09 de agosto: Corumbiara – Reintegração de posse ou operação para massacrar o inimigo?
Quinta-feira, 8 de agosto de 2019

09 de agosto: Corumbiara – Reintegração de posse ou operação para massacrar o inimigo?

Imagem: Gerardo Lazzari

 

Por Cassiano Ricardo Martines Bovo

 

O caso Corumbiara é um caso bem típico porque põe o conjunto da sociedade organizada,  juízes,  políticos,  poder executivo,  poder legislativo,  tudo de um lado só, do lado do latifúndio, contra a organização dos camponeses” (Dom Tomás Balduíno).

 


[Nove de agosto]


Corumbiara, “interior do interior”, no dizer de João Peres
, Estado de Rondônia, retrato de um sistema que concentra a terra nas mãos de poucos, latifundiários privilegiados no período do regime militar e depois dele. O Lote 99 da Fazenda Santa Elina (apenas 500 hectares de vinte mil), no município de Corumbiara, se tornou um acampamento de sem-terra em 14 de julho de 1995; cinco dias depois uma operação de reintegração de posse com 40 policiais fracassa. Os fazendeiros da região não toleram. 

 

Corumbiara, “interior do interior”

Madrugada de 9 de agosto de 1995. Quase 200 policiais da PM (incluindo batalhões da região e COE – Companhia de Operações Especiais – de Porto Velho) mais os jagunços de Antenor Duarte do Vale, poderoso fazendeiro da região que deu suporte humano e material, junto a outros fazendeiros, adentram no Lote 99. As, aproximadamente, duas mil pessoas que lá dormiam acordaram abruptamente com os holofotes ofuscantes, as bombas, o gás lacrimogênio e os tiros. Foram pegas de surpresa. Diziam:

– O que aconteceu? E as negociações? E a trégua combinada? 

 

 

Maria dos Santos e seus filhos, Vanessa (seis anos) e Romerito (oito anos), acordaram sobressaltados, assustados com o barulho das bombas, ela pega Vanessa, embrulha-a num lençol e em meio à fumaça do gás correm em direção à cozinha coletiva, para onde acorrem muitas mulheres, a maioria colocando panos molhados nas bocas dos seus filhos. Ao perceber que os tiros estavam chegando mais perto, Maria sai em desabalada correria com seus filhos, em direção ao mato, Vanessa cai, sua mãe a puxa, ela diz que dói, Maria a pega nos braços, corre mais um pouco, atravessa um riacho e aí percebe que ela estava morta. Levou um tiro nas costas, atingindo o intestino e uma artéria; perdeu muito sangue. Ali perto, ajudando um ferido, morre também Nelci Ferreira, com dois tiros na cabeça.  

 

 

No alto de um morro, entre as raízes enormes de uma figueira entranhada na terra, alguns posseiros atiravam. Um grupo de policiais se volta para lá. Como chegar? Usaram as mulheres como escudo; elas sofreram muito, em meio aos xingamentos dos policiais. Alzira Monteiro foi uma delas; o soco que levou na boca quebrou sua dentadura. Os policiais diziam:

– Diga para eles se entregarem, se não vocês vão morrer!

Os atiradores param. José Marcondes da Silva e Ercílio Oliveira de Campos, já rendidos, são executados. O primeiro teve a cabeça completamente estraçalhada; o segundo, levou 19 tiros na cabeça, coração e pulmões. As mulheres não mais esqueceram o que viram. 

 

Outros posseiros foram amarrados e levados para baixo, passando pelas torturas que vários outros sofreram. E os policiais perguntavam: 

– Quem são os líderes? Fala ou eu mato! 

 

Odilon Feliciano morre com um tiro na nuca, ao acudir um companheiro baleado. Ari Pinheiro dos Santos tomba com quatro tiros nas costas e dois nas pernas. Alcindo Correia da Silva leva um tiro no pulmão. Todos executados. 

