Pai é quem cultiva afetos positivos
Quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Pai é quem cultiva afetos positivos

Arte: Gabriel Pedroza/Justificando

 

Por Gabriel Alex Pinto de Oliveira

 

 “E ele nem sabia que esse barquinho já atravessou uma geração. Presente de meu pai pra mim e uma das poucas lembranças que eu tenho dele. Meu pai não viu seu filho brincando com ele, nem verá seu neto, mas o barquinho estará lá pra provar que nem toda história se repete. Talvez daqui pra frente possamos atravessar outras gerações navegando nesse barco ancorado no porto Família!” – 14/02/2016

 

 

E foi assim que eu descrevi há três anos atrás um momento ao mesmo tempo especial e perturbador da minha história, registrado em uma fotografia tirada do celular, onde meu filho brincava na piscina com o barco que ele tinha visto na minha casa e lhe chamara tanto a atenção que, na primeira oportunidade que tivemos de ir na piscina do prédio, ele insistiu para que levássemos para: “ver se boiava”.

 

A parte superior do brinquedo, destacável, era pintada em um tom de laranