Um olhar sobre o Pixo
Quinta-feira, 25 de julho de 2019

Um olhar sobre o Pixo

Imagem: Divulgação/Filme Pixadores

 

Por Gabriel de Aguiar Tajra e Derik Gibertoni Costa

 

Em meio à “floresta de concreto e aço” germinam diversas subculturas expoentes da expressão urbana, dentre as quais o universo da pixação bem reflete a luta diária pela significação e construção de novos sentidos culturais, sociais e estéticos.

 

 

A sociedade urbana contemporânea, em sua essência, conserva e carrega consigo uma dualidade opositora: se por um lado experimenta uma constante acomodação espacial, isto é, uma aglutinação física de seus indivíduos componentes, por outro sofre de um fenômeno de desintegração social, em que parcela das classes sociais é marginalizada dos centros espaciais de maior valor cultural, social e econômico, bem como do acesso aos meios de manifestação cultural e expressão das identidades coletivas. 

 

Diante de um contexto de diversas alterações tecnológicas, com fluxos constantes e acelerados de capital, bens e informações, em que a rotina do cidadão, como consequência, tornou-se mecânica e condicionada pelo trabalho, não há tempo para identificação do outro: “o Socius [‘social] dá lugar ao solus [‘sozinho’]. Não a multidão, mas sim a solidão caracteriza a constituição social atual”[1].

 

Em sua rotina, cada cidadão, de seu lugar de origem, para o lugar de destino, é ninguém, ou, senão, é tão somente aquilo que o outro pode auferir de sua imagem instantânea: as roupas que usamos, os símbolos dos quais nos apropriamos, ou mesmo os bens que compramos e expomos. Tornamo-nos, ao olhar do outro, aquilo que consumimos.

 

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Assim, e não por acaso, a identidade – entendida aqui como o processo de reconhecimento e construção de significação do ser pela apropriação de um atributo cultural[2] – assume o cerne da atual luta diária por reconhecimento, como resposta a uma socialização centralizadora e excludente, em que os indivíduos buscam identificar-se, reconhecer-se, e fazer-se representar no dia a dia da metrópole.

 

Neste ínterim, em meio à “floresta de concreto e aço”[3], germinam diversas subculturas expoentes da expressão urbana, dentre as quais o universo da pixação bem reflete a luta diária pela significação e construção de novos sentidos culturais, sociais e estéticos, mediante apropriação das superfícies das cidades pela florescência de representações simbólicas, através de signos linguísticos, atinentes à identidades coletivas marginalizadas dos espaços urbanos.

 

Nesse sentido, os grandes centros urbanos se transmutam em ateliês de artes, nos quais os segregados pela concentração do capital apoderam-se de espaços para espelharem seus corpos e serem contemplados por todos os componentes da sociedade, independentemente da posição social, cor ou grau de escolaridade do observador.

 

Contudo, fato é que o pixo, constantemente, passa despercebido por seus espectadores, representando, por conseguinte, um aglomerado de “rabiscos” sem qualquer significação, prejudicial à estética urbana e passível de sanções criminais. Isto porque tanto a linguagem empregada na pixação não compreende um caráter universal – pois as imagens e desenhos, na maioria das vezes, simbolizam algo restrito aos grupos de pixadores –, quanto constituem uma estética agressiva, de repulsa às problemáticas das cidades contemporâneas, razão pela qual é muitas vezes mal compreendida pelos cidadãos.

 

Diferentemente do grafite, que convida o olhar cotidiano pela apresentação de um conteúdo mediado pela cultura popular e pela comunicação em massa, do qual se identifica um elemento comum entre o interlocutor ativo e o espectador, com respectivas sensações associadas à imagem, o pixo não se propõe a construir uma estética potencialmente assimilável e dotada de uma mensagem comum entre pichador e espectador, mas sim direcionar uma expressão de sentido agressiva, de revolta acerca da segregação sócio-espacial.   

 

Em sua origem, na década de 60, a pichação constituiu um movimento de apropriação simbólica do espaço como meio de manifestação política contrária à ditadura militar. Ocorre que, em meados da década de 80, como desdobramento da cultura punk, o foco desta subcultura transmutou sua essência de um ideal conteudista para uma modalidade notadamente estética, firmando-se tal qual o movimento conhecido nos dias atuais, que assumiu a nomenclatura pixo, ao invés de picho. 

 

Em verdade, contemporaneamente importa muito mais ao pixo uma concepção linguística comunitária, em que a própria estética harmoniosa da língua é desconstruída e substituída por um visual agressivo, dotado de um estilo próprio. Estilo este comum, tão somente, aos membros partícipes desta subcultura, que se constrói e reconstrói diariamente pelo constante jogo de estampas de nomes pela cidade.

 

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Segundo o fotógrafo Adriano Choque, a prática da pixação constitui uma comunicação fechada entre pixadores, mas de contato para com a cidade, em que esta se apresenta como um “agente verticalizador das letras”, razão pela qual a escrita segue o fluxo das edificações como um caderno de caligrafia a ser preenchido, em vista dos objetivos desta subcultura: o reconhecimento social, o lazer e a adrenalina, bem como o protesto[4].

