Lula, o Dreyfus brasileiro
Quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Lula, o Dreyfus brasileiro

Montagem: Justificando

 

Por Carlos Eduardo Araújo

 

Não é de hoje que se diz que a justiça é freqüentemente injusta: Summus jus, summa injuria, disse Voltaire. Um dos casos de erro judiciário, entre os mais notoriamente conhecidos, e que por anos, provocou grande comoção na França e indignação mundo a fora, foi o “Caso Dreyfus”.

 

 

Entendo que o “Caso Dreyfus” nos oferece inúmeros pontos de convergência com o “Caso Lula”. Ambos os réus foram injustamente acusados do cometimento de determinados crimes. Nos dois casos as provas são frágeis e foram forjadas para incriminá-los. As testemunhas, num e noutro caso, não são dignas de nenhuma credibilidade. Os julgadores são parciais, e já têm suas respectivas e prévias convicções pela culpabilidade dos réus, mesmo sabendo que são inocentes. Em ambos os casos todo o aparelho estatal é mobilizado para a consecução da iníqua condenação dos acusados. Em ambos os casos, a imprensa se presta a um papel venal e sórdido, suscitando os piores preconceitos de suas respectivas populações, no caso francês, o antissemitismo, no caso brasileiro, o antipetismo. Em ambos os casos, apesar de existência de farta prova da inocência dos réus, são, ainda assim, condenados a duras penas. 

 

Enquanto a França, das últimas décadas do século XIX, se vê às voltas com um forte antissemitismo, o Brasil, de meados dos anos 2000, vê surgir um substancial antipetismo, que ainda perdura, mesmo que com alguma atenuação. 

 

A criminosa farsa judiciária, montada pelo alto comando militar, no caso francês e pela Operação Lava Jato, no caso brasileiro, deve gerar indignação em todos os espíritos esclarecidos, progressistas e humanistas de ambos os lados do atlântico.

 

O “Caso Lula” e a conseqüente condenação do ex- Presidente da República resultou de um conluio envolvendo o juiz Sérgio Moro, membros do Ministério Público Federal, da Polícia Federal e de parcelas do Poder Judiciário. Esse fato, que até dia 09 de junho de 2019, ou seja, antes das bombásticas revelações do “The Intercep Brasil”, já era fruto da percepção, acuidade e sensibilidade de expressiva fração da comunidade jurídica e do povo brasileiro, agora é alçado à condição de verdade insofismável.

 

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Em texto publicado em 2017, no livro que analisou a sentença do juiz Sérgio Moro, que condenou o ex-presidente Lula no caso do tríplex do Guarujá, Agostinho Ramalho Marques Neto se mostrou clarividente:

 

“Os atos e declarações dos componentes da assim denominada Operação Lava Jato – desde delegados da Polícia Federal, passando por membros do Ministério Público Federal e chegando ao juiz acima mencionado, assumidamente integrante e sob muitos aspectos até mesmo “chefe” da referida operação, por mais incompatível que isso possa ser com a postura que se espera de um juiz – apontavam sempre no sentido de uma “convicção” de culpa que só enxergava como “provas” aquilo que a reforçasse, o que evidenciava que o processo não passava de uma encenação para que a pré-concebida sentença condenatória fosse proferida.” [1]

 

O caso Dreyfus

O Caso Dreyfus, que dividiu a França em fins do século XIX, onde de um lado estavam os “dreyfusards (dreyfusistas) e de outro os “antidreyfusards” (antidreyfusitas), facções antagônicas e inconciliáveis que se digladiaram em defesa da inocência ou culpabilidade do capitão do exército francês, Alfred Dreyfus.

 

O ambiente político e social na Paris dos anos 1894 era acintosamente hostil aos judeus. O antissemitismo abarcava diferentes instâncias da sociedade francesa. E não era um fenômeno insulado apenas em terras gaulesas. Na vizinha Alemanha, e em boa parte da Europa, esse sentimento também foi alimentado e difundido por séculos, ao preço de muito preconceito, deturpações e ódios ancestrais.

