Entre a modernização do futebol e a exclusão das classes populares
Segunda-feira, 29 de julho de 2019

Entre a modernização do futebol e a exclusão das classes populares

Imagem: Juliana Bontorim

 

Por Wanderson J. F. Gomes, sociólogo

 

Notadamente mais elitista, as torcidas nos estádios de futebol no Brasil sofreram intenso processo de reformulação em menos de duas décadas, bem como o espaço físico que as acolhem.

 

 

Aos entusiastas do futebol brasileiro, é difícil não perceber com certa incapacidade e incredulidade os novos elementos que compõem o campo de jogo. É preciso reconhecer que o grito de gol não é mais o mesmo, talvez por isso nos impressionem tanto as arenas mais modestas, abarrotadas e apaixonadas dos clubes vizinhos em competições como a Libertadores da América, por exemplo. Notadamente mais elitista, as torcidas nos estádios de futebol no Brasil sofreram intenso processo de reformulação em menos de duas décadas, bem como o espaço físico que as acolhem. Talvez a mais profunda e dolorosa tenha sido a reformulação simbólica e a mudança de significados. 

 

Entre as décadas de 1970 e 1980, o mundo observou o enfraquecimento da figura do Estado provedor, tomado por considerável recuo das políticas sociais. Por outro lado, o contexto produziu terreno fértil em prol da reestruturação das cidades com base na abertura de seus limites aos grandes empreendimentos, o que foi percebido com maior frequência nas regiões de capitalismo periférico acometidas por severas políticas neoliberais globais que se impuseram também sobre os entretenimentos. 

 

Resultado desse contexto global e amparado na alienação provocada pelos conceitos de “progresso” e “legado”, o Brasil foi escancarado aos capitais internacionais e oficialmente apresentado ao processo de “urbanização do espetáculo”[1], especialmente a partir de 2006. De maneira deturpada, o país passou a enxergar com bons olhos os altos investimentos que, há trezes anos, mudariam definitivamente a relação do seu povo com um dos maiores patrimônios nacionais: o futebol.  

 

Precedido por Estados Unidos (1994), Coreia do Sul e Japão (2002) e África do Sul (2010), o Brasil desbancou Argentina e Colômbia ao ser escolhido pela Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), em março de 2006, como único representante sul-americano para sediar a vigésima edição de um dos maiores eventos esportivos do mundo: a Copa do Mundo de Futebol, que ocorreria em 2014. Em outubro de 2007, a Federação de Futebol Internacional Associado (FIFA) proferiu, enfim, o anúncio oficial que confirmava a escolha dos brasileiros. 

 

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Rio de Janeiro (RJ), Brasília (DF), São Paulo (SP), Fortaleza (CE), Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Salvador (BA), Cuiabá (MT), Manaus (AM), Natal (RN) e Curitiba (PR) foram as cidades brasileiras escolhidas para sediar o evento, por seus grandes potenciais turísticos e uma suposta “viabilidade” na elaboração e construção de novos parques/estádios altamente modernos. Hoje sabemos que o argumento de “viabilidade” era, em grande parte, estratégia para beneficiar determinados governadores e outros políticos e que o “padrão FIFA” – conceito rapidamente disseminado na sociedade brasileira – custará mais caro que o superfaturamento das obras faraônicas feitas às pressas, tendo graves implicações culturais a longo prazo na rotina esportiva dos torcedores mais pobres. 

 

A circulação de capital nacional e internacional, o planejamento e organização de megaeventos (não apenas direcionados aos esportes) através da construção de modernas e tecnológicas arenas e a formulação de novos símbolos e imagens midiáticas que, para além do futebol, garantiriam o sucesso do negócio, foram componentes decisivos que movimentaram a construção civil, o mercado imobiliário e o turismo no Brasil, sobretudo hotelaria e gastronomia. Mais que isso, o capitalismo selvagem impactou profundamente na relação do povo com seu bem mais precioso, o futebol, que já não se resume mais às quatro linhas, aos 22 jogadores em campo e a deliciosa e fascinante imprevisibilidade do gol. E nem deve. Certas mudanças são necessárias, mas são inconcebíveis aquelas que retiram do espetáculo um de seus protagonistas: o torcedor. Assim como ocorreu com a classe pobre nas chamadas “cidades turísticas”, o “futebol moderno” dos megashows, das instalações de última geração e dos ingressos voltados para quem pode pagar, extirpou dos estádios a cor, o brilho, o barulho e a brasilidade dos morros e favelas que vociferavam seu amor e seu ardor dos alambrados. 

 

Logo, a frase “mais mercado, menos Estado” serviu somente para a criação de políticas sociais, pois Estado e mercado seguiram firmes e de mãos dadas para difundir seus ideais de “progresso” por meio das estratégias de produtificação dos espaços. E, além de produzir uma morfologia nas cidades, o locus de distinção entre classes passou a repousar no futebol, usando-o tristemente como uma ferramenta eficaz de expressão das desigualdades, o que resultou em uma redefinição simbólico-cartográfica urbana[2] ao apartar os que podem dos que não podem consumir determinados eventos. Passou a ser ainda mais comum a instalação de grandes telões espalhados por pontos estratégicos para criar a sensação de carinho ao público e união, embora mantendo-os em seus devidos lugares. 