 

No fogo cruzado morrem o Tenente Rubens Fidelis Miranda e o Soldado Ronaldo de Souza, com tiros na cabeça e pescoço. 

 

Enio Rocha Borges, baleado no estômago, morreu no hospital. Oliveira Inácio Dutra e Jesus Ribeiro de Souza morreram dois meses depois. Darli Martins Pereira nunca mais foi encontrado. 

 

Dentre os mortos um homem identificado apenas como H05; aparentando 30 anos, 1,80m, camisa amarela sob uma jaqueta preta, com lesões no cérebro e medula. Quem era? Nunca se descobriu. 

 

Posseiros foram obrigados a se arrastar em meio a terra e sangue, um por cima do outro, em terreno abrupto; alguns tiveram que comer até os miolos de companheiros mortos e carregar os defuntos. Vários deles foram pisados, policiais e jagunços pulavam sobre seus corpos.   

 

 

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Foram levados para o campo de futebol do assentamento ao lado: o Adriana, que parecia um campo de concentração, com mais de 300 posseiros, mãos para trás, cabeça baixa, sob os olhares de policiais e jagunços. Novamente são chutados, levam socos; no canto, debaixo de uma árvore, oito corpos de sem-terra, corpos que chegando ao necrotério de Vilhena foram enterrados como indigentes. 

 

Em meio àqueles homens estava Sérgio Rodrigues Gomes. Policiais e pistoleiros mandaram-no colocar as mãos nas costas e o rosto no chão, tomou muitos chutes. Em seguida, à vista dos comandantes, retiram-no de lá e o colocam numa picape, cedida pelos fazendeiros; 14 dias depois seu corpo, com três tiros abaixo do olho direito, apareceu boiando no Rio Tanaru, a 70 kms dali. 

 

Os muitos relatos de torturas sofridas por homens e mulheres são chocantes. Muitos com graves sequelas físicas até hoje, além das subjetivas, que nunca se apagam. Não só o que sofreram, mas os que viram. 

 

“Não é preciso sair a campo para procurar provas de tortura. Basta ir aos autos, lá estão depoimentos claros e quando se conhece os camponeses que lá estiveram se depara também com as provas vivas das torturas que estão nos seus corpos e nas suas lembranças. Messias tem um projétil alojado no pescoço, junto à coluna. Antônio Urias anda arrastando uma perna. Ezequiel tem medo de tudo. Sinval tem conjuntivite crônica. Adilson sente dores quando anda e sente cansaço quando fala ou canta, tosse, tem pesadelos. Clemente ficou surdo. Assis não enxerga com o olho esquerdo. Genaro tem dores toráxicas. Manoel tem artrose de coluna cervical. Edson sente dores no peito que o impedem de trabalhar. Outro Edson tem otite crônica etc. E o Darli ainda não voltou pra casa… E Dona Madalena ainda espera notícias do filho ‘desaparecido’…”

 

"Fomos humilhados. Era sangue para todo lado."

“Fomos humilhados. Era sangue para todo lado. Um amigo levou três tiros na perna, de covardia, pois já estava rendido. Achei que fosse morrer. No mato, eles nos batiam e torturavam. Todo mundo ficou deitado de cara para o chão e se levantasse a cabeça era cacete. O chão deles éramos nós. Eles passavam por cima da gente’, relata Jerônimo”.    

 

Ao lado do campo de futebol no assentamento Adriana, crianças e mulheres amontoadas em caminhões, pedindo água sob o sol quente que só o corumbiarense conhece; pedido que só foi atendido com a insistência do pessoal da imprensa que, ao chegar na tarde do dia 9, acabou fazendo cessar as atrocidades, ao menos naquele local. 

 

Os policiais queimaram todo o assentamento onde os fatos se desenrolaram, o que impossibilitou o trabalho de perícia, crime de destruição de provas. No dia seguinte, Dom Geraldo Verdier, bispo de Guajará-Mirim, em meio às cinzas e materiais queimados recolheu pedaços de ossos. A análise realizada na Unicamp, pela já então controvertida equipe do perito Fortunato Badan Palhares, resultou que se tratava de ossos de animais; já a do perito Michel Durigon, da Faculdade de Medicina de Paris, resultou tratar-se, com certeza, de humanos.  