 

Tudo começa em 24 de setembro de 1894, quando o ministro da guerra, Mercier, recebe das mãos do Coronel Henry, que ocupava uma posição de destaque no Estado-Maior do Exército Francês, um documento manuscrito, que ficou conhecido como Bordereau, em cujo conteúdo havia segredos estratégicos do Estado-Maior francês.  Rasgado em quatro pedaços, colado pelas costas, teria sido encontrado no lixo da embaixada alemã. O serviço de espionagem do exercito francês conseguira infiltrar na referida embaixada, uma agente. Uma velha senhora francesa, de nome Marie Bastian, que conquistou a confiança de uma filha do Embaixador alemão, e a pretexto de arrumações e limpeza se imiscuía em todos os ambientes da embaixada. Juntava todos os papeis encontrados nas lixeiras, e depois os encaminhava a agentes franceses que, numa seção especial do exército, os reconstituíam. O chamado bordereau, documento supostamente escrito pelo judeu Alfred Dreyfus, era endereçado ao adido militar alemão, Maximilian Von Schwartzkoppen. [2]

 

A caligrafia do documento, que arrolava detalhes relativos às tropas e ao arsenal bélico francês, era semelhante, mas não idêntica a de Dreyfus, como ficará provado depois. O primeiro perito chamado para examinar o memorando, chega a essa conclusão. Outro perito é designado, Bertilon, e contra todas as evidências em contrário, conclui pela autoria de Dreyfus. Era preciso achar, o quanto antes, um culpado, um bode expiatório e, um judeu era perfeito, naquele momento. Os superiores de Dreyfus, notórios antissemitas, jamais simpatizaram com ele. Logo é apontado como o traidor, o criminoso.

 

Segundo Louis Begley:

 

“Dreyfus, o único oficial judeu em treinamento no Estado-Maior, estava fadado a ser apontado. O antissemitismo — tanto o já tradicional antissemitismo religioso, como também o econômico e racial — atingira uma intensidade nunca vista antes na França. Embora houvessem mantido relações profissionais corretas com Dreyfus, os oficiais que se preparavam para acusá-lo eram antissemitas. Mesmo que só por essa razão, não gostavam dele.” [3]

 

No intuito de confirmar suas certezas, o tenente-coronel do exército francês Armand Mercier Du Paty du Clam usa de um estratagema. Convoca Dreyfus para comparecer ao Estado-Maior, pela manhã, a pretexto de uma inspeção. Na convocação há a recomendação que compareça em traje comum. Comparece ele na presença do tenente-coronel e de três civis, que na verdade são membros da polícia. Alegando que está com a mão direita machucada, Du Paty, lhe dita uma carta na qual são empregadas palavras e expressões constantes do Bordereau. Enquanto Dreyfus transcreve o ditado, observam-lhe as reações. Está se traindo? Está indiferente? Estará dissimulando? 

 

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Dreyfus acha insólito tudo aquilo. Por que toda aquela encenação? O que querem? O acusam de alguma coisa?  Os oficiais e os civis que participavam da teatralização, todavia, estão convictos da culpabilidade de Dreyfus. Ao fim do ditado ouve de Du Paty du Clam: “Está preso em nome da lei; é acusado de alta traição”. Ele sai dali para a prisão, incomunicável e sem que lhe esclareçam do que é acusado. Assim como um Josef K., começa o seu martírio sem que houvesse feito, como o personagem de Kafka, coisa alguma de mal. 

 

Nos meses e anos que fluem a partir desse acontecimento, vários personagens vão entrar em cena. Dentre os protagonistas dessa peça de iniqüidades, está o major Ferdinand Walsin-Esterhazy.

 

Como revelará a marcha histórica dos eventos, terá sido o major Esterhazy, um oficial francês, que estava a vender importantes segredos militares da França ao adido militar alemão em Paris, o já mencionado tenente-coronel Maximilian von Schwartzkoppen. 

 

Esterhazy, como dirá Louis Begley, “era descendente do ramo francês ilegítimo de uma antiga e ilustre família austro-húngara que nunca reconhecera seus parentes franceses. Sociopata amoral, Esterhazy mentia, intrigava e trapaceava obsessivamente. Vivia endividado; sua mulher, uma aristocrata francesa que o desposara apesar de veementes objeções da família, percebera a necessidade de tomar medidas legais para proteger sua pequena fortuna pessoal contra os esbulhos do marido.” [4]

 

O documento entregue ao adido alemão, por Esterhazy, discorria sobre artefatos de guerra, sobre posições das forças francesas e modificações na ordem de batalha das unidades de artilharia, e também sobre planos para a iminente invasão e colonização de Madagascar. A entrega desses papéis foi registrada no bordereau, escrito em papel translúcido e deixado sem assinatura e sem data. 

