Por que muitos negros desprezam o trabalho dos negros?
Segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Por que muitos negros desprezam o trabalho dos negros?

Imagem: cybrarian77/flickrCC BY-ND

 

Por Lúcio Antônio Machado Almeida

 

Faz algum tempo que temos observado a relevante e triste constatação da negação, por parte de um significativo número de negros e negras, do reconhecimento do trabalho de outros negros e negras. Especialmente no campo da construção do conhecimento, essa constatação se faz mais brutal. 

 

 

Temos, como todos sabem, produzido farto material intelectual, sobremaneira nos campos que interagem com o enfrentamento do racismo, contudo, isso nem sempre é visibilizado, aceito ou compartilhado. Há, infelizmente, uma maneira de reprodução do modus operandi do colonizador sobre nossas escolhas. 

 

Em sentido mais claro, há uma prática colonial de buscar encontrar um defeito no irmão negro ou negra intelectual para desqualificá-lo, ou, inconscientemente, para lembrá-lo do seu lugar de subordinado. 

 

Faz muito tempo que notórios sociólogos insistem na marca das relações raciais no Brasil, as quais se baseariam enormemente na acomodação e subordinação do negro brasileiro. É, quanto a esse estado de coisas, que os intelectuais negros e negras visam, através de seus escritos, romper com a base teórica compreensiva de um lugar natural de subordinação do negro. 

 

Não custa lembrar os ensinamentos de Frantz Fanon acerca do papel disfuncional do colonizado (negro ou negra) na permanência de seu sentimento de inferioridade, ao manter involuntária e inconscientemente um compromisso com os valores do colonizador. E, embora muitos possam negar, o valor central na arqueologia do poder colonizador é a defesa da ausência da autonomia intelectual dos colonizados, razão pela qual esses seriam inferiores na atividade de pensar e agir por si mesmos. 

 

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Assusta a todos nós que, mesmo em grupos criados para fomentar a autonomia intelectual do negro, muitas vezes isso é negado de uma maneira grosseira, pueril ou, mais sofisticadamente, de uma forma proposital. Não estranha que em muitas palestras ainda ocorra um permanente silêncio para ouvir um especialista branco e, contudo, quando um intelectual negro ou negra está para falar, o mesmo não ocorra. 

 

Tristemente, esses encontros acabam se transformando em um campo de batalha para o especialista negro ou negra, que tem de demonstrar farto conhecimento sobre o tema proposto para não ser desqualificado pelos demais irmãos negros. 

 

Conforme ensina bell hooks, há um insistente olhar do irmão negro na busca de que falta alguma coisa em outro irmão negro. O olhar sobre as nossas representações, ainda que seja prática oriunda do esquema perceptivo criado pelo sistema racista, tem, nas vezes em que nossos irmãos negros reproduzem entre si essa busca de inferioridade, o seu ponto mais elevado de efetividade e alcance. Reside, talvez, nessas situações, uma odiosa prática do racismo para além dos sujeitos tradicionais (brancos).

 

Precisamos refletir mais sobre nossos comportamentos que, invariavelmente, possam ser repetidores da conduta racista, os quais são prejudiciais à construção da autonomia intelectual do negro. É preciso reconhecer com criticidade o trabalho dos negros, sem, contudo, cair em dois extremos: o da adoração compulsiva desses trabalhos intelectuais ou, por outro lado e mais lamentável, o da recusa insana e odiosa ao lugar de produção intelectual que negros e negras potencialmente têm.

 

 

Lúcio Antônio Machado Almeida é doutor e mestre em Direito pela UFRGS. Professor Universitário e advogado. Membro do Grupo Juristas Negros do Rio Grande do Sul.

 


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Segunda-feira, 19 de agosto de 2019
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