Niilismo, mal-estar na política e na economia
Terça-feira, 13 de agosto de 2019

Niilismo, mal-estar na política e na economia

Imagem: Hadi Karimi

 

Por Sandro Luiz Bazzanella

 

Ni.i.lis.mo (nì) s.m.(o) 1. (…) descrença total e absoluta. 2. Filosofia Doutrina segundo a qual nenhum dos valores existentes tem fundamento e nada pode ser conhecido ou transmitido. 3. Filosofia Rejeição de todas as distinções em valores morais ou religiosos e disposição em repudiar todas as teorias prévias de moralidade ou crença religiosa; rejeição total da autoridade, seja ela exercida pela família, pela Igreja ou pelo Estado. 4. Filosofia Crença em que não há nenhum significado ou propósito na existência. 5. Política Doutrina política segundo a qual todas as instituições sociais, políticas e econômicas precisam ser completamente destruídas, a fim de dar lugar a novas e aperfeiçoadas instituições.

(Grande Dicionário Sacconi da Língua Portuguesa).

 

Na filosofia, Nietzsche foi um dos pensadores que mais intensamente refletiu o niilismo presente na civilização ocidental, reconhecendo sua intensificação na modernidade a partir da morte de deus e, anunciando sua condição permanente e incômoda na contemporaneidade. Para o filósofo dionisíaco, o niilismo se apresenta como percepção de ausência de sentido e finalidade nos mais diversos âmbitos da vida humana e da sociedade. 

 

Na perspectiva do filósofo, o niilismo assume duas variáveis correlacionadas. Num primeiro momento pode se apresentar como niilismo passivo. Expressão do cansaço diante da derrocada das grandes narrativas sejam elas: religiosas, políticas e, sociais que conferiam sentido e finalidade à vida e ao mundo que a acolhia. O niilista passivo retira-se exausto, desanimado da praça pública. Não há mais o que fazer. Ensimesma-se, privatiza-se, economiza as energias para alongar a sobrevivência em sua cotidianidade. Noutra perspectiva, o niilismo pode se apresentar na forma ativa. Se deus está morto; se as ideologias ruíram; se a democracia representativa de massas apresenta-se na forma rasteira da opinião pública; se a política se apresenta desprovida de poder suficiente diante dos imperativos da economia, trata-se de reconhecer na ausência de sentido o próprio sentido da vida e, do mundo. O niilismo ativo permite reconhecer a condição trágica da vida e, do mundo e, mesmo assim, procurar a partir desta condição transformar a vida numa obra de arte.

 

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Nietzsche argumentava nos anos 80 do século XIX, que o niilismo sempre acompanhou a caravana civilizatória a certa distância. Porém, na modernidade ele se apresenta na soleira da porta das casas e, nos séculos vindouros, entrará definitivamente nos lares e na vida dos indivíduos promovendo o cansaço existencial, a apatia, o insulamento dos indivíduos, a privatização da praça pública. Nietzsche esclarecia que diante da morte de deus, e, com ele as narrativas valorativas que conferiam sentido à existência, fez com que a modernidade elegesse novos deuses, entre eles a ciência, o Estado e a economia. Afinal matamos deus, mas não conseguimos nos livrar de seu cadáver. Porém, na contemporaneidade a ciência não alcança de forma suficiente a condição de divindade ao ter que conviver com os discursos do senso comum, da teologia, entre outros. O Estado também não cumpre de forma suficiente a condição de ente transcendente na medida em que cumpre a função de instrumento de classe. Mas, a economia apresenta-se como entidade absoluta, inquestionável, opera por meio do imperativo da obediência. A contragosto de fundamentalistas e panfletários, tudo indica que Marx tinha razão, quando anunciava em meados do século XIX, que a base material (economia) constitui a infra-estrutura social. 