 

Devemos nos lembrar que em 1870 houve a guerra franco-prussiana, vencida pela Alemanha.  Esse evento é um pano de fundo importante para entender o “Caso Dreyfus”. Havia uma enorme desconfiança e animosidade do povo francês, derrotado no conflito, com relação à Alemanha. A contenda entre as duas nações ocorreu vinte quatro anos antes do “Caso Dreyfus”. Ainda pairava no ar um rancor latente dos franceses em relação aos alemães. 

 

O que estava consignado no bordereau era imensamente grave, mobilizando os oficiais das mais altas patentes do Estado-Maior do exército francês. Era imperioso descobrir, o quanto antes, o traidor. Os esforços, nesse sentido, se mostravam infrutíferos. Assim, através das suposições do tenente-coronel Albert d’Aboville, que se mostrariam posteriormente errôneas, concluíram que devido à variedade dos temas abordados no documento, devia ser alguém que conhecesse todo o espectro do trabalho do Estado-Maior. O autor tinha de ser oficial de artilharia, como Dreyfus. Estavam errados: Esterhazy era oficial de infantaria e servia em um regimento de linha cujos conhecimentos sobre os assuntos enumerados no bordereau eram limitados e superficiais.

 

A partir daí, passaram em escrutínio uma lista de oficiais em treinamento, e o nome de Dreyfus logo saltou à vista. Como oficial de artilharia e por estar em treinamento, ele se encaixava nas especificações de D’Aboville. Além disso, tanto D’Aboville como seu superior imediato, o coronel Pierre-Elie Fabre, conheciam Dreyfus e antipatizavam com ele. Fabre inclusive fizera uma avaliação negativa de Dreyfus, na qual reconhecia a inteligência e o talento do avaliado, mas criticava sua pretensão, atitude insatisfatória e falhas de caráter. Foi pedida uma amostra da caligrafia de Dreyfus: para os presentes, ela pareceu semelhante à do bordereau. Estava traçada a via crucis de tormentos, privações, provações e infortúnios do capitão Dreyfus. [5]

 

Doravante o exército vai se deparar com inúmeras incoerências, inverdades e até falsificação de documentos para sustentar a acusação contra Dreyfus, toda ela baseada em uma única e frágil prova, o bordereau. Terá que reafirmar mentiras sobre mentiras e forjar provas para manter a versão montada, segundo a qual Dreyfus é o autor do aludido bordereau e, portanto, traidor do exército e da nação francesa. Como dirá Zola, algum tempo depois, “a culpa só passaria a existir no dia em que se obstinassem em não admitir o erro, mesmo diante de provas decisivas.” 

 

Todavia, o exército continuará, indefinidamente, e contra todas as evidências e provas em contrário, a sustentar a primeira mentira. Tudo à semelhança do que ocorreu no Caso Lula, no processo do apartamento do Guarujá, onde o Juiz Sérgio Moro, a Lava Jato e parcelas do Judiciário, mesmo depois das revelações que têm vindo à tona, desde o dia 9 de junho do corrente ano, continuam a sustentar suas falaciosas versões, sem se vergarem à força da verdade, que aflora das mencionadas revelações. E como disse em entrevista recente o ex-presidente Lula, sobre os processos em que se viu enredado por acusações, que hoje sabemos falsas, injustas e irregulares: “A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira, você passa a vida inteira contando mentira para justificar a primeira que contou.” Vale para os acusadores de Lula, vale para o Caso Dreyfus.

 

A direita francesa fazia coro em apoio às mentiras reinantes em torno do Caso Dreyfus, na qual estavam acolhidos os monarquistas, os conservadores, os nacionalistas, a ultradireita e uma parcela considerável de antissemitas. No campo conservador, dois nomes se destacavam Charles Maurras e Maurice Barrès.

