Perdeu, pobre!
Terça-feira, 13 de agosto de 2019

Perdeu, pobre!

 

Por Paulo Ferrareze Filho

 

Outro dia recebi um folder pelo Whatsapp em que uma empresa de vinhos convidava a nata carioca para participar de uma degustação à modica quantia de R$ 30 mil por cabeça, em algum desses hotéis de luxo.

 

 

Livros célebres de Freud como Totem e Tabu, Psicologia das massas e Mal-estar na civilização comprovam que a psicanálise se ocupa com as extensões sociais do fenômeno psíquico. Em Psicologia de Grupo e Análise do Ego, Freud afirma que “algo mais está envolvido na vida mental do indivíduo, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual é, ao mesmo tempo, também psicologia social.” Ao admitir uma dimensão social dos fenômenos psíquicos, há que se questionar: quais os traços deixados pelo neoliberalismo econômico no nosso psiquismo social?

 

Bauman, no livro “A riqueza de poucos beneficia todos nós?”, retoma um dado conhecido: a riqueza combinada das cem pessoas mais ricas do mundo é quase duas vezes maior do que a riqueza somada dos 2,5 bilhões de pessoas mais pobres. (Volte e leia o trecho em negrito mais 3 vezes antes de seguir…)

 

Essa distribuição esdrúxula de riqueza não passa sem deixar efeitos colaterais tanto na constituição da subjetividade quanto na formação dos corpos psíquicos não só individuais como também sociais. 

 

O neoliberalismo, como discurso de limitação dos poderes de intervenção do Estado nos contratos privados, converteu-se em ganância perversa, especialmente com a reforma trabalhista de 2017 e com a reforma da previdência em curso. Nosso futuro está assim desenhado. De um lado, não se protegerá juridicamente o mais fraco da relação trabalhista. De outro, os trabalhadores mais pobres terão que morrer trabalhando para que a conta possa ser paga.

 

Não é preciso dizer que esse não é um projeto constitucional porque, aparentemente, a constituição parece estar morta. 

 

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Agora é assim: se há mais empregados do que empregos, paciência. Se quem detém o poder de escolher é o mais rico, paciência. Se a riqueza privada controla o poder público, paciência. Se é necessária a submissão diante do poder de eleição do capital, paciência. Já que a concentração de renda é inversamente proporcional ao excesso de mão de obra, paciência. Perdeu pobre. 

 

Assentado em um verdadeiro fundamentalismo econômico, o neoliberalismo forja uma espécie de cegueira social propositada, causadora de uma gangrena mórbida das pulsões de alteridade que impede de perceber o egoísmo patológico da indiferença.

 

A falta de capacidade de problematizar os próprios excessos e de fazer sua autocrítica é uma das travas para que o sistema econômico, das trocas mundiais de bens e serviços, seja aprimorado em direção a um cuidado integral.

 

Outro dia recebi um folder pelo Whatsapp em que uma empresa de vinhos convidava a nata carioca para participar de uma degustação à modica quantia de R$ 30 mil por cabeça, em algum desses hotéis de luxo. Se estivermos de acordo de que a todo excesso se segue um efeito de compensação sócio-psíquica, o excesso do capitalismo neoliberal acaba custando, na mesma medida, nacos maiores ou menores da dignidade de alguém. Os R$ 30 mil que viram mijo em Ipanema acabam faltando para questões cruciais na vida de alguém: uma vaga em hospital, comida na mesa, remédios que aliviam uma dor fodida qualquer.

 

Esse dilema no Brasil ganha mais do que nunca ares políticos ante o, agora sabido, associativismo criminoso entre o poder público e o econômico. Essa aliança explica o fato de que, desde 1988, o congresso esteja desinteressado em fazer uma reforma tributária ou política que desprestigie o empresariado ou ele mesmo.

 

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O banco Itaú, por exemplo, obteve pornográficos R$ 25 bilhões de lucro líquido em 2018. Para todos nós, que não alcançamos a cifra nem se somarmos todos os anos de nossas vidas, necessário algum esforço mental para entender o que são VINTE E CINCO BILHÕES DE REAIS…especialmente quando se fala de lucro, ou seja, daquilo que sobra para comprar coisas, fazer investimentos… Aliás, quem tem lucro líquido de R$ 25 bilhões e continua fazendo investimentos – que é necessariamente um dispositivo para se conseguir mais lucro – realmente padece de uma doença fodidíssima na alma.

 

O quadro da precarização do trabalho pode ser sintetizado a partir de uma foto que viralizou nas redes sociais em que um gordinho fazia uma entrega de comida pela Uber Eats em uma bicicleta do Itaú. O gordinho trabalha para duas grandes empresas e não pode cobrar vínculo, nem FGTS, nem férias, nem porra nenhuma. Mesmo trabalhando mais de 10 horas diárias, para que possa “tirar um valor legal”, não há garantias, nem estabilidade, nem previdência, nem nada além da falsa ideia de que esforço é suficiente para vencer economicamente na vida. As fotos de um velho todo riscado no sertão, trabalhando até morrer, ainda virão. 

 

Em grande parte por conta de uma política de tributação desigual que faz, proporcionalmente, os mais ricos pagarem menos que os mais pobres, agora associada à lei trabalhista que extinguiu inúmeros dispositivos de proteção do trabalhador e também à reforma da previdência, só consegue vaticinar o Brasil com otimismo quem toma algum medicamento muito poderoso…

 

É essa violência estrutural das relações entre o poder público, o empresariado e a sociedade que tem gerado efeitos patológicos para a saúde dos corpos psíquicos, individuais e sociais, como belissimamente dissertou Eliane Brum no El País de 2 de agosto de 2019 com o artigo “Doente de Brasil”. No Brasil, adoecemos ao mesmo tempo em que alguém, com procuração dos que evocam Deus, está no poder. Será que isso é sem razão?

 

Estamos tão doentes que pagamos mais de R$ 150 mil de tratamento dentário para o Feliciano e isso passou quase sem eco. Esse Feliciano é um caso clássico de um sintoma cada vez mais comum entre nós: os doentes-de-Deus. Abençoaria o profeta Jesus essa bela dentição do Tristeciano?

 

 

Paulo Ferrareze Filho é doutor em direito (UFSC), professor universitário e psicanalista em formação

 


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Notas:

[1]  Dado oferecido por BAUMAN, Zigmunt. A riqueza de poucos beneficia todos nós? 1a ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, p. 16

Terça-feira, 13 de agosto de 2019
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