A negação da fome
Segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A negação da fome

Imagem: Marcos Corrêa / PR

 

Por Carlos Eduardo Araújo

 

Bolsonaro, como o Diabo do conto de Machado de Assis, é o apóstolo da negação. Nega, nega, nega…

 

 

Um dos mais recentes disparates, dentre uma centena de outros, saídos da boca escatológica do senhor Bolsonaro, foi sua declaração de que “não existe fome no Brasil”. Tal declaração causou imediata estranheza e perplexidade, seguida de indignação e revolta em todo o Brasil, com reflexos mundo a fora. Fora dada em uma coletiva, destinada à imprensa internacional. Não divulgou, no entanto, o senhor presidente, dados que corroborassem sua faustosa constatação. Como se a realidade devesse se vergar à vontade de sua excelência. Os fatos não importam para ele. Como diz Eliane Brum, Bolsonaro é o perverso da autoverdade. [1]

 

Bolsonaro, como o Diabo do conto de Machado de Assis, é o apóstolo da negação. Nega que criticou os nordestinos, nega que vai acabar com os 40% do FGTS (nas dispensas sem justa causa), nega o IBGE (quando esse órgão aponta para o aumento do número de pessoas desempregadas no país, durante o seu governo), nega o INPE (quando o órgão assevera o aumento do desmatamento na Amazônia, em 2019), nega a existência do aquecimento global, nega a invasão de terras indígenas por garimpeiros, provocando a morte de um índio, no Amapá, nega que houve ditadura militar no Brasil. Obviamente não fiz um rol exaustivo dos inumeráveis repúdios de Bolsonaro à realidade, quando à mesma não lhe convém.

 

Vou me ocupar de uma das negativas, dentre tantas outras, materializada na seguinte afirmação: “não existe fome no Brasil”. Como se a negação tivesse a proeza de fazer desaparecer a vigente realidade de espoliação neoliberal, que expõe sua face mais abominável, gerando a indigência, o desamparo, a escassez e a mazela social em que o Brasil está mergulhado, com milhões de desempregados e uma aguda crise econômica e social.

 

Essa desafortunada declaração invocou em minha memória um autor e sua obra prima: Josué de Castro e o seu livro “Geografia da Fome”, cuja primeira edição veio a lume em 1946. É uma obra que pioneiramente tratou, com um olhar multidisciplinar, a complexa problemática da fome que, em pleno século XXI, ainda é premente e urgente, no Brasil e no Mundo.

 

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Como bem disse Francisco Bandeira de Melo “Josué de Castro foi, antes de tudo, um humanista. Sua extraordinária inteligência, reverenciada nos quatro cantos do mundo, se estendeu vorazmente pelas searas da geografia, sociologia, filosofia, diplomacia, magistério, política, literatura e, era grande a sua inquietação, mostrou também uma certa fome de cinema.” [2]

 

Josué de Castro dedicou toda a sua vida a conhecer, analisar e diagnosticar essa terrível mazela que aflige o Brasil, desde os tempos mais remotos de sua existência, sem que tenhamos conseguido vencê-la ainda hoje. Segundo constatou:

 

“A fome não é um fenômeno natural e sim um produto artificial de conjunturas econômicas defeituosas. Um produto da criação humana e, portanto, capaz de ser eliminado pela vontade do próprio homem. A vitória contra a fome constitui um desafio à atual geração – como símbolo e como um signo da vitória integral contra o subdesenvolvimento.” [3]

 

Josué de Castro é um dos primeiros intelectuais a ver a fome sob uma perspectiva social. Nasceu no Recife, em 1908, e faleceu em Paris, em 1973, durante o exílio imposto pela ditadura militar brasileira. Começou o curso de Medicina na Bahia e foi concluí-lo no Rio de Janeiro. No entanto, foi no Recife que começou a trabalhar como médico, onde teve seu primeiro contato com a questão da fome. Nas palavras de Castro:

“Foi com estas sombrias imagens dos mangues e da lama que comecei a criar o mundo de minha infância. Nada eu via que não me provocasse a sensação de uma verdadeira descoberta. Foi assim que eu vi e senti formigar dentro de mim a terrível descoberta da fome. Da fome de uma população inteira escravizada à angustia de encontrar o que comer. Vi os caranguejos espumando de fome à beira da água, à espera que a correnteza lhes trouxesse um pouco de comida, um peixe morto, uma casca de fruta, um pedaço de bosta que eles arrastariam para o seco matando a sua fome. E vi, também, os homens sentados na balaustrada do velho cais a murmurarem monossílabos, com um talo de capim enfiado na boca, chupando o suco verde de capim e deixando escorrer pelo  canto da boca uma saliva esverdeada que me parecia ter a mesma origem da espuma dos caranguejos: era a baba da fome.” [4]

