O delírio da sinhá contemporânea
Segunda-feira, 19 de agosto de 2019

O delírio da sinhá contemporânea

Imagem: Justificando

 

Por Nêga Lucas

 

Tomei a iniciativa de escrever esse ensaio depois da vivência de uma delicada ruptura afetiva. Mais uma comprovação empírica das diversas situações de racismo estrutural cotidiano e naturalizado que se acumulam em minha trajetória.

 

Em muitas situações, desisti de fazer denúncias de racismo, por medo. Medo de que a pessoa branca que protagonizou o episódio racista ou mesmo pessoas aliadas a ela me contra-atacassem socialmente de forma repressiva. Refiro-me à coreografia opressora inconsciente em que os olhares, comentários e o gestual atuam como manifestação de reprovação e subjugamento. Uma prática naturalizada e perpetuada através dos séculos no Brasil colônia sob a forma de castigos e tortura diante de situações de desobediência ou rebeldia por parte dos negros escravizados. Senti a urgência de enfrentar meus inúmeros temores, inseguranças e barreiras para compartilhar essa vivência em forma de ensaio.

 

Parto de um caso específico, que se inicia na esfera pessoal e que me leva a indagar sobre as experiências de outras pessoas que ocupam posições sociais e lugares de fala semelhantes aos meus. O abalo sísmico das minhas camadas internas, gerados por mais um episódio de racismo estrutural, dessa vez foi muito violento e me impulsionou a buscar relatos similares que comprovassem o que, a priori, eram apenas suspeitas.

 

Sou artista, imigrante na Europa há mais de uma década. No ano passado fui diagnosticada com um gravíssimo problema de saúde, que resultou na mobilização de muitos amigos de forma direta e indireta, que se ofereceram a colaborar de diversas maneiras durante o meu período de convalescença. Meu irmão e meus pais que vieram do Brasil, dada a urgência do meu quadro clínico, se revezavam nos cuidados e em meu acompanhamento. 

 

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No fim da primeira fase do tratamento, tive um conflito com meu irmão, e uma das pessoas desse círculo que colaborava conosco e frequentava minha casa, se intrometeu de forma bastante invasiva e intransigente no conflito, sem a nossa autorização. 

 

Desde então, aquele episódio passou a ser questionado não apenas como uma intromissão pontual em um problema familiar, mas como reflexo de questões estruturais profundas e relevantes, que continham muito mais informações sobre as relações sócio-políticas e os papéis representados em tais relações nas comunidades brasileiras fora do Brasil. 

 

Ao tentar discutir o problema com a minha interlocutora e resolver a situação questionei nossas diferentes origens sociais e trouxe à tona reflexões sobre as questões estruturais que aquele “mal entendido” ocultava. Indaguei sobre os papéis que a negritude ocupa em algumas coreografias sociais, como a do assistencialismo, por exemplo. Ainda que ambas tivéssemos migrado do Brasil, disse a ela quais eram minhas opiniões desde a posição de mulher negra, naquele contexto. Minhas colocações geraram um grande desconforto e uma reação defensiva instantânea.

 

Tanto o episódio vivenciado na esfera pessoal, como as respostas recebidas ao escancarar as questões sócio-políticas entranhadas naquela relação de amizade, me levaram à análise da estrutura dos comportamentos. Percebi que as relações sociais mantém uma conexão com a história do Brasil, que repete, de forma sistêmica, dinâmicas opressoras com raízes profundamente fincadas no racismo estrutural.

 

Um posicionamento que era aparentemente fruto de um conflito pessoal começou a revelar dinâmicas de poder e uma simbologia que pertence à perpetuação de um pensamento colonialista secular. Estas foram as frases detonantes do desenvolvimento desta análise:

 

“Tive dúvidas se a nossa relação existe apenas quando você “precisa” de ajuda e eu posso te ajudar. Porque eu quero ajudar as pessoas.” 

 

“A tua arte vale tanto que se eu tivesse dinheiro eu investiria em você, para que você trabalhasse para mim.” 

 

“Eu sinto que quando te ajudo você abre um espaço para que exista a conexão.” 

 

“Nunca passou pela minha cabeça que viemos de lugares diferentes. Por que você fala dessa maneira?