 

Como afirmou Michel Winock:

 

“De fato para Maurras, havia alguma coisa acima da justiça, acima da verdade: é o que ele chama de “segurança nacional”. Preservação social. Dissera Barrès; segurança nacional, dizia Maurras. Duas fórmulas para uma mesma ideia: a razão de estado, tendo em vista a sobrevivência da coletividade francesa, autorizava mentiras, falsificações de documentos, como estratagemas necessários.” [6]

 

Dreyfus, depois da ordem de prisão que recebe após o ditado de Paty du Clam, ficará preso e incomunicável por duas semanas, sem que lhe seja informado o motivo para tanto. Nesse ínterim, seu apartamento é inteiramente revistado, sua esposa Lucie é admoestada e ameaçada a colaborar, tudo feito em completo atropelo às formalidades legais e jurídicas. Não encontraram nada que o incriminasse.

 

O processo contra ele tramitou numa velocidade supersônica. Assim, como sabemos, tudo teve início em setembro de 1894, com a descoberta do bordereau. Em dezembro do mesmo ano, Dreyfus já estará condenado, pelo tribunal militar, à prisão perpétua. O julgamento pagou tributo ao sistema inquisitorial, com os juízes assumindo o papel de acusadores e julgadores, promovendo a inversão do ônus da prova em desfavor do réu, com os magistrados prendendo a vítima a partir de meros indícios, cabendo à mesma provar sua inocência para voltar à liberdade. “Provas secretas”, as quais foram ocultadas da defesa. Provas, na verdade, forjadas e documentos adulterados para tentar dar maior credibilidade à condenação do réu. 

 

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Em uma decisão posterior a sentença que o condenou, houve modificação do lugar de cumprimento da mesma, para enviar Dreyfus para um lugar inóspito e desabitado, em condições sofríveis para a subsistência humana, minimamente digna. Um rochedo de aproximadamente dois mil quilômetros quadrados, na Guiana Francesa, que atendia pelo aterrador nome de “Ilha do Diabo”, onde permanecerá, injustamente, preso por cinco anos.

 

Apesar do empenho ininterrupto da mulher de Dreyfus e seu irmão, a sorte do capitão só principiou a mudar em 1897, quando Émilie Zola, considerado o maior escritor francês vivo à época, convencido da inocência de Dreyfus, começa a escrever sobre o caso. No ano seguinte, no dia 13 de janeiro de 1898, pelas páginas do jornal L’Aurore, Zola dirigirá uma carta ao presidente francês Félix Faure, na qual extravasa toda a sua indignação contra a iníqua condenação: “Eu acuso”. O texto, como dirá Ricardo Lísias, “toma conta de Paris e rende a Zola um processo que o condenaria a um ano de prisão e uma multa de 3.000 francos.” [7]

 

Depois da mobilização, que arregimentaria intelectuais de todo o mundo em junho de 1899, o processo do capitão Dreyfus começa a ser revisto.

 

No Caso Dreyfus, os arbítrios, as irregularidades e as ilicitudes foram cometidas por uma instituição que gozava de uma enorme honorabilidade, considerada como bastião da nação francesa, o exército. Nada poderia conspurcar tal benemerência, e em função disso, o povo, e parte significativa da elite, fecharam os olhos ou decidiram não ver toda a iniqüidade que estava sendo cometida ao seu derredor.

 

O caso Lula

No Caso Lula, é a operação Lava Jato e o juiz Sérgio Moro que foram alçados a esse lugar. Sendo transformados em heróis nacionais, glorificados com cavalheiros que combatiam com destemor, audácia e denodo os males da corrupção, transformada em única vilã e responsável por todos os infortúnios do Brasil. 

 

Consoante Alberto Sampaio Júnior:

 

“Não importa o quão alto você esteja, a lei ainda está acima de você”. E foi assim, citando a eloquente frase do historiador britânico Thomas Fuller (1608 — 1661), que o juiz Sergio Moro, sob os holofotes de um midiático discurso de combate à corrupção a qualquer custo e, paradoxalmente, de subordinação à lei, concluiu sua pretensa elevação ao posto de herói nacional, condenando, entre outros acusados, o ex-presidente Lula a nove anos e meio de prisão. Imediatamente, criou-se, com clamor popular, altos índices de audiência, biografias, bonecos gigantes de Olinda, documentários, coreografias e algumas capas de revistas, o “supermoro”, acolhido pelos “batedores de panela” como novo salvador da pátria, ao lado de Bolsonaro, Malafaia, Alexandre Frota, “pato amarelo da FIESP”, Kim Kataguiri, “japonês da federal”, entre outras personagens.” [8]

 

Apontar as inúmeras irregularidades e os arbítrios perpetrados por esses atores transformaria, quem o fizesse, em alguém contrário ao combate à corrupção e inimigo dos interesses nacionais. Hoje sabemos que essas personagens, ornamentadas com o manto da probidade e honradez, pela grande mídia, a pretexto do combate à corrupção, cometiam-na diuturnamente em suas ações e gestos de bastidores.