 

Na realidade paulistana, centro de uma das principais culturas de pixadores do mundo, o jogo do pixo assume uma verdadeira faceta de disputa de poder entre grupos de pixadores e seus integrantes, especialmente na busca de prestígio e reconhecimento no “mundo do pixo”. 

 

Por conta disto, os pixadores, constantemente, buscam deixar sua marca no maior número de lugares possíveis, sendo que, os locais perigosos e inacessíveis, assim como os topos de edifícios, pontes e de grande vigilância policial, são aqueles que conferem maior popularidade e reconhecimento a estes[5].

 

A pixação representa, dentre inúmeras manifestações, uma apelo de resistência aos padrões impostos pela sociedade, razão pela qual os pixadores, frequentemente, buscam a sensação de liberdade e a adrenalina conferida pela prática da atividade, consubstanciada em ato de protesto que coloca em risco a integridade física, social e mesmo jurídica dos integrantes[6].

 

Entretanto, para além de meramente signos linguísticos estampados pelos muros urbanos, os nomes encobrem e mascaram uma ação corporal fundamental para elaboração do jogo do pixo. A adrenalina e os riscos inclusos no ato de escalada, sob a penumbra da perseguição policial, refletem a conexão entre o nome visível e a vontade de significação do espaço urbano – corporificada e materializada no ato de revolta em infringência às normas impostas – como meio de reconhecimento social dos indivíduos historicamente marginalizados pela organização social e pelo aparato estatal.

 

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O eu aparece ao outro pela originalidade da estética. No entanto, de forma mais elementar, a estética transcende a linguagem e representa aquilo não pode ser dito, mas tão somente exposto[7]. Como figuração do sujeito, o pixo exterioriza, na agressividade da escrita e nos padrões visuais, formas e conceitos próprios, mas capazes de transporem o ato de revolta ao espectador. 

 

Nesta perspectiva, ao se fazer representar por um signo linguístico fruto da ação corporal de manifestação de revolta – encoberta de adrenalina e vivência –, o indivíduo aparece no meio social mediante o movimento estético e cultural do pixo, dando plena afirmação de sua existência no mundo em consonância à conceituação Heideggeriana do termo, que conceitua existência como algo que é expressamente manifestado, elucidado: ela se caracteriza como ek-sistere, movimento para fora, o próprio direcionamento de ser para o mundo”[8]

 

Por conseguinte, ainda que a manifestação visual da pixação não se proponha a ser compreendida ou mesmo a dialogar com grande parte de seus observadores, por certo que cada pichador realça a existência de um grupo historicamente esquecido pela sociedade, mediante o aparecer ao olhar alheio pelos nomes estampados nas superfícies urbanas, fruto da postura em contrariedade às esferas institucionais, que lhe proporcionaram tão somente o esquecimento.

 

Portanto, o suposto “vazio de significado” do pixo contraria as normas clássicas da linguagem, uma vez que sua operação linguística, em síntese, atua pela disjunção de signos, mobilizando um específico “deslize, a quebra, o desengate entre esferas distintas de significação e a invenção de uma particular linguagem urbana”, bem nomeado por Glória Diógenes como “ruidoso silêncio da pixação”, ante este movimento enunciativo da segregação sócio-espacial mediante a materialização de uma ação corporal de protesto daqueles lançados ao esquecimento nas cidades[9].

 

 

Gabriel de Aguiar Tajra e Derik Gibertoni Costa são discentes na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (USP).

 


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Notas:

[1] HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018. Edição digital. Posição 78-86.

[2] CASTELLS, Manuel. The rise of the network society. 2ª Ed. Blackwell Publishing Ltd: Oxford, 2010.

[3] RACIONAIS MC’S. Negro Drama. São Paulo: Casa Nostra, 2002. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=3pTzAo-FnMQ. Acesso em 20/07/2019

[4] WAINER, João; OLIVEIRA, Roberto T. Pixo. Documentário longa metragem. 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=skGyFowTzew&t=1656s&has_verified=1.

[5] SPINELLI, Luciano. (2007), “Pichação e comunicação: um código sem regra”. Logos, 14 (26): 111-121.

[6] O ato de prejudicar a integridade de edificação ou monumento urbano consubstancia crime, nos termos do art. 65, da Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de1998, podendo resultar em pena de detenção de até um ano, com multa. Importante ressaltar, no entanto, que a prática de grafite com o objetivo de valorizar o patrimônio não constitui crime, nos termos do §2º do referido artigo.

[7] WITTGENSTEIN, L. Tractatus Logico-philosophicus. 3. Ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001 [Trad., apres. E ensaio introd. De Luiz Henrique Lopes dos Santos. Introd. De Bertrand Russel],  4.1212.

[8] (Heidegger, 2012, p. 381).

[9] DIÓGENES, Glória; CHAGAS, Juliana. O ruidoso silêncio da pixação: linguagens e artes de rua. Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens Instituto de Artes e Design. v. 1, n. 2. janeiro/junho 2016, p. 320.

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