 

Falando desse jeito, você está criando um preconceito” 

 

“Para mim é tudo igual, a nossa relação é de alma. Eu nunca pensei na cor da tua pele.” 

 

(Muitas pessoas brancas padecem de “daltonismo racial”. Uma vez que elas afirmam não ver as diferenças de cor entre pessoas negras e brancas, justificando assim seu discurso de isenção e negação do racismo)

 

“Você está levando a conversa para um lugar (política) muito distante.

 

Não tem nada a ver o lugar de onde viemos com a nossa relação de amizade”.

 

“Me parece que você tem dificuldades em aceitar ajuda”.

 

“Eu fiz o mesmo por outras pessoas e elas não levantam essas questões” 

 

“É preciso aprender a escutar e perceber que existem pessoas diferentes dessas que você está dizendo. Eu não sou uma dessas pessoas” .

 

Na visão da minha amiga e interlocutora, não havia diferenças entre nós (#somostodosiguais???). E sob seu discurso reducionista, todo o material subjetivo, criativo e emocional trazido por mim ao longo de nossa relação foi desconsiderado, já que ela apontava apenas seus movimentos de assistencialismo como base de nosso vínculo.

 

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Essas, por sua vez, foram algumas das perguntas que surgiram diretamente a partir deste episódio:

 

  • Por que é tão difícil falar de assistencialismo, de privilégios e racismo estrutural com pessoas brancas?
  • Por que a arte, as ideias e a criatividade não contam na hora de classificar a ajuda?
  • Porque o aporte subjetivo não é contemplado como material valioso de troca? 
  • Quais são os materiais de valor e ajuda no pensamento assistencialista e qual é o papel representado por quem “ajuda” materialmente e quem recebe a “caridade”? 
  • Com que intenção a pessoa branca aristocrata oferece a ajuda?
  • O que é a bondade, particularmente para brasileiros, que têm essa herança do cristianismo e da igreja católica romana impregnada em suas narrativas? 

 

 

O assistencialismo hierárquico

 

Em questões de dádiva, troca e ajuda, sempre existe muito mais coisa em jogo. A obra do antropólogo Marcel Mauss (1925) está aí pra não nos deixar mentir. No entanto, no episódio que vivi, foi flagrante a percepção de que da parte de minha interlocutora, havia a necessidade de se criar um vínculo de reconhecimento que condiciona o curso de nossa relação e perpetua o contato em uma constante dívida de gratidão e uma relação hierárquica e servil entre a pessoa que “doa” e aquela que recebe a “ajuda”. Não se trata, portanto, de uma troca simétrica, mas da perpetuação de uma relação hierarquizada que insiste em não se desfazer.

 

Aliás, o assistencialismo hierárquico branco é um trabalho de investimento em benefício próprio, que contribui com a construção da própria imagem de “pessoa de bem” perante os demais.

 

A assistência baseia-se na lógica de que quanto mais eu “ajudo” mais eu aperfeiçoo a imagem de bondade e generosidade em meu círculo social. Portanto não se trata de uma atitude desinteressada, uma vez que a pessoa detentora dos recursos e das “boas intenções” deseja obter benefícios de sua própria atitude filantrópica. Ou seja, quanto mais eu “ajudo”, mais nobre o meu espírito se torna diante do meu julgamento pessoal e do julgamento alheio.

 

O assistencialismo hierárquico busca o constante reconhecimento por parte da pessoa ajudada, bem como das pessoas ao redor. Uma forma de ganhar respeito, prestígio e admiração do coletivo ao qual se pertence.

 

Dentro dessa chave interpretativa, a pessoa negra “necessitada” atua como objeto de manutenção de uma imagem de redenção e purificação referida a uma elite que ainda não conseguiu enxergar seus próprios lugares de privilégio. 

 

Assim, se a pessoa negra sai dessa posição, ela ameaça, automaticamente, a estrutura vigente e o processo de contínua construção da imagem de bondade, filantropia, pureza e nobreza de espírito. Se a pessoa negra abandona o papel de necessitada, ela ameaça todo o reconhecimento e respeito construídos ao longo do tempo. Ela coloca em jogo a relação de poder e posse, e arruína a matriz de manutenção e perpetuação desta relação assimétrica. 

