Nem puta, nem santa
Terça-feira, 6 de agosto de 2019

Nem puta, nem santa

Imagem: Cathal McNaughton/Reuters

 

Por Lígia Ignácio de Freitas Castro

 

 

Fui canonizada em 16/06/2016. A data é bonita, cheia de seis até combina com Santos Reis. Antes disso ninguém me notava, era apenas uma mulher comum e aparentemente emancipada, do século XXI. 

 

 

Eis que naquela data nasceu meu filho e com ele a língua afiada do mundo: Aonde ela vai? Quem será que está com o filho? Por que ela gritou com a criança?

 

A exigência em relação à minha condição de mãe foi tão assustadoramente preocupante para a sociedade, que eu cheguei à inevitável conclusão de que a partir do momento em que pari fui erguida à condição de Santa. 

 

Ser Santa não é tarefa fácil atualmente, se fossemos vistas bem humanas, a expectativa sobre a maternidade seria diferente.

 

Agora ser perfeita, quadradinha, feito um pote de margarina “sorrisos à mesa” é duro, duro feito uma pedra de gelo, que nos deforma e nos deixa engessadas, quando na verdade, nossa essência é livre como uma cachoeira.

 

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O passado explica os muros altos construídos sobre nós. De puta à Santa, a mulher passou por vários papéis de autoprivação e o fruto da mulher contemporânea (veremos) é o descompasso entre a conquista pela liberdade externa e a desconexão interna.

 

Começamos sendo coisa, a mulher era mercadoria, domesticada para servir o homem. 

 

Algumas culturas enxergavam na cultura feminina o pecado original (corpo sexuado) e a Igreja podia “castrar” a sexualidade feminina.

 

A sensibilidade e intuição também deveriam ser extirpadas, e inúmeras mulheres foram queimadas na fogueira feito bruxas.

 

As crianças também não eram dignas de qualquer consideração, sem acolhimento familiar ou assistência à saúde, morriam aos montes, pois suas mães não recebiam qualquer apoio na criação.

 

Preocupados com a mortandade infantil, a partir do século XVIII começaram a lançar os olhos para a proteção das crianças. E a solução passava pela construção da família ideal, inserindo a mãe como serva da família.

 

Nesse contexto, surgiu a figura da mãe santa, erguida à condição de ser humano capaz de criar filhos saudáveis.

 

Quanto mais perfeita era a mãe mais protegidos estariam seus filhos. A mãe Santa deveria renunciar à própria vida em prol da dos filhos, era um sacerdócio pela família.

 

Mas os ventos contemporâneos mudaram e as algemas femininas receberam chaves para a libertação: 1) as mulheres foram inseridas no mercado de trabalho, 2) os eletrodomésticos foram criados, otimizando o tempo despendido em casa, 3) o voto feminino passou a ser um direito, 4) o anticoncepcional foi lançado como símbolo da liberdade sexual, 5) a Lei Maria da Penha foi criada para conter casos de violência contra a mulher e etc.

 

O grito da independência foi lançado, o mundo abriu suas comportas para a revolução política, social, cultural e sexual feminina. 

 

Conquistamos liberdade no tempo e espaço, e hoje a maioria das mulheres (principalmente no ocidente) já são emancipadas.

 

No entanto, por que as mães ainda carregam a cruz da culpa materna? Porque a mãe santa persiste em existir dentro de cada uma de nós

 

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Convivemos com a necessidade diária de darmos satisfação de tudo, de nos desculparmos todo o momento, de irmos contra a nossa própria existência.

 

É exatamente neste ponto nevrálgico que deixamos as vozes dos outros entrarem em nossa mente. Damos passagem para os palpites alheios, porque estamos presas nesse padrão tóxico da perfeição (mulheres pedra de gelo)

 

A pedra atirada bate e ecoa em nós um barulho sem fim, e os outros passam a existir dentro de nós. Então, chegamos à conclusão de que o inimigo externo não mais existe: os outros somos nós.

 

Por isso, é urgente que nos transformemos em cachoeira, mulheres de nado livre ao encontro da nossa verdade, assim a pedra jogada pelo outro não bate em mim, mas atravessa minhas águas intactas e ilesas.  

 

Por isso, é também urgente entendermos que a revolução feminina foi prática, de fora para dentro e não de dentro para fora.

 

Não é simples estalarmos os dedos e mudarmos. A história nos mostrou que quanto mais nos controlássemos mais nos daríamos bem na sociedade. 

 

E seguimos o padrão direitinho: deixarmos de lado quem a gente é de verdade para nos transformarmos em quem deveríamos ser.

 

E foi assim que pouco a pouco evoluímos por fora e nos afastamos a cada dia da nossa essência de dentro.

 

No livro “Mulheres Que Correm Com Lobos”, da escritora Clarissa Pinkóla Éste, aprendemos que precisamos nos aproximar ao máximo do nosso instinto selvagem.

 

Selvagem não no sentido rudimentar, não precisamos deixar o salto e voltar às cavernas.

 

É necessário resgatar a energia vital instintiva que existe dentro de cada uma de nós.

 

A mulher tem ciclos menstruais, carrega um feto no ventre, dá a luz, amamenta; quer algo mais natural do que isso?

 

A mulher sabe quando é hora de plantar e sente quando é hora de colher, percebe quando algo precisa nascer, e pressente quando precisa deixar algo morrer.

 

E a mulher do século XXI deixa essa mulher que existe dentro dela viver?

 

Quando engravida foca no enxoval do bebê, quando o filho nasce se atenta ao que tá escrito na internet, nas redes sociais, na TV. 

 

Escuta tudo que os outros falam, e ela mesma fala o quê?

 

Nos momentos de desafio intuição, sexto sentido, sentimentos, pelo ralo se vão.

 

A pedra de gelo emoldada pela sociedade é tamanha que reflete em casa. 

 

Acostumadas a se aprisionarem para se defenderem, o resultado tem sido esconder até o prazer, prazer de cozinhar, cuidar do bebê, entram numa disputa com o parceiro pelo que cada um tem de fazer.

 

E de embate em embate nos separamos não do companheiro, mas de nós mesmas.

 

Talvez, se começássemos a fazer as coisas do nosso jeito, quem sabe o parceiro não passaria a fazer a parte dele por reflexo, de nos ver e ter vontade do prazer.

 

O nosso jeito é a nossa verdade, as energias primitivas do querer.

 

Sim, estamos fartas. Eu sei. Mas a pergunta que não quer calar é: há algum problema em ser simplesmente você?

 

Gosto de usar minha energia feminina para cozinhar, nutrir o outro me alimenta. Também gosto de usar minha energia masculina para trabalhar, sinto meus pés tocarem mais firmes sobre o chão.

 

Há tempos, deixei minhas algemas de lado. Mas vira e mexe me pego presa novamente.

 

Espero um dia nadar pelada numa cachoeira, para me sentir parte do mundo, e não refém. Nem puta, nem santa, o que me define só eu sei, mais ninguém.

 

 

Lígia Ignácio de Freitas Castro é escritora, Formada em Direito, pela Faculdade de Direito de Franca-SP. Atuou como advogada e, também, como conciliadora do Juizado Especial Civil de Ribeirão Preto. Pós-graduada em Direito Público pela Universidade Anhanguera. Titular do Cartório de Registro Civil de Igarapava –SP.

 


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