Uma história muito bem contada: as narrativas de Jair Bolsonaro via Twitter e Youtube
Terça-feira, 30 de julho de 2019

Uma história muito bem contada: as narrativas de Jair Bolsonaro via Twitter e Youtube

Imagem: Antônio Cruz/Agência Brasil | Montagem: Justificando

 

Coluna Féministas

Por Catia Eli Gemelli

 

Nossa realidade é construída a partir de narrativas e é através delas que compreendemos o mundo. Tratam-se de dispositivos discursivos utilizados socialmente de acordo com as pretensões dos sujeitos, ou seja, são construções que não costumam ser ingênuas. 

 

 

Quem se comunica possui uma intenção ao fazê-lo, mesmo que de forma subjetiva.  As narrativas, portanto, são formas de exercício de poder e de hegemonia e se constroem com o tempo. Não é em um único e isolado evento que se compreende uma narrativa no sentido de contar uma história, mas a partir de um conjunto de ações ou episódios. É preciso observar sua sequência e encadeamento para compreender quais são as suas intencionalidades. 

 

É sem precedentes o uso das redes sociais para comunicações (inclusive oficiais) do governo, como o faz o atual presidente Jair Bolsonaro. E essa comunicação que se estabelece a partir das redes possui a intencionalidade de contar uma versão própria dos fatos que estão ocorrendo no Brasil na atualidade. Ou seja, Jair Bolsonaro e sua equipe estão construindo sua própria narrativa – “livres da ideologia da imprensa” – em comunicação “direta” com o eleitorado. 

 

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Desde setembro de 2017 – quando ainda deputado federal – o atual presidente da república possui um canal no youtube, chamado “Bolsonaro TV”. É descrito como “Canal oficial de transmissão das últimas notícias e informações sobre o Presidente da República Jair Messias Bolsonaro”. O canal possui mais de 1 milhão e 400 mil inscritos e, até o mês de julho de 2019, os vídeos postados já alcançavam mais de 90 milhões de visualizações. 

 

Todos os vídeos postados possuem uma estrutura muito parecida: são curtos, a maioria com até três minutos de duração; são compostos por montagens de recortes de falas de Bolsonaro, de seus aliados, de jornalistas e de seus adversários políticos; utilizam-se de muitos memes. Outra questão que chama atenção são os títulos desses vídeos que fazem uso de linguagem simples e destacam palavras e frases de tom sensacionalista, tais como: “Bolsonaro ignora jornalistas que tentam abordá-lo com perguntas bestas na entrada do congresso”; “Porta-voz MITA contra perguntas IDIOTAS dos jornalistas sobre manifestação pró-Bolsonaro dia 26”; “ADEUS CORRUPÇÃO! Bolsonaro assina NOVO DECRETO que fiscaliza TODO DINHEIRO PÚBLICO”; “Bolsonaro visita Yasmin após imprensa ESQUERDISTA CALUNIÁ-LO por ser ‘IGNORADO’ pela menina”. “Paulo Guedes dá um show de economia liberal e atrai interesse dos grandes líderes do Mercosul.

 

No twitter, o presidente possui uma página pessoal desde o ano de 2010 e possui 4,56 milhões de seguidores. Nesta conta Bolsonaro descreve-se como “Capitão do Exército Brasileiro, eleito 38º Presidente da República Federativa do Brasil” e realiza postagens diárias, muitas delas com comunicados oficiais importantes, tais como nomeação e exoneração de ministros. Afinal, por que a escolha de tornar públicas informações tão importantes através do twitter?

 

Bolsonaro tem a clara intenção de mostrar-se um presidente acessível ao seu eleitorado, alguém simples e sem formalidade, como no caso dessa mensagem de 27 de julho: Após ler em meu Face o apelo do leitor Vennicios M. Teles pedindo para baixar impostos sobre jogos eletrônicos, resolvi consultar nossa equipe econômica. Atualmente o IPI varia entre 20 e 50%. Ultimamos estudos para baixá-los. O Brasil é o segundo mercado no mundo nesse setor”. Desta forma, constrói a ideia de ser uma pessoa próxima do povo e de que qualquer eleitor/a pode ter suas necessidades ouvidas e atendidas pelo presidente da república.