 

As “ajudas” de natureza assistencialista hierárquica pretendem perpetuar vínculos de dívidas de gratidão, imobilizando a pessoa que recebe a suposta caridade. Quem doa materialmente, nesse caso, não se desapega do ato da doação nem da pessoa ajudada, mantendo a escala subjetiva de superioridade / inferioridade. 

 

A ruptura da relação e da coreografia da ajuda extrapola o campo afetivo, visto que ela representa também uma ruptura sócio-política.

 

A relação servil entre pessoas negras e pessoas brancas representa a continuidade dos pilares da história do país, do alicerce da construção da identidade nacional brasileira e dos perversos mecanismos de dominação que a “fábula das três raças” (Da Matta, 1981) ajudou a solidificar.

 

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Na coreografia da minha vivência pessoal, existe uma relação inconsciente da mulher branca que me “ajuda” e pode usufruir dos produtos da minha subjetividade / intelectualidade criativa de forma constante e sempre à disposição (servil), uma vez que existe um vínculo de dívida gratidão (posse) pela ajuda que me foi dada. Em conseqüência, eu, de forma inconsciente, me sinto em débito constante, uma vez que a criatividade e a subjetividade não são validadas como material de troca.

 

Dentro da subjetividade afrodescendente existe outro esquema de vínculos e trocas, onde outros materiais, de natureza emocional, intelectual, criativa e dialética também contam como “moeda de troca”, e ganham outro valor dentro deste círculo social. Os bens concretos representam um valor entre os outros tantos, uma consequência, e não a base de tais vínculos.

 

No caso relatado, a pessoa doadora da ajuda, que é uma mulher branca de ascendência aristocrática, se sente no direito (posse) de interferir nas questões familiares (um conflito delicado entre irmãos) e invadir o espaço íntimo dos membros da minha família (a família necessitada), uma vez que ela foi generosa e nos ajudou. Já eu, a “mulher negra necessitada”, em estado de vulnerabilidade física e emocional, figuro como uma pessoa impotente e incapaz de lidar com tais questões, tendo minha individualidade e capacidade de decisão anuladas. Por isso, sou “poupada” (vítima), enquanto ela (mulher branca) colocaria limites em meu entorno familiar, com o intuito de resolver (salvar) de maneira invasiva (posse) um conflito de foro íntimo.

 

Nesse caso, o meu irmão, um homem negro, serve como detonador do conflito e justifica a intervenção da mulher branca, já que ele é visto como uma ameaça ao meu vínculo de “parceria” com ela.

 

Já ela, conhecedora da minha intimidade e de detalhes da minha vida familiar, se sente no direito de me representar, sem a minha autorização, ”defendendo-me” do meu irmão, invadindo a nossa privacidade e desfigurando a imagem dele com comentários pejorativos a respeito de sua conduta.

 

A mulher branca interfere em uma problemática interna e íntima (posse), com o intuito de dar limites (civilizar) o homem negro e afastá-lo da mulher negra (vítima impotente), salvando-a e restaurando a relação de assistencialismo hierárquico existente entre a mulher branca que ajuda e a mulher negra ajudada. Para isso, ela incita o desafeto e a desavença entre irmãos (tentativa de dissolução da noção de identidade e lugar de pertencimento, de união) e busca resolver o conflito de maneira civilizada (mulher do bem).

 

Aqui, vamos depurando um conjunto de simbolismos e estigmas tão consolidados que se formam como rochas em nossas psiques e subjetividades. 

 

O homem negro representa o homem mau, com modais selvagens. Ele não sabe se comportar em público, chega para atrapalhar, é má influência, provocador da desordem, inimigo.

 

“Me contaram que ele estava falando de você no ônibus, gritando, meio histérico”. “Desde que ele chegou percebo que a nossa conexão ficou mais fraca”. “Me senti no direito de dar limites a ele, ele precisava de limites”. “Eu sabia que ele ia projetar essa confusão em mim e que ele poderia me afastar de você”. 

 

Segundo Winnie Bueno e Caio César:

“Homens negros são a imagem do inimigo, aquele tido como animal voraz, incontrolável, que se não for controlado pela força coerciva do Estado pode a qualquer momento desferir sua violência natural.” (Portal Geledés 07/11/2016)

 

Já a mulher negra é a receptora da ajuda, vítima, vulnerável, incapaz de se defender e ter opinião própria, impotente. Portanto, dependente da ajuda da mulher branca.