 

Assim, o niilismo contemporâneo se move numa condição ambivalente, pois não se expressa plenamente como cansaço, nem mesmo como condição trágica e, portanto criativa diante da vida e, da existência. Esta condição intermediária entre os opostos se expressa na forma difusa do mal-estar civilizatório em curso. Nesta direção, uma das variáveis compreensivas do mal-estar foi magistralmente situada e analisada pela politóloga alemã Hannah Arendt (1906-1975) na obra: “A condição humana”. Nesta obra, Arendt demonstra que na modernidade a economia adentra pela praça pública, assume a gestão da vida biológica dos indivíduos e da população. No mundo antigo e, mesmo medieval a economia ocupava espaço limitado da produção e manutenção da mera vida biológica, uma vez que vida qualificada constituía-se no exercício da liberdade no espaço comum, no âmbito público, na polis. Nesta direção, em texto recente, o filósofo italiano Giorgio Agamben (1942…) anuncia: “deus não morreu, transformou em dinheiro”. Transmutou na forma da economia financeirizada. Exige dos indivíduos, culto diário na forma do crédito e do débito. Quanto aos povos e países que não lhe prestarem o culto devido remunerando generosamente sua ação especulativa estão condenados à estagnação, ao definhamento, ao atraso, senão a miséria.

 

Sob tais pressupostos, intensifica-se o mal-estar civilizatório, manifestação da condição ambivalente do niilismo vicejante e, decorrente da imposição de culto permanente, sem tréguas a um deus (economia financeirizada), que a despeito de suas exigências não garante a salvação, senão uma mera vida. Sobrevivência submetida à lógica da produção e do consumo, do crédito e débito. Nesta religião endividar-se é demonstração de fé (do latim fides = crédito), de fidelidade aos seus dogmas. Nestas condições, o mal-estar se expressa em dois níveis distintos, mais indissociáveis.

 

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No nível individual, o mal-estar se apresenta no insulamento cada vez maior dos indivíduos. Há cada vez menos possibilidade de pensar utopias societárias que possam orientar a ação comum. Aliás, diante das verdades absolutas emanadas da economia financeirizada, pensar é um pecado mortal. O mandamento pode se expressar nas seguintes variáveis: “não pense, produza”; “não pense, consuma”; “não pense, curta”. Mesmo diante de tais imperativos, os ascetas vinculados a liturgia da financeirização proferirão em alto e bom tom: “Mas os indivíduos são livres para fazer suas escolhas”. De fato, podem fazer as escolhas definidas previamente como as melhores para eles. Afinal, o absoluto, o transcendente, está vendo e ouvindo tudo a todo o momento. E, o faz na atualidade por meio da plena vigilância e do pleno controle dos gostos, das preferências, dos sentimentos dos indivíduos. Esta tarefa é a ininterrupta tarefa dos algoritmos, dos robôs, dos mecanismos de coleta de informações presentes em telefones móveis, redes sociais, internet, entre outras variáveis.

 

No nível social e público, o mal-estar civilizatório se desdobra em várias direções. No avanço galopante da sociedade da ignorância que conforma a opinião pública suporte da democracia representativa de massas. Radicalismo, xenofobia, preconceito, agressividade e expressões de ódio são algumas de suas formas de manifestação. Na manifestação de governantes que se anunciam de “direita”, manifestando opiniões pessoais sobre questões públicas, a partir do regime discursivo de pós-verdade afirmando posições para no momento seguinte voltar atrás em função da repercussão pública, de difusos interesses estratégicos. No retorno do nepotismo. No desprezo pelo conhecimento científico. Na desconsideração de questões sensíveis socialmente como a miséria, a fome de parcelas significativas da população mundial. Na ausência de compromisso com as questões ambientais. Na disseminação de teorias da conspiração elegendo o inimigo a ser batido, geralmente a esquerda, o socialismo, os vermelhos, os amarelos. Todas estas excrescências políticas veiculadas sob o manto da honestidade do governante. 

 

Aqui é preciso chamar atenção que é constitutivo da tradição política ocidental o fato de que exercer o governo implica ao governante observar o rito que o cargo público exige diante do interesse público, da manutenção do espaço comum. Mas, também cabe reconhecer nesta tradição, que governantes populistas, déspotas, ditadores, e, outros desvairados e deslumbrados com o poder, desconsideram tais exigências e ritos no governo da coisa pública. Ainda nesta tradição, pós-revolução francesa, esquerda e direita eram expressões de compromisso com o espaço público a partir dos setores sociais que representavam. 

