A advocacia está em depressão, toma ansiolíticos e ninguém está nem aí
Sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A advocacia está em depressão, toma ansiolíticos e ninguém está nem aí

 

Por Giovani Ravagnani

 

A depressão e demais problemas psiquiátricos se tornaram uma epidemia na advocacia. No mundo do direito, difícil é não conhecer alguém que esteja sofrendo com problemas de ansiedade, depressão, bipolaridade, burnout etc..

 

 

Trata-se de uma enorme massa de advogados que acordam, vivem e trabalham sob os efeitos de remédios antidepressivos, ansiolíticos e demais drogas de tarja preta. Eu mesmo me incluo na lista.

 

A ideia de escrever este texto surgiu depois de ter visto várias publicações sobre o assunto no perfil do Instagram @PaulistaElevator. As imagens abaixo, com comentários irônicos e em tom de humor, geram awareness sobre o assunto e sobre o problema:

 

Para escrever esse texto, resolvi conversar com o administrador da página Paulista Elevator, que prefere se manter anônimo para manter o “espaço de denúncia e humor, mas sente isso na pele e no dia-dia”, pois trabalha em um dos grandes escritório ‘Big Firma’ do Brasil. O administrador do Paulista Elevator disse que tudo começou como uma brincadeira isolada, mas que chamou a atenção a quantidade interminável de pessoas mandaram mensagens compartilhando seus dramas e agradecendo por ter chamado a atenção para o problema, pessoas vítimas de depressão, ansiedade e de síndrome de burnout.

 

Não deveria ser normal virar noite atrás de noite. Não deveria ser normal que as pessoas precisassem viver medicadas para conseguir trabalhar. A quantidade de pessoas que compartilharam seus problemas ao Paulista Elevator surpreendeu. Surpreendeu tanto que esta se tornou uma das publicações com o maior número de interações do perfil.

 

Acho que muitas coisas da rotina da advocacia dificilmente poderiam ser alteradas, como os prazos judiciais e eventuais prisões de cliente etc., o que pode e deve mudar é atmosfera que existe por trás da advocacia, especialmente em São Paulo e especialmente nos grandes escritórios. O ambiente da advocacia pode ser friendly, amistoso, agradável e, ao mesmo tempo, ser produtivo, construtivo e lucrativo para todos.

 

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Resultado da insatisfação generalizada é o turnover cada vez maior dos advogados, a alta rotatividade dos estagiários e as incontáveis e intermináveis cisões das grandes bancas.

 

Se começarmos a falar dos nossos amigos concurseiros, que vivem uma rotina incessante de estudos, alimentada por smarts drugs, como a Ritalina e o Vevanse, precisaríamos de uma tese de Doutorado. Tenho muitos amigos que eram contrários ao uso das drogas, mas que começaram a utilizá-las para não ficar atrás daqueles concurseiros que as utilizam. A epidemia é geral.

 

Mindfullness, gestão de pessoas, boa alimentação, cuidado com a saúde física, bons planos de saúde, um pouco mais de organização, meditação, yoga, ginástica laboral, alongamento, contratação de pacotes corporativos no GymPass, flexibilidade, entrega de frutas, assistência psicoterapêutica etc. Todas essas iniciativas podem ajudar as pessoas que estiverem doente. No entanto, uma boa conversa e um relacionamento positivo podem ser muito mais eficientes para a pessoa que estiver em depressão.

 

Que esse pequeno texto sirva de mensagem e que gere awareness aos amigos da comunidade jurídica do Brasil.

 

Para os escritórios, que possam se preocupar um pouco mais com gestão de pessoas e não apenas com a gestão de tarefas e trabalhos. Que organizem programas de bem estar aos advogados e para todos os funcionários. Que o tratamento possa ser cada vez mais humano, pensando na carreira e no futuro – longo prazo – das pessoas.

 

Para as empresas, contratantes dos escritórios, que comecem a exigir que seus escritórios prestadores de serviços comprovem que estão criando políticas e programas focados na saúde mental dos seus funcionários, comitês e conselhos para erradicação do assédio moral e, principalmente, dando atendimento e aconselhamento para os funcionários que estiverem doentes.

 

 

Giovani Ravagnani é mestre em Direito Processual pela Universidade de São Paulo. Membro do Instituto Brasileiro de Direito Processual e do Centro de Estudos Sociedade e Tecnologia da POLI/USP. Advogado especialista em resolução de conflitos.

 


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Sexta-feira, 2 de agosto de 2019
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