“Eu quis evitar que você sofresse mais”. “Se eu te disser o que ele falou de você, isso vai te derrubar”. “Você está passando por um momento muito difícil. Ele não pode falar isso de você”. “Você estava sofrendo muito e eu quis te proteger”.

 

A mulher branca, em contraste, é a detentora dos recursos para oferecer ajuda: generosa, pessoa do bem, salvadora, civilizada, a mulher que gosta de ajudar as pessoas, a juíza e educadora que repete a dinâmica civilizatória dos corpos selvagens. “Eu só quis ajudar porque ele não estava se comportando bem”. “Está na hora de acabar com esse relacionamento abusivo”. 

 

O medo e a relação escravista no imaginário cotidiano:

 

Existe um medo implícito – com raízes históricas – que se manifesta no momento em que a pessoa negra confronta, questiona ou denuncia o racismo da pessoa branca. O medo é fruto de uma relação de violência contínua e secular que se reproduz nos dias de hoje, seja explicitamente – em ações truculentas da polícia, em chacinas, em detenções injustas, em maus tratos domésticos, etc. – , seja de forma muito mais velada, como as violências psíquicas e dialéticas. Ambas formam parte de um inconsciente coletivo que repete as relações hierárquicas altamente opressoras, porém manifestadas de forma sutil em muitas ocasiões. 

 

O medo introjetado no subconsciente das pessoas negras é uma ferida aberta e profunda, além de ser uma memória muito recente – visto que a abolição da escravidão não ocorreu de fato. A sensação de desproteção, a insegurança e a impotência ao contestar, denunciar ou se defrontar com uma pessoa branca segue uma linha contínua de hostilizações e humilhações. Linha essa que insiste em manter no imaginário comum a ideia inconsciente de inferioridade, incapacidade, impotência, baixa autoestima, loucura e subserviência por parte da pessoa negra e, por outro lado, a ideia de autoridade, poder, superioridade, posse e civismo, por parte das pessoas brancas, principalmente aquelas pertencentes à classe burguesa.

 

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Conclusão

O trabalho de tomada de consciência da questão do racismo estrutural que compõe nossa identidade e aspectos de nossa individualidade passa pelo reconhecimento de construções coletivas, de pensamentos íntimos desagradáveis e discriminatórios, da estrutura externa exaustivamente martelada em nosso inconsciente. Além do racismo vivido na vida de cada uma, nós, mulheres negras, fazemos esforços constantes para ocupar espaços, legitimar discursos, fazer valer a nossa subjetividade, identificar violências, lidar com a desvalorização e a exotização dos nossos corpos, e, além disso, lidar com a novidade que emerge depois da derrubada de algumas barreiras.

 

Nossa educação e pensamento, nossa ideia de mundo e nossa noção de auto-estima e valor humano estão edificadas em cima de uma lógica branca colonial. Por isso, “descolonizar o pensamento” é tão relevante. E é também por isso que é tão complexo construir uma nova identidade em um contexto tão hierárquico e viciado. O ponto é que nós também fomos educadas a pensar dentro da lógica colonial e, mesmo na condição de mulher negra, inconscientemente pensamos “branco” e “pensar branco” significa desvalorizar a si mesma, desvalorizar o coletivo ao qual pertencemos, perceber preconceitos e auto-preconceitos enraizados, além de termos de nos responsabilizar por inúmeras emoções desagradáveis e incômodas que nos são projetadas. 

 

Nossa história era, até muito pouco tempo, contada e manipulada quase exclusivamente por pessoas brancas. Temos que juntar os caquinhos de uma descendência que foi estraçalhada pela colonização e pela relação escravagista que perdura, e buscar nos informar constantemente, garimpando o passado para nos conhecermos melhor e concebermos a nossa própria dignidade e integridade, sem mediações. Precisamos nos humanizar, no sentido de reconhecer nossas facetas, das mais belas às mais repugnantes, para depois erguermos alguma estrutura que nos proteja e fortaleça. Sem respaldo e apoio coletivo, muitas de nós beiramos à loucura para poder re-existir, ganhar lucidez e cada vez mais distanciamento, para ver com mais amplitude as saídas dos abismos de sofrimento individual. 