 

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Ainda no âmbito público, o mal-estar civilizatório se expressa na desagregação das instituições. Assim, partidos não expressam concepção de Estado, de democracia, de governo de forma suficiente. Transformaram-se em agremiações de indivíduos desprovidos de compromisso com setores da sociedade, de domínio de questões sociais sensíveis. Agem majoritariamente a partir da lógica da barganha com o poder executivo e com a opinião pública. O poder judiciário é expressão da insegurança jurídica a que estão submetidos os indivíduos, ao legitimar o estado de exceção permanente necessário a manutenção da (des)ordem vigente. Enfim, o Estado já não comporta o adjetivo, “nação”. Desprovido das condições de gestar e implementar um projeto de desenvolvimento nacional transformou-se numa agência a serviço da transcendência da economia especulativa global. Uma de suas funções se expressa na oferta de garantias dos contratos e da remuneração do capital especulativo. Aliás, a vitalidade do Estado está visceralmente vinculada à submissão a liturgia da financeirização. Outra função e, intimamente vinculada a primeira é a gestão dos recursos humanos, indivíduos e população ofertados como estoque de garantia a remuneração do capital. Gestão dos recursos humanos também significa o exercício deliberado da violência estatal diante de situações que podem apresentar riscos ao regime de acumulação de capital em curso.

 

Ou seja, o mal-estar que vivenciamos apresenta-se na abissal disjunção entre sociedade e economia. Santo Agostinho (344 – 430 d.C.) em sua obra seminal: “De Civitas Dei” (A Cidade de Deus) descreve duas cidades, a dos homens e a de Deus. Na cidade dos homens impera o sofrimento, a dor, a degenerescência. Na cidade de Deus impera a perfeição, a felicidade eterna. Assim, a disjunção contemporânea se apresenta na degenerescência social, no aumento das contradições sociais, no aumento da pobreza mundial, na agressão à vida, na disseminação do ódio às minorias, ao pensamento, ao diferente. Por outro lado, o regime de acumulação da economia especulativa apresenta-se imune e indiferente as questões sociais. Promete fartura e desenvolvimento aos Estados e sociedades que prestarem culto e obediência à seus imperativos. Avalia e condena à danação eterna os dissidentes. 

 

Diante de tais circunstâncias, entregar-se as ilusões, como a plena liberdade dos indivíduos consumidores e, da liberdade de mercado como agente regulador da justa medida econômica é tentador e, até convincente para as massas e, desavisados intérpretes da cena cotidiana. Por outro lado, não se trata aqui de propor soluções a tais questões, mas, sobretudo de ampliar a compreensão sobre a natureza do problema, a partir de questionamentos: Por que em pleno século XXI nos deparamos com esta cena dantesca, com sombras e retrocessos civilizatórios? Em sociedades individualizadas, submetidas ao consumo ausenta-se a capacidade de questionamento? Estamos diante da derrota do pensamento, da vitória dos “likes”, das curtidas, da realidade virtual e sua efemeridade? A condição transcendente da economia especulativa é responsável pela derrocada da política? Dar-se o direito de formular um questionamento é condição sine qua non para a manutenção da potência do pensamento.

 

Mas, o desejável neste contexto é que o niilismo passivo, o grande cansaço civilizatório, se aprofunde como forma de dar vazão ao niilismo ativo em sua potência criativa como exigência para a conformação da vida numa obra de arte pública por excelência, como toda obra de arte. Esta é a política que vem, a economia que vem, o mundo que vem. Mas, cuidado não virá na forma de projeto de reforma social, simplesmente vem a cada momento, a cada instante em que você, leitor, se der o direito de questionar o mundo em que vive em seus paradoxos e contradições. Desprovido deste ímpeto, resta “curtir” o niilismo passivo…

 

 

Sandro Luiz Bazzanella é doutor em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Educação e Cultura pela Universidade do Estado de Santa Catarina, graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Dom Bosco. Professor Titular de Filosofia na graduação e no mestrado da Universidade do Contestado.

 


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