 

Lula foi condenado pelo juiz Sérgio Moro por corrupção passiva naquele que ficou conhecido como o “Tríplex do Guarujá”, sem provas e com base em uma única testemunha, que depois de mais de dois anos presa, ainda está à procura de selar um acordo de delação premiada. 

 

Como no Caso Dreyfus, o Caso Lula dividiu o país entre aqueles que têm apontado às inúmeras irregularidades processuais, a utilização do sistema inquisitório pelo juiz, a ausência de provas, chamados, pejorativamente, de petistas e os que, insuflados por uma mídia venenosa, fecham os olhos ao processo de exceção a que foi submetido o ex-presidente, assumindo uma postura antipetista. Para esse lado, no qual se aninha a extrema-direita, não importam as provas da parcialidade do juiz, seu atuar em conluio com a acusação, orientando-lhe as estratégias, trocando procuradores, sob a acusação de despreparo e fazendo indicação de testemunhas. Tudo à semelhança ao do Caso Dreyfus. 

 

A constatação de Zola quanto à imprensa de seu país, ao se ocupar do Caso Dreyfus, se aplica inteiramente à imprensa brasileira, ao se ocupar do Caso Lula, sendo que aqui houve a substituição do antissemismo, como pano de fundo, pelo antipetismo:

 

“A imprensa imunda devorou a nação e, acesso de perversão, da podridão em que se lançou, vem exibir a ferida, em pleno dia. O veneno está no povo, se é que o povo inteiro não está envenenado. Devemos ao antissetismo a perigosa virulência que os escândalos do Panamá assumiram entre nós. E todo esse lamentável caso Dreyfus é obra sua: só ele tornou possível o erro judiciário, só ele enfurece agora a multidão e impede que esse erro seja tranquilamente, dignamente, reconhecido …”  [9] 

 

No Brasil, o antipetismo surge em meados dos anos 2000, e em poucos anos vai ganhando adeptos e propagadores, estimulados e alimentados, diuturnamente, pela mídia tradicional – venal e sórdida – que em peso passa a promover uma campanha difamatória contra Lula e as esquerdas.  

 

A publicidade, maciça e deletéria, vai corroendo a imagem do Partido dos Trabalhadores e suas principais lideranças, associando-os à corrupção e práticas nefandas ao interesse público. Alguns jornalistas, ligados à mídia tradicional, tiveram uma considerável responsabilidade em criar um ambiente de radicalismo, polarização, disseminação de inverdades e difamações, no qual estamos mergulhados ainda hoje. Nomes como Reinaldo Azevedo, que cunhou as expressões “petralhas” e “esquerdopatas”, Marco Antonio Vila, com sua alma tucana e sua virulência seletiva e carregada de má-fé em face do PT e de seus dirigentes e Rachel Sheherazade, que chegou a comparar o Partido dos Trabalhadores ao partido nazista de Adolf Hitler. 

 

Esse movimento foi se adensando de forma pungente e desgraçadamente atraindo, com seu ardiloso visgo, um amálgama de desinformação, inverdades e preconceitos, multidões de pessoas, que passaram a atribuir ao PT e a seus dirigentes, todos os males que afligem ao Brasil. 

 

Como dirá Jeferson Miola:

 

“O antipetismo é um fenômeno entranhado na subjetividade das pessoas pela campanha subliminar e às vezes direta em especial da Globo, mas do conjunto da mídia, que converteu os petista nos judeus da Alemanha nos anos 1930 – a “espécie de cupim que infesta o corpo do povo”, como Hannah Arendt dolorosamente definiu. O antipetismo viceja nas igrejas partidarizadas por pastores inescrupulosos que abusam do poder religioso e manipulam a palavra de Deus para pregar o ódio, a intolerância e a violência contra Lula e os petistas, ao mesmo tempo que atuam como comitês eleitorais do bolsonarismo.” [10]

 

O antipetismo tem suas raízes no pensamento conservador e elitista, que desde o império luta pela preservação e manutenção das desigualdades sociais, como meio de proteção das classes altas.

