Quando os fatos valem menos que as crenças pessoais
Segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Quando os fatos valem menos que as crenças pessoais

Imagem: Olavo de Carvalho, astrólogo (Montagem Justificando)

 

Por Matheus Silveira de Souza

 

“Que tempos são esses, em que temos que defender o óbvio” diria Bretch, ainda no século XX. Dada as várias mudanças de lá pra cá, nem a mente mais imaginativa poderia supor um ambiente político social em que o óbvio já não fosse tão óbvio assim. Se eu tivesse a audácia de alterar a frase de Bertolt Bretch, diria: “que tempos são esses, em que o óbvio não possui mais tanta obviedade”. 

 

 

Muitos afirmam que a conquista de direitos se dá como uma evolução da sociedade, por meio de disputas entre grupos antagônicos. Uma transposição de sucessivas etapas civilizatórias, que com muita luta, sangue e reivindicação, acaba tornando direito o que um dia foi apenas pretensão. Se hoje é óbvio que toda mulher tem direito ao voto, essa garantia não era tão evidente assim em 1930, período “republicano” que permitia o voto apenas aos homens e alfabetizados. O próprio voto aos analfabetos só se tornou óbvio em 1985, com uma emenda constitucional. 

 

Pois bem. Com o governo Bolsonaro e o fortalecimento da mentalidade conservadora, muitos dos nossos consensos, que pareciam ser pouco discutíveis do ponto de vista ético, hoje encontram inimigos em frases toscas e carregadas de ódios. Homenagear um torturador, condenado pelo próprio Estado, já não é unanimemente reprovável. Proteger as crianças do trabalho infantil ou punir a exploração do trabalho análogo à escravidão já não é tão óbvio assim. Dizer que não estupraria uma mulher porque ela é feia, não é uma fala que assusta a todos no Brasil atual. Afirmar que o nazismo é de direita já não é um consenso. Dizer que a terra é redonda…bom, deixa pra lá.

 

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Essa quebra de consenso sobre um patamar mínimo de civilidade parece estar apoiada na supervalorização das crenças pessoais em detrimento da realidade dos fatos. Vale mais o que eu quero acreditar e tem menos valor o que a realidade me mostra. O termo pós verdade parece englobar o assunto que pretendemos abordar. 

 

A pós verdade, enquanto termo, nunca pareceu ter tanta importância, se considerarmos que foi eleita a palavra do ano, em 2016, pelo Dicionário da Oxford. Embora o termo tenha sido utilizado já em 1992, o seu uso foi intensificado recentemente, atingindo um crescimento de 2.000% em 2016. Para o Dicionário de Oxford essa palavra pode ser definida como: “um substantivo que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos tem menos influência em moldar a opinião pública que apelos à emoção e crenças pessoais” A ascensão da palavra ocorreu, paralelamente, às eleições de Trump nos Estados Unidos e ao Brexit no Reino Unido.

 

Em terras brasileiras, a disseminação das fake news teve inegável impacto no resultado das eleições, passando pela divulgação de informações pouco verossímeis como o kit gay e uma mamadeira um tanto peculiar. O crescimento das redes sociais, como Facebook e WhatsApp, acabou intensificando a propagação de conteúdos falsos e diminuindo o espaço da imprensa enquanto fonte de informação confiável. Se antes você se informava por um jornal, escrito por alguém cujo rosto você sequer viu, agora você pode se (in)formar pelas notícias transmitidas por aquele tio boa praça ou pelo primo piadista da família. Ora, por que pessoas tão legais, pelas quais você nutre tanto afeto, iriam lhe transmitir uma mentira?

 

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É evidente que os algoritmos das redes sociais, que criam bolhas e conectam pessoas com opiniões parecidas, também são um empecilho para a construção de um diálogo plural e democrático. Um esquecido diálogo, em que opiniões divergentes são contrapostas e permitem que os indivíduos extraiam uma síntese de pensamentos antagônicos. É muito mais cômodo – tanto à direita quanto à esquerda – falar apenas com quem pensa igual a mim. Como já dizia Caetano: “Narciso acha feio o que não é espelho”

 

O leitor mais cético, possivelmente, deve estar bradando teses sobre a vida ser uma questão de interpretação. Caro leitor, a própria interpretação parte da escolha de pontos verossímeis, que possuam um mínimo de respaldo na realidade. Acreditar em materialidades que só existem na cabeça de quem a pensa não chama interpretação, mas alienação.

 

Caminhamos por uma estrada conturbada, em que até dados oficiais sobre o desmatamento na Amazônia são desacreditados por próprios representantes do Estado. Se a taxa de desemprego não faz bem para a popularidade do meu governo, é simples: basta eu confrontar, de forma irresponsável, a veracidade dessas estatísticas. A reprodução de mentiras e as investidas para desacreditar dados oficiais parecem constituir uma estratégia central no desgoverno Bolsonaro. Declarar absurdos diariamente também pode ser uma boa estratégia para desviar a atenção dos desmontes – também diários – que ocorrem com as políticas sociais no Brasil.

 

É no mínimo paradoxal como na era das tecnologias da informação tenhamos a desinformação tão presente em nosso dia a dia. Será que a idade da razão – se é que já existiu – foi substituída pela era da emoção? O ser humano racional foi metamorfoseado em um ser humano emocional? Devemos, então, parar de falar ao cérebro e focarmos na interlocução com os afetos? Será possível falarmos, conjuntamente, aos afetos e à razão? A verdade, atualmente tão maltratada, já não tem muita importância para a formação da opinião pública?

 

As soluções para as crises políticas e sociais não se encontram prontas, guardadas em alguma fórmula à espera da descoberta. De outro modo, tais soluções devem ser construídas, progressivamente, pelos próprios indivíduos que vivenciam essas épocas, com uma face voltada às cicatrizes do passado e outra face encarando o projeto de sociedade que queremos para o futuro. Quem sabe, assim, palavras como democracia, diálogo, empatia e igualdade voltem a encontrar eco nas mentes, nos afetos e na realidade.

 

 

Matheus Silveira de Souza é mestrando em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo (USP). Professor de Teoria do Estado.

 


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Notas

[1] NEXO. “ O que é pós verdade? A palavra do ano segundo a Universidade de Oxford”, de 16 de novembro de 2016

[2] EL PAÍS. “Governo contesta INPE e anuncia licitação para nova medição de desmatamento”, de 02 de agosto de 2019

[3] FOLHA DE SÃO PAULO. “Ao falar de desemprego, Bolsonaro ataca IBGE e erra três vezes em menos de 1 minuto”, de 03 de abril de 2019.

Segunda-feira, 12 de agosto de 2019
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