou, para melhor dizer, amuada. Em poucos dias expirou de pasmo. Morta ela, se lhe cortou a cabeça e se pôs no meio da praça daquele quilombo, em um alto poste, onde ficou para memória e exemplo dos que a vissem (Anal de Vila Bela do ano de 1770.

 

E pela grandeza desta rainha, o movimento de mulheres negras, no Brasil, faz a marcha em memória de Tereza e também, em memória de Dandara, Aqualtune e tantas outras mulheres que abriram caminhos para que chegássemos aqui.

 

O dia da  Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, comemorado no dia 25 de julho, também, é uma data  reconhecida pela ONU, desde 1992. Graças ao trabalho incansável de mulheres que se reuniram em Julho de 1992, na República Dominicana,  no 1º Encontro de Mulheres Negras da América Latina e do Caribe. Momento no qual discutiram a realidade da mulher negra na América Latina e se organizaram internacionalmente, marcando um dia internacional de luta pelas mulheres negras.

 

Temos que ter em mente que nossos passos vêm de longe, que muita gente lutou e tem lutado para abrir espaço para que nós seguíssemos nesta missão, por nossas vidas e por nossas raízes. Por Carolina de Jesus, Conceição Evaristo, Lélia González, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Cidinha da Silva e tantas outras, sem as quais não chegaríamos aqui. A luta é coletiva, e assim que sempre deve ser.

 

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A Marcha de Mulheres Negras/SP, de 2019, tem sido construída sob as seguintes diretrizes: “Sem violência, racismo, discriminação e fome! Com dignidade, educação, trabalho, aposentadoria e saúde!”. Segundo a organização: 

 

voltamos às ruas num ato de enfrentamento às políticas de desmonte dos direitos sociais e em uma conjuntura de graves violações de direitos humanos, que afetam principalmente a nós, mulheres negras[…]

 

Os eixos são uma resposta à precarização dos serviços de assistência e previdência social, e de saúde e educação públicas, que ocorrem nos níveis municipal, estadual e federal. A luta contra o racismo religioso, a lesbotransfobia e o genocídio da juventude negra e periférica permanecem em nossa pauta de reivindicações. 

 

Segundo Juliana Gonçalves, uma das organizadoras: “a Marcha de São Paulo ocorre desde 2016, como legado político da grande Marcha de Mulheres Negras de 2015, em Brasília – que levou mais de 50 mil mulheres à capital do país.” A marcha deste ano contará com a Aula pública sobre o que é Bem Viver, a ser ministrada por  Nilma Bentes (movimento de mulheres negras do Pará e uma das articuladoras da Marcha Nacional e uma das propagadoras do conceito do bem viver). Acontecerão, também, outras atividades com poesia, dança e com a participação Ilú Obá de Min. Como em todas as edições, o movimento de mulheres indígenas foi convidado e estará presente. 

 

A Coluna Féministas reafirma seu compromisso com o combate ao racismo religioso, à lesbotransfobia, à misoginia, opressão de gênero e ao racismo! Nossa fé é política, e é vivida no corpo e pelo corpo! Vidas negras importam! As vidas das mulheres negras importam!

 

Serviço:

Marcha de Mulheres Negras – São Paulo

Data: 25 de julho

Horário: 17h30

Endereço: Concentração na Praça da República/ centro SP

 

Simony dos Anjos é  é graduada em Ciências Sociais (Unifesp), mestranda em Educação (USP) e tem estudado a relação entre antropologia, educação e a diversidade.

 


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