O STF vai intimar Moro como fez com Fernando Segovia?
Segunda-feira, 29 de julho de 2019

O STF vai intimar Moro como fez com Fernando Segovia?

Imagem: José Cruz/Agência Brasil

 

Por Mauro Donato

 

Essa pressão de autoridade do executivo sobre a PF, tal como Sergio Moro faz agora com o pedido para que as provas apreendidas com os “hackers de Araraquara” sejam destruídas, levou o STF a intimar Fernando Segovia.

 

 

“Há muitas conversas ali e poucas afirmações que levem realmente a que haja um crime”. Parece alguma fala de Deltan Dallagnol ou Sergio Moro nos dias de hoje, certo?

 

A declaração acima foi feita em fevereiro de 2018 pelo então diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia. Referia-se ao caso de envolvimento de Michel Temer com a Rodrimar (que opera áreas do porto de Santos) e Segovia estava alardeando aos microfones que o caso “tendia” a ser arquivado.

 

Disse isso muito antes de as investigações estarem perto do fim.

 

Assim como Sergio Moro faz agora, ele também estava afoito em disseminar a ideia de que aquilo tudo não era nada demais.

 

Fernando Segovia tinha sido nomeado poucos meses antes por, adivinhem, Michel Miguel Temer. Estava pressionando a PF com essas declarações. Chegou a ameaçar inclusive o delegado responsável pelo caso: “Ele pode ser repreendido, pode até ser suspenso dependendo da conduta que ele tomou em relação ao presidente”, afirmou em entrevista à Reuters na ocasião.

 

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Essa pressão de autoridade do executivo sobre a PF, tal como Sergio Moro faz agora com o pedido para que as provas apreendidas com os “hackers de Araraquara” sejam destruídas, levou o STF a intimar Fernando Segovia.

 

O relator na época era Luís Roberto Barroso. O ministro do STF entendeu que “Tendo em vista que tal conduta, se confirmada, é manifestamente imprópria e pode, em tese, caracterizar infração administrativa e até mesmo penal, determino a intimação do Senhor Diretor da Polícia Federal”.

 

Fernando Segovia foi ouvido e menos de duas semanas depois foi afastado do cargo.

 

Vamos lá: conduta imprópria, infração administrativa e até mesmo penal. Esses motivos são os mesmos para intimar Moro. Basta querer.

 

O ex-juiz agora é somente ministro e esteve telefonando para deus e o mundo pedindo, tão logo os depoimentos de estelionatário Walter Delgatti começaram a confirmar a veracidade do conteúdo, que o material apreendido fosse destruído. 

 

O STF vai se posicionar da mesma maneira agora?

 

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Sergio Moro tinha passado mais de um mês pedindo que Glenn Greenwald trouxesse as mensagens à público. Quando elas vieram por mãos de terceiros, apressou-se em pedir para que sejam jogadas na fogueira. Quem quiser ver normalidade nisso, que veja. Mas normal não é.

 

Além de permanecer com a ladainha de que não vê nada demais no conteúdo – o problema está na forma como foram obtidas as mensagens, o que mais uma vez revela-o como um duas-caras, pois quando de seu interesse dizia exatamente o contrário – Moro tem mais poder de pressão do que tinha Segovia.

 

Segovia era apenas um diretor da Polícia Federal. Moro é o chefe da PF!

 

Com mais uma leva de mensagens reveladas hoje pela Folha de S.Paulo que só confirma o viés exclusivamente político de Moro, Deltan e muitos outros membros da força-tarefa, está na hora de um STF da vida intimar Moro e fazer as perguntas que realmente precisam ser feitas.

 

Não num ambiente de circo como foram os depoimentos “espontâneos” no Congresso.

 

Pela reportagem de hoje está provado que a delação de Palocci, além de fraca, inconsistente, considerada pífia pela maioria dos membros da Lava Jato, foi utilizada segundo timing político.

 

Moro segurou, ficou de olho no calendário e divulgou-a poucos dias antes do primeiro turno das eleições. Anticorrupção uma pinoia.

 

Para concluir e manter o paralelo com o caso do delegado amigo de Michel Miguel: Temer foi preso duas vezes no início desse ano. As duas estavam relacionadas com apurações sobre a usina nuclear de Angra 3, no Rio.

 

O ex-presidente ainda é réu em seis ações penais e investigado em outros casos, entre eles o da Rodrimar. Não há previsão de quando será julgado.

 

Moro certamente tem na ponta da língua o ditado “a Justiça tarda, mas não falha”. É bom não se esquecer disso.

 

 

Mauro Donato é jornalista, escritor e fotógrafo nascido em São Paulo.

 


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