 

A fome é a face mais horrenda e desprezível da desigualdade social, que historicamente acomete o Brasil. É um dos reflexos mais indecorosos da brutal e crônica concentração de renda, existente na sociedade brasileira, gerando um contingente de milhões de deserdados e excluídos. “Na nossa sociedade (e em outras, semelhantes) a fome se concentra em pessoas condenadas à incerteza de sobreviver desde a mais tenra idade.” [5]

 

Maria do Carmo Soares de Freitas, em um trabalho que causa grande impacto no leitor, dotado de mínima sensibilidade social, ao falar da miséria e da fome, que cotidianamente assaltam os moradores de um bairro pobre e violento de Salvador, Bahia, nos diz que “Falar deste tema é discorrer sobre uma modalidade de genocídio, uma realidade em que a cena da morte está predita pela falta material e destinada ao cotidiano extremado de pobreza e violência. Situada no umbral entre vida e morte, a fome é difícil de ser descrita e compreendida pelos que não a vivenciam.” [6]

 

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A palavra fome está associada ao aparecimento da desigualdade social no mundo. Ela deriva do latim “fame”, que por sua vez provém da palavra “famulus”, escravos, servos. O vocábulo fome nos remete, portanto, a ideia de servidão, escravidão e pobreza. 

 

Segundo dados do Ministério da Saúde, de 2017, morrem de fome no Brasil, a cada dia, uma média de 15 pessoas. “A desnutrição é a expressão corporal da fome”, afirma a professora Patricia Jaime, da Faculdade de Saúde Pública da USP. “A morte por desnutrição é um extremo, mas a gente tem estágios de desnutrição e estágios de insegurança alimentar nutricional. A gente não quer só que as pessoas não morram de fome, quer que as pessoas não vivam com fome”, diz. [7]

 

Estima-se que, no mundo, mais de um bilhão de pessoas vivam famintas. Esse número equivale a praticamente a toda população da América ou partes significativas da Europa e África. Como Bolsonaro vive em outro planeta, tudo isso lhe passa despercebido e ninguém, na corte de bajuladores que o cercam, está disposto a dizer que o rei está nu.

 

Há uma obra tocante, pelo testemunho carregado de privações e sofrimento, que se situa entre a ficção e a realidade, tendo como protagonista, que perpassa todas as suas páginas, a fome. Uma mulher negra, pobre e semi-escolarizada, mãe de três filhos, relata seu cotidiano de miséria, penúria e trabalho, catando papéis e latinhas, sobrevivendo com as migalhas que a cidade estava disposta a lhe dar. Ela foi anotando, na forma de um diário, sua rotina de carência, penúria e humilhação. Seu nome: Carolina Maria de Jesus, seu livro: Quarto de despejo: diário de uma favelada, publicado em primeira edição, em 1960, do qual pinço o seguinte trecho:

“24 de julho Como é horrível levantar de manhã e não ter nada pra comer. Pensei até em me suicidar. Eu me suicidando é por fim a deficiência de alimentação do meu estômago. E por infelicidade eu amanheci com fome. Os meninos ganharam uns pães duros, mas estavam recheados de pernas de baratas. Joguei fora e tomamos café.” [8] Segundo Carolina, “a fome é amarela”.

 

O libelo famélico de Carolina de Jesus mereceu a atenção de Josué de Castro, quando exercia o mandato de Deputado Federal pelo Estado de Pernambuco, na Câmara dos Deputados, em 1960:

“Quarto de despejo, mostra bem que trata da miséria reinante no país. E não trata dessa miséria como demagogia nem mesmo como interpretação filosófica ou sociológica, mas como um grito de protesto contra essa realidade que tem sido tamponada, escondida, escamoteada por aqueles que se julgam patriotas por encobrir nossa miséria e deixar que ela se prolongue indefinidamente, contra os interesses do nosso povo. Presto homenagem a essa autora, a essa pobre mulher que viveu a fome e que sofreu a fome, não cerebralmente, como interpretação, mas que sofreu na sua própria carne a fome no seu estômago e não no seu cérebro.” [9]

 

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Quantas Carolinas perambulam pelas ruas de nossas cidades, ainda hoje, sem que as percebamos, sem que seus martírios nos comovam? Sem que seus dramas esbofeteiem nossas faces? Esses seres humanos, que carregam sua dor e sua fome, são invisíveis a Bolsonaro, perverso e insensível, confortavelmente encastelado em seu palácio presidencial, o qual usurpou mediante uma eleição ilegítima. 