 

Estamos ocupando espaços, reivindicando direitos a partir do nosso lugar de fala. Estamos reconstruindo a nossa identidade, auto-estima e autoconfiança, encontrrando pontos de apoio, para nos unir e começarmos a compartilhar experiências que nos permitam sair dessas vivências solitárias e fazer valer nosso poder de ação com respaldo e proteção coletiva.

 

A população branca do Brasil que, justamente por ser branca, jamais sofreu preconceito racial – e não faz a menor idéia do que significa sofrê-lo ao longo da vida – em inúmeras situações, deslegitima, descredita e classifica, segundo seu critério, as experiências de racismo vividas por nós afrodescendentes, os nossos relatos, denúncias e reivindicações. Além do discurso de isenção e a negação constante do abismo entre as trajetórias da branquidade privilegiada e dos afrodescendentes socialmente e politicamente “minorizados” e invisibilizados. Descartando assim a influência dessa estrutura sociopolitica racista nas relações sociais cotidianas e deslegitimando os  questionamentos e vivências da população negra.

 

O não reconhecimento do lugar de privilégio; a manutenção desses lugares que sempre foram de acesso exclusivo de pessoas brancas, e que não são questionados pelas tais; a falta de consciência do próprio posicionamento social e das vantagens recebidas em detrimento dos direitos alheios; a cegueira intencional ou inconsciente da parcela privilegiada da população, são os agentes de manutenção do círculo vicioso de violências e privações sofridas pela negritude através dos tempos. 

 

Na fala a seguir, por exemplo, minha interlocutora enfatiza ainda mais o próprio racismo, a “isenção branca”, o assistencialismo hierarquico, o descrédito e a deslegitimação do lugar de fala comentados anteriormente:

 

“Tudo bem se nossa relação não tem mais força ou sentido, tudo bem se nossos caminhos não se cruzam mais, tudo bem se cansamos uma da outra ou se “te ajudei demais” e você não se sente bem ou a vontade. Só não tente colocar em mim cargas ou espelhos que não me pertencem. Não sou racista e nunca fui. Você não é a única negra com quem me relacionei e me relaciono. Tenho amigos, já convivi em pisos aqui com amigos negros, tem a metade da família do meu marido negra incluindo o padrinho e primas irmãs muito próximos. Você não precisa de uma causa, luta ou filosofia para se afastar de nos. Você está no seu direito e respeito. Se responsabilize por favor de suas dificuldades, bloqueios, preconceitos e loucura. Apesar de triste, eu me vou em paz dessa relação. Essa viagem de estrutural, social profundo é só sua. Eu tenho a consciência tranquila de com quem me relaciono e porque. Posso errar por excesso de amor e cuidado mas isso não é privilégio da sua negritude. Por favor me deixe fora disso.”

 

Como reflete Djamila Ribeiro: “É necessário que os sujeitos brancos se pensem também dentro dessa lógica de como o lugar social dele impacta no lugar do outro, e como o lugar dele é criado através da opressão de outros grupos. Ele acha que o fato de estar em todos os espaços de poder é porque ele é genial, ou porque é um direito natural, e não que isso é construído por meio da opressão de outros grupos”.

Questionar os próprios privilégios e compreender as diferenças abismais entre branquitude e negritude no Brasil, além de compreender o funcionamento da estrutura opressora que rege o racismo estrutural, são tarefas fundamentais para que as mudanças ocorram e o preconceito racial retroaja. 

 

Decidi escrever este ensaio porque as circunstâncias me mostram que a negação da responsabilidade por parte de uma grande parcela da branquitude conserva estruturas altamente nocivas à nossa existência enquanto pessoas. A negação da responsabilidade é o combustível que alimenta a máquina que despedaça a nossa integridade e os nossos direitos básicos. A responsabilidade não pode, de forma alguma, ser unilateral. E nesse caso, só o lado que recebe os golpes se responsabiliza pelos golpes recebidos. A minha tomada de consciência tem me custado a minha saúde, enquanto eu revivo e me reconstruo. Enquanto lido com as mortes simbólicas e concretas, não posso mais permitir que a falta de responsabilidade branca pese na minha conta e sobre o meu corpo, que é uma das células de um enorme corpo coletivo em pleno despertar de consciência. 

 

 

Nêga Lucas é jornalista, compositora, poetisa, performer, realizadora audiovisual e ativista afro-feminista

 


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