A modernidade tecnológica libertará a humanidade da tirania dos seus iguais?
Terça-feira, 27 de agosto de 2019

A modernidade tecnológica libertará a humanidade da tirania dos seus iguais?

Arte: Justificando (Shutterstock)

 

Por André Márcio Neves Soares

 

Alan Turing estava cego por acreditar que o esplendor da modernidade tecnológica libertaria a humanidade da tirania dos seus iguais. Mas podemos culpá-lo?

 

No primeiro artigo desta série, definimos a estética financeira do capitalismo mundial na modernidade como informacional, inumana, ou melhor, descarnalizada, alheia aos signos do porvir. Antes de continuarmos, uma digressão: definimos o nosso atual momento ainda como modernidade, por entendermos que a pós-modernidade está atrelada ao futuro “ex humano” da humanidade, ou seja, ao momento que, em breve, uma nova categoria de Homo se juntará aos antigos da mesma espécie. Mais próxima de qual das inúmeras espécies de homo que já andaram por este planeta não sabemos ao certo, mas a probabilidade de não guardar “imagem e semelhança” com o sapiens nos parece razóavel. Nesse sentido, também alertamos para o perigo dessa empreitada sem volta pelos campos virtuais dos significantes binários. A junção do 0 e 1 como significado desse futuro sem alteridades e empatias projetará o que resta de humano em nós numa sociedade tirana do deus “machina”. 

 

Para entendermos a gravidade dessa perspectiva, porém, é preciso levar em consideração dois pontos essenciais: o primeiro ponto é que a tirania sempre existiu, independente do momento histórico a que retroagirmos no passado. De fato, o filósofo grego Aristóteles (384 a.c. – 322 a.c.) já a definira como a degeneração do sistema monárquico de governo. Maquiavel, no seu célebre livro “O Príncipe”, quase dois mil anos depois de Aristóteles, escreveu sobre os procedimentos violentos do seu príncipe tirânico. Sem entrar no mérito por questão de espaço, mesmo nossos primos da cadeia dos grande primatas também conhecem a tirania. Ao longo dos milhões de anos de evolução, desenvolveram uma complexa rede de alianças intra e, eventualmente, intergrupais, justamente para evitar a ascensão de lideranças tirânicas (HARARI, 2015). O segundo ponto a considerar é o tempo. Mesmo que a tirania seja da essência desses grupos de animais, a própria percepção do que essa palavra ou essa linguagem significava foi se transformando. E isso não é, ou pelo menos não deveria ser, nenhuma novidade, já que, empiricamente, pudemos perceber as inúmeras mudanças ocorridas no desenvolvimento do animal humano.

 

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Dito isso, agora podemos nos aprofundar no atual momento histórico. E começamos reconfigurando tudo que já foi escrito até agora para chegarmos à tese central do nosso pensamento, qual seja, a de que a tirania, apesar de sempre ter tido seus momentos de distopia inevitável, nunca foi tanto como hoje uma inevitável distopia através do mundo virtual “ex post”. Oportuno, senão indispensável, ter em mente a primeira lição de SNYDER sobre a Tirania:

 

“A maior parte do poder do autoritarismo é concedida voluntariamente. Em tempos como estes, as pessoas calculam com antecedência o que um governo mais repressivo pode querer, e muitas vezes oferecem sua adesão sem que sejam solicitadas. Um cidadão que procede dessa maneira está ensinando ao poder o que ele pode fazer.” (SNYDER, 2017).

 

É fato que para ela (Tirania) as luzes se acenderam intensamente a partir do pensamento hobbesiano. Para Hobbes, não existem distinções entre governos bons e maus, muito menos misto, posto que a soberania é absoluta e indivisível. O Estado unifica o privado e o público sob sua tutela, assegurando assim o fortalecimento do individualismo material. A falta de objetividade nos critérios para a definição do tirano vem da falta de critério racional dos cidadãos. Logo, a subjetividade da opinião pessoal divide paixões e permeia a estrada por onde passeia a sociedade servil. O tirano nada mais é do que o poder sem limites (BOBBIO, 2017).

 

Nessa toada, o século XXI torna-se, então, sinônimo de ausência. É disso que o poder tirânico do capitalismo financeiro gosta. Ausência no sentido da perda da consciência, da memória, do raciocínio lógico. Se o século XX, pela ação dos jovens proletários, foi profícuo em breves momentos de intensa contestação sobre o devir histórico que se avizinhava pela manipulação capitalista dos meios midiáticos, o atual século legitima a indignação da escola frankfurtiana da massificação libertária do capital abstrato e do consumo fetichista. A sociedade binária, ou seja, a que só se sente visível e representada pelos números 0 e 1, deveria ser entendida como o atraso da modernidade, e não como a supressão do atraso rumo ao desfiladeiro tecnológico. Berardi comenta, arrependido: “permaneça antigo se quiser ser humano” (BERARDI, 2019), sobre as cartas de Pasolini ao jovem Gennariello. Massa e poder só passaram a estar imbricadas a partir da virtualização dos desejos, do binarismo fonológico da mercadoria imediata. A linguagem prevalecente nessas quase duas décadas do século XXI está baseada no sistema sonoro de um idioma que só reconhece o ruído da máquina do cartão de crédito/débito, das ofuscantes imagens das propagandas de TV que hipnotizam o potencial consumidor e das infinitas possibilidades oferecidas pelos (des)caminhos da estrada computacional dos aparelhos portáteis de última geração.

 

Sim, como dissemos no primeiro artigo desta série, Alan Turing estava cego por acreditar que o esplendor da modernidade tecnológica libertaria a humanidade da tirania dos seus iguais. Mas podemos culpá-lo? Obviamente que não. E não podemos culpá-lo simplesmente porque alguns desses iguais tornaram a política impotente. Ao acreditar no mito da “mão invisível” de Adam Smith, elevaram a categoria do crescimento econômico à potência máxima dos desejos individuais. Para tal, o alargamento do espaço virtual e a aceleração do tempo econômico foram ferramentas fundamentais. Sem limites, o capital transita além fronteiras sem empecilhos e qualquer perspectiva humanitária. O colapso do viver, interagir, brincar, amar e morrer será a fortuna da civilização pós-humana.  

 

 

André Márcio Neves Soares é mestre em Políticas Sociais e Cidadania e pós-graduado em Direito do Trabalho pela UCSAL – Universidade Católica do Salvador.

 


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Referências:

  1. BERARDI, Franco. DEPOIS DO FUTURO. São Paulo. UBU Editora. 2019;
  2. BOBBIO, Norberto. A TEORIA DAS FORMAS DE GOVERNO. São Paulo. EDIPRO. 2017;
  3. HARARI, Yuval Noah. SAPIENS. Porto Alegre, RS. L&PM. 2015;
  4. SNYDER, Timothy. SOBRE A TIRANIA – vinte lições do século XX para o presente. São Paulo. Companhia das Letras. 2017, pág. 17.
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