 

Os posseiros que estavam no campo de futebol foram levados em caminhões para Colorado do Oeste, amontoavam-se entre os vários feridos. Foi no caminhão que Moacir Camargo Ferreira, o Polaco, levou um tiro de um policial, depois de carregar vários corpos.

 

Sofrimento atroz passou Claudemir Gilberto Ramos, o Pantera, um dos líderes da ocupação, que, devido ao seu estado deplorável, fruto dos espancamentos sofridos, teve que ser levado ao Hospital de Vilhena, pois, além de tudo, apresentava traumatismo craniano. De lá teve que ser transferido para o Hospital de Porto Velho, dada a gravidade da situação. Nos dois locais, tentaram matá-lo, o que só não aconteceu em função da intervenção da equipe médica e das vigílias realizadas por ativistas sem-terra. Conseguiu se salvar devido à transferência para o Hospital das Clínicas de São Paulo. Claudemir e Cícero Pereira Leite, outro líder, foram condenados, junto a três policiais; julgamento que causou comoção nacional pela farsa montada. 

 

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Os homens foram levados presos, uma parte foi para o ginásio de esportes e outra para a delegacia de Colorado do Oeste, e lá as torturas continuaram. José Pereira, o Zezão, que o diga. Tiravam-no da cela, batiam, davam choque. 

 

Na noite de 16 de dezembro do mesmo ano do massacre, o vereador Manoel Ribeiro (PT), conhecido como Nelinho, é executado com cinco tiros em frente à sua casa, em Corumbiara. O vereador Percílio Andrade (PMDB) foi incriminado como mandante. Nelinho era uma voz dos posseiros no legislativo da cidade; estava sempre nos assentamentos e participou de negociações na Santa Elina. Era constantemente ameaçado.  

 

Para se entender como se chegou a essa situação (sobretudo o histórico de conflitos fundiários na região e os antecedentes de Santa Elina) e todos os desdobramentos legais e jurídicos desse caso, inclusive o processo junto a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, recomendo a leitura dos excelentes Corumbiara: caso enterrado, de João Peres e a tese Corumbiara: O massacre dos camponeses. Rondônia, 1995, de Helena Angélica de Mesquita (já aqui mencionados), além do documentário Corumbira: o massacre dos camponeses, da mesma autora

 

Os acontecimentos antes, durante e, sobretudo, depois do massacre, deixam muitas perguntas sem respostas, como por ex.:

“Quem cometeu os crimes? Quais foram as pressões externas que levaram a PM a agir daquela maneira? Aquele foi um conflito ou uma chacina? Quem deveria ser responsabilizado?”

  

 

Cassiano Ricardo Martines Bovo  é doutor em Ciências Sociais, mestre e graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Organizador Nacional Estratégico da Anistia Internacional Brasil, foi membro de Conselho Superior e coordenador de Departamento de Pesquisa de IES. 

 


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Notas:

[1] Mesquita, Helena Angélica de. Corumbiara: O massacre dos camponeses. Rondônia, 1995. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação de Geografia Humana do Departamento de Geografia FFLCH/USP, 2001, p. 7 e 169.

[2] Peres, João. Corumbiara: caso enterrado. Santo André, SP: Editora Elefante, 2015, p. 187. 

[3] Mesquita, op. cit., p. 190. 

[4] http://g1.globo.com/ro/vilhena-e-cone-sul/noticia/2015/08/testemunhas-relembram-massacre-de-corumbiara-cenas-de-guerra.html

[5] Este artigo se baseou nessas obras, além de algumas matérias da mídia. 

[6] Peres, op. cit., p. 125.

Quinta-feira, 8 de agosto de 2019
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