 

Sob o prisma de “é preciso modernizar”, dois movimentos foram os mais marcantes no Brasil e emplacaram o novo ritmo do seu esporte mais tradicional: 1) a diminuição no tamanho dos estádios que, sob o argumento de comportar menos pessoas em nome da segurança e conforto do espetáculo, gradualmente higienizou as torcidas e hierarquizou os espaços; 2) o aumento exorbitante no preço dos ingressos – pois, com mais qualidade, segurança e conforto, o encarecimento foi facilmente justificável e inquestionável por grande parte da opinião pública. Os resultados ficaram expostos na última e apática Copa América, realizada aqui no Brasil em 2019: público baixo, renda alta e diversidade em falta. 

 

Apenas para o jogo de abertura do torneiro (Brasil e Bolívia), o preço médio dos ingressos foi de R$485. Consequentemente, raras partidas tiveram taxas superiores a 80% de ocupação, o que foi melhorando com a chegada dos jogos decisivos. Segundo dados do site GOAL, é possível perceber alguns públicos e rendas insatisfatórios dada a importância de sediarmos uma competição internacional de seleções, mesmo que a disputa seja continental: Equador e Japão – Mineirão (2.106 espectadores); Bolívia e Venezuela – Mineirão (4.640 espectadores); Peru e Venezuela – Arena do Grêmio (11.107 espectadores); Colômbia e Paraguai – Arena Fonte Nova (11.313 espectadores); Equador e Chile – Arena Fonte Nova (11.946 espectadores); e, no melhor resultado dessa série, Uruguai e Equador – Mineirão (13.611 espectadores).

 

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Na grande final realizada no Maracanã, no dia 7 de julho, o jogo entre Brasil e Peru recebeu mais de 60 mil torcedores que acompanharam o título brasileiro pelo placar de 3 a 1. Apesar do bom desempenho em público, o que não foi nada incomum para os parâmetros nacionais, o dado curioso é que esta partida representou a maior renda da história do futebol brasileiro, com espantosos R$ 38.769.850,00 – não é para menos, já que a média dos ingressos foi de R$ 661,78. Para se ter ideia, em termos comparativos, o Flamengo recebeu o Goiás no mesmo Estádio do Maracanã uma semana depois, em jogo válido pela 10ª rodada do Campeonato Brasileiro, superando o público da final da Copa América com 60.847 pagantes (melhor marca do campeonato em 2019 até então); mesmo assim, no que se refere a renda, o duelo obteve o valor de R$ 2.218.843,50 (17 vezes menor que a renda do jogo entre Brasil e Peru).

 

A atmosfera mudou. A seleção brasileira, que parece não ter aquele “charme”, também foi pouco motivada por seus torcedores durante o torneio continental. Por vezes os estádios enfrentavam silêncios ensurdecedores que iam temporariamente embora graças aos tímidos cantos de “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor…”, canção que virou febre no Brasil em 1998 e viu os torcedores brasileiros perderem o fôlego ao longo dos anos. Curiosamente, os momentos mais intensos foram as constantes aparições em campo ou nas arquibancadas do presidente Jair Bolsonaro e seus fiéis escudeiros, que fizeram a torcida se digladiarem entre vaias e aplausos – aparentemente as vaias venceram, mostrando que o atual presidente não é unanimidade nem entre os torcedores de maior poder aquisitivo.

 

Algumas obras previstas para a Copa do Mundo de 2014 e para os Jogos Olímpicos Rio 2016, principalmente de mobilidade, não foram iniciadas ou concluídas e possivelmente jamais serão. Para a Copa América de 2019, alguns retoques foram suficientes. Arenas entraram em desuso após as competições. Clubes de grande torcida da série A do campeonato brasileiro tentam obter renda extra vendendo seus jogos para campos neutros, em outros estados, como o caso do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha (a mais cara construção da Copa do Mundo), que, não fosse isso, estaria esquecido. O exemplo mais tragicômico foi a notícia de que com apenas R$39, os clubes Brasília e Formosa alugaram o Mané para uma partida válida pela 8ª rodada do Campeonato do Distrito Federal, em 2017, tendo 71 pagantes e renda ínfima de R$ 260.

 

E assim vamos seguindo, melancolicamente. Os clubes vendem o mando dos jogos para obter lucro e afastam o seu torcedor da possibilidade de apoiá-los. Para obrigar os torcedores a irem aos jogos, o futebol em TV aberta, monopolizado pela Rede Globo, exibe partidas de outros estados. Aqueles que querem tanto assistir seus times de coração, que assinem os canais pagos. Não tendo dinheiro, restam os meios clandestinos na internet ou o velho radinho de pilha para acompanhar em tempo real as partidas. Não há sensibilidade no capitalismo que se sobreponha aos lucros. Se o lucro existe, tudo está bem. Enquanto isso, vamos nos enclausurando, distantes dos espaços que um dia também nos pertenceram.

 

 

Wanderson J. F. Gomes é graduado em Ciências Sociais e mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL). É autor do livro “Letícia”, publicado pela Editora Multifoco do Rio de Janeiro

 


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Notas:

[1] Ver o livro JENNINGS, Andrew. Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas? Andrew Jennings; Raquel Rolnik; Antonio Lassance [et al.]. 1. ed. São Paulo: Boitempo: Carta Maior, 2014.

[2] Ver o livro O’DONELL, Julia. A invenção de Copacabana: culturas urbanas e estilos de vida no Rio de Janeiro (1890-1940). Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

[3] https://www.goal.com/br/notícias/quais-sao-os-publicos-e-rendas-dos-jogos-da-copa-america/19vf90ysboabf1pan8gx80b5rp (Acesso em 24 jul. 2019).

[4] http://www.espn.com.br/noticia/684124_no-estadio-mais-caro-da-copa-do-mundo-de-2014-aluguel-para-jogo-sai-por-r-39 (Acesso em 24 jul. 2019).

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