 

O que faz com que o homem bem alimentado não se aperceba da fome alheia? O que o faz escolher não ver ou mesmo ignorar tal flagelo social? Maria do Carmo Soares de Freitas segure que:

“Em geral, a tendência do homem bem alimentado de esquecer o sofrimento da fome do outro passa pela não aceitação dessa realidade, ou porque o faz sentir-se moralmente culpado em não contribuir para remover tal absurdo, ou, mais provavelmente, porque (ele, o bem alimentado) sustenta uma ideologia que o limita a enxergar a fome em outro corpo que não o seu adotando uma autodisciplina que o faz distanciar-se de questões que possam afetar seus acordos sociais.” [10]

Assomam à minha mente dois romancistas brasileiros, expoentes da literatura regional e nacional, nordestinos ambos, a cearense Raquel de Queiroz e o alagoano Graciliano Ramos. São obras que têm por pano de fundo a injustiça social.

 

Raquel de Queiroz, em sua obra de estréia, antes de completar 20 anos de idade, faz uma crônica enxuta e poética da devastadora seca que assolou o nordeste em 1915, no seu premiado romance “O Quinze”. Nesse romance, a fome tem um papel destacado:

 

“Vicente contava agora a história de uma mulher conhecida que endoidecera, quando viu os filhos morrendo à falta de comida. Dona Inácia observou: – Talvez tenha enlouquecido também de fome. Fome demais tira o juízo.” [11]

 

“Vidas Secas” é a obra clássica de Graciliano Ramos. Foi publicada em 1938. A obra deve muito às vivências do escritor no árido sertão nordestino. Retrata a saga de uma família de retirantes, Fabiano, sua mulher Vitória, os dois filhos (simplesmente referidos como o filho mais velho e o filho mais novo) e seus animais antropomorfizados, a cachorra Baleia e o papagaio, que são a representação de um contexto de miséria e injustiça social que historicamente afligiu o nordeste brasileiro, como várias outras regiões do Brasil. 

 

Fome faz uma vítima entre os membros da assinalada família, o papagaio:

“Ainda na véspera eram seis viventes, contando com o papagaio. Coitado, morrera na areia do rio, onde haviam descansado, à beira de uma poça: a fome apertara demais os retirantes e por ali não existia sinal de comida.” [12]

 

No Brasil, ao longo de toda à sua história, as políticas governamentais, nunca deram respostas significativas à questão da fome. As políticas de combate à fome e à desnutrição sempre foram dispersas, sem definições claras. Um momento importante, do enfretamento da questão, se deu no início do governo de Luis Inácio Lula da Silva, com o denominado “Fome Zero”. O mesmo acabou sendo incorporado pelo programa bolsa família, ficando, assim, um tanto ofuscado o combate mais direto ao problema da fome. Ocorre que nos governos pós-golpe parlamentar de 2016, os programas sociais estão sob sérios riscos de continuidade, quando não de extinção.

 

Realmente não existe fome em nosso país, ao menos no mundo da autoverdade, em que vive escudado o senhor Bolsonaro!

 

 

Carlos Eduardo Araújo é professor Universitário e mestre em Teoria do Direito (PUC-MG).  

 


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NOTAS:

[1] BRUM, Eliane. Doente de Brasil. El País, 01/08/2019.

[2] MELO, Francisco Bandeira de. Jornal da Semana (Recife) 4/11/1972. In: CASTRO, Josué de: série perfis parlamentares. Org- Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações. Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados, 2007.

[3] CASTRO, Josué de: série perfis parlamentares. Org- Câmara dos Deputados, Coordenação de Publicações. Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados, 2007.

[4] SANTOS, Alice Nayara dos. Fome, Alimentação e Educação: Proposta educativa na obra de Josué de Castro. Dissertação (Mestrado em Educação Brasileira) – Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2012.

[5] FREITAS, Maria do Carmo Soares de. Agonia da Fome. Rio de janeiro: FIOCRUZ; Salvador: EDUFBA, 2003. 

[6] FREITAS, Maria do Carmo Soares de. Agonia da Fome. Rio de janeiro: FIOCRUZ; Salvador: EDUFBA, 2003. 

[7] AMÂNCIO, Thiago. Em média, 15 pessoas morrem de desnutrição por dia no Brasil. Folha de São Paulo, 19/07/2019.

[8] JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2001.

[9] CASTRO, Josué de: Diário do Congresso Nacional, Seção I, de 26/11/1960, p. 8679-80. Série perfis parlamentares. Org. Câmara dos Deputados. Coordenação de Publicações. Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados, 2007.

[10]  FREITAS, Maria do Carmo Soares de. Agonia da Fome. Rio de janeiro: FIOCRUZ; Salvador: EDUFBA, 2003.

 [11] QUEIROZ, Raquel de. O Quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.

[12] RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. São Paulo: Record, 1993.

Segunda-feira, 12 de agosto de 2019
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