 

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Além disso, tanto ele quanto sua equipe sabem que é nas redes sociais que se encontra a sua maior rede de apoio e, portanto, é o local em que suas decisões possuirão maior aceitação. Mas mais do que isso, é a forma que Jair Bolsonaro encontrou de neutralizar e desacreditar o trabalho jornalístico.

 

Os vídeos no youtube são montados com recortes de fala e memes de forma que Bolsonaro pareça estar “vencendo uma batalha”. Ao mesmo tempo em que esses vídeos possuem títulos de deslegitimação e até ridicularização do trabalho de jornalistas, no dia 20 de julho de 2019 o presidente fez a seguinte postagem na sua conta do twitter: “Não adianta a imprensa me pintar como seu inimigo. Nenhum presidente recebeu tanto jornalista no Planalto quanto eu, mesmo que só tenham usado dessa boa vontade para distorcer minhas palavras, mudar e agir de má fé ao invés de reproduzir a realidade dos fatos”. 

 

Nesta mensagem Bolsonaro acusa a imprensa de fazer algo que ele e sua equipe fazem a todo momento nos recortes e montagens dos vídeos postados no youtube, como mostram os próprios títulos: pintar a imprensa como inimiga e produzir distorções ao invés de reproduzir a realidade dos fatos. O esforço de mostrar a imprensa como inimiga, ideológica e “esquerdista” está também nas postagens do twitter, como nesta também do dia 20 de julho: “Sempre defendi liberdade de imprensa, mesmo consciente do papel político-ideológico atual de sua maior parte, contrário aos interesses dos brasileiros, que contamina a informação e gera desinformação. No fundo, morrem de saudades do PT.” 

 

Outra intencionalidade clara na narrativa construída por Bolsonaro pelas redes sociais é a de simplificar discussões complexas utilizando-se sempre do mesmo discurso que foi a base da sua campanha de governo “combate à doutrinação ideológica e à corrupção”. Não importa qual seja o tema, em suas declarações nas redes sociais ele encontra uma forma de transformar suas decisões em empreitadas na “guerra contra a ideologia de esquerda e à roubalheira dos governos anteriores”. 

 

Esse é o caso de tweet postado no dia 22 de julho sobre o decreto que extinguiu vagas de especialistas no Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas (Conad), diminuindo a presença da sociedade nesses órgãos: Há décadas a esquerda se infiltrou em nossas instituições e passou a promover sua ideologia travestida de posicionamentos técnicos. O decreto que assinei hoje extingue vagas para órgãos aparelhados no Conselho Nacional sobre Drogas e acaba com o viés ideológico nas discussões”.

 

Vou falar do PT sempre. Não adianta chorar”

Sempre que sente a necessidade, seja para encerrar um debate do qual não quer participar ou desviar de questões relativas às suas decisões, cita e responsabiliza os governos anteriores: “Vou falar do PT sempre. Não adianta chorar. Não é porque perderam a eleição que seus crimes devem ser ignorados. Os efeitos devastadores do desgoverno da quadrilha ainda podem ser sentidos e é papel de todo aquele que que ama o Brasil lembrar quem foram os culpados.” (Tweet de 20/07/2019).

 

Por fim, Bolsonaro constrói uma narrativa de “defesa” ao “ataque” da mídia e de “inimigos do povo”, como neste twitter do dia 8 de julho: “A FUNAI, como regra, “cuidava” de tudo, menos do índio. Cada ninho de ratos que toco fogo, mais inimigos coleciono. Acredito no Brasil porque confio em você, cidadão de bem.” Trata-se da construção de uma figura heroica que se põe em risco pela pátria e pelos “defesa dos cidadãos de bem”. A imagem abaixo postada no twitter de Bolsonaro no dia 19 de julho de 2019 ilustra claramente essa construção:

 

 

Catia Eli Gemelli é doutoranda em Administração na UFRGS e professora de Administração no IFRS/Campus Osório.

 


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