 

Nas palavras de Luis Fernando Veríssimo, [11] “está no DNA da classe dominante brasileira, que historicamente derruba, pelas armas se for preciso, toda ameaça ao seu domínio, seja qual for sua sigla.”   

 

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As políticas sociais, desenvolvidas pelo Partido dos Trabalhadores, atraíram para si a ira de uma classe de privilegiados que, para desacreditar as mesmas, foram construindo uma visão de que os governos do PT seriam os mais corruptos da história, substituindo, de forma intencional e desonesta, os fatos por hipérboles:

 

“Vemos assim, como, desde 2005, tem sido construída a visão de que os governos petistas são os mais corruptos da história republicana, e esse foi um terreno fértil para o florescer do antipetismo, que no plano das emoções se constitui em importante leitmov da revolta. Mas, o “Fora PT” tem ainda outra fonte que corre paralela ao seu engate com o tema da corrupção: as políticas sociais do governo voltadas à inclusão das classes C e D. O antipetismo está alinhado com nossa cultura política desigual e hierárquica, que se manifestou de forma veemente na oposição a programas tais como o Bolsa Família, as cotas para negros, o Mais Médicos, o ProUni, a legislação trabalhista para as empregadas domésticas, dentre outros.” [12]

 

  Diante desse cenário desolador, para o país e para o ex-presidente Lula, faço a seguinte pergunta: onde está o Zola brasileiro que, em face da insuperável nulidade do processo que condenou Lula, irá se insurgir contra as injustiças que vitimam o ex-presidente? 

 

Seu caso tem de ser revisto, imediatamente. As irretorquíveis provas do processo inquisitorial, a que ele foi submetido, sobejam das revelações do Intercept Brasil. Há que se promover um grande e glamoroso movimento nacional, deflagrado pelos artistas, pelos intelectuais, por parcelas expressivas do povo brasileiro. Convoquemos coletivas da imprensa, nacional e internacional; que falem os advogados de Lula; que falem os mais respeitáveis juristas deste país; que falem os intelectuais; que falem os artistas; que vocifere o povo; todos, enfim, a cobrar que se promova a tão almejada justiça ao ex- presidente Lula.

 

 

Carlos Eduardo Araújo é professor Universitário e mestre em Teoria do Direito (PUC-MG).  

 


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Notas:

[1] Carol Proner Gisele Cittadino Gisele Ricobom João Ricardo Dornelles (Org.). Comentários a uma sentença anunciada . Canal 6 Editora, 2017.

[2] Homero Sena. Uma voz contra a injustiça – Rui Barbosa e o Caso Dreyfus. Fundação Casa de Rui Barbosa, 1987.

[3] O Caso Dreyfus – Ilha do Diabo, Guantanamo e o Pesadelo da História. Companhia das Letras, 2010.

[4] O Caso Dreyfus – Ilha do Diabo, Guantanamo e o Pesadelo da História. Companhia das Letras, 2010.

[5] O Caso Dreyfus – Ilha do Diabo, Guantanamo e o Pesadelo da História. Companhia das Letras, 2010.

[6] Michel Winock. O Século dos Intelectuais. Bertrand Brasil, 2000.

[7] Eu Acuso. O processo do capitão Dreyfus. Émile Zola, Rui Barbosa.  Organização e tradução Ricardo Lísias, 2013.

[8] Carol Proner Gisele Cittadino Gisele Ricobom João Ricardo Dornelles (Org.). Comentários a uma sentença anunciada . Canal 6 Editora, 2017.

[9] Michel Winock. O Século dos Intelectuais. Bertrand Brasil, 2000.

[10] Jeferson Miola. Carta Maior, 14/10/2018. 

[11] Luis Fernando Verissimo. “Ódio.” O Globo, 25 de junho de 2015.

[12]Tatagiba, Luciana, Thiago Aparecido Trindade, e A. C. C. Teixeira. “”CorruPTos” Um ensaio sobre protestos à direita no Brasil (2007-2015).” II Encontro Internacional Participação, Democracia e Políticas , Abril de 2015: 1-29.

 

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