Desmilitarizar ou não desmilitarizar? A visão de um Policial Militar
Terça-feira, 27 de agosto de 2019

Desmilitarizar ou não desmilitarizar? A visão de um Policial Militar

Imagem: Filme Tropa de Elite (Reprodução)

 

Por Martel Alexandre Del Colle

 

Eis a pergunta que ainda causa debates acalorados nas polícias militares do Brasil. 

 

 

A primeira coisa que é importante ressaltar é que não existe somente um tipo de instituição militarizada. A polícia militar do interior da França possui um militarismo diferente do militarismo das polícias do Brasil, que é diferente do militarismo do exército brasileiro, que é diferente do militarismo da China Maoísta, por exemplo.

 

E aí a discussão começa a ficar interessante. O Problema das forças policiais do Brasil não é o militarismo em si, mas a forma de militarismo que é aplicada por aqui. Portanto, acabar com o militarismo não significa necessariamente melhorar a segurança pública e a eficiência das forças de segurança. Mas acabar com o tipo de militarismo que as nossas forças de segurança praticam aqui é urgente se queremos um país mais seguro.

 

A forma de militarismo exercida pelas polícias militares do Brasil é uma das piores que já existiu. E esse tipo de execução da atividade de segurança pública não tem a capacidade de melhorar as coisas por aqui. Mas faz uma ótima propaganda.

 

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Quando o filme tropa de elite foi lançado, ele se tornou propaganda para as polícias militares de todo o país sobre a forma correta de se fazer segurança pública. Era preciso deixar de ter pena de bandido, era preciso matar, torturar e invadir residências. Essa era a fórmula para solucionar os problemas do país. Era preciso mostrar números de apreensões, quantidade de drogas apreendidas, número de operações (coisa que todo policial sabe como as corporações inventam esses números colocando dois policiais na rua e chamando de operação), número de presos. Não era necessário deixar a vida de ninguém melhor. Só mostrar números, imaginando que a população era burra e se contentaria com números aleatórios enquanto ‘morria mais um no seu bairro’ (Djonga – na música: Olho de tigre).

 

O Estado que encabeçava essa velha ideologia que vinha vestida de nova era do Rio de Janeiro. Não preciso dizer o quão errado essa estratégia deu. O Rio de Janeiro virou um caos. Mas você acha que a polícia militar de lá, ou de qualquer outro Estado, admitiu que essa estratégia não funciona? Claro que não. Eles disseram que teriam de pegar mais pesado para dar certo. Talvez matando o dobro, torturando o dobro, mentindo sobre o dobro de operações. 

 

E para a minha surpresa, chega ao Paraná a propaganda da polícia militar de Goiás. Nela, o locutor, pateticamente, tenta até imitar a voz do Wagner Moura no filme tropa de Elite. E repete a ladainha de sempre: “Se deixar a polícia livre, ela rende”. Ou seja, se deixar matar, torturar, invadir casas, então dará certo. Bom, o Rio de Janeiro já nos mostrou onde essa ideia vai acabar. Com um monte de milícias comandando áreas do Estado. Com facções criminosas mais poderosas. Com mais policiais mortos. Mas quem se importa, né?

 

A polícia militar do Paraná não ficou atrás e fez um vídeo comparando a atividade da polícia militar a ação de super-heróis. O problema é que heróis não costumam seguir a lei de um estado, eles fazem a própria lei. Eles não se reportam à sociedade, não se reportam aos juízes. Eles são a lei. Eles não têm salário, não podem pedir por dignidade. Não podem ser identificados como humanos, não podem ter doenças, não podem ter fraquezas. Eles combatem o inimigo que a polícia não é capaz de prevenir. Mas se a própria polícia faz o papel do herói, então quem faz a prevenção?

 

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O militarismo das polícias militares do Brasil é danoso, pois ele não admite erros. Ele nunca dirá que errou, e nunca mudará. E é por isso que precisamos desmilitarizar as polícias do Brasil. Pois, com esse militarismo, as soluções que as polícias apresentam são: aumentar efetivo e viaturas; fazer um cartão programa com pontos de parada; fazer uma operação que é inútil, mas coloca-la na televisão ou tocar as sirenes em bairros ricos; matar e prender mais. Estratégias atrasadas e que revelam pouco estudo da realidade brasileira, da modernidade, da democracia e de ações mais eficientes ao redor do mundo. Não sei se já te contaram, mas o salário de um oficial é alto para que ele estude, não para repetir a mesma litania de 50 anos atrás.

 

Se nada mudar teremos um coronel daqui 400 anos falando que a solução para a segurança pública do Brasil é matar mais, torturar mais, prender mais, atirar mais, invadir mais residências de classe baixa. 

 

É preciso acabar com essa forma de militarismo. É preciso desmilitarizar.

 

 

Martel Alexandre del Colle tem 28 anos e é policial há 10 anos. É aspirante a Oficial da Polícia militar do Paraná.

Terça-feira, 27 de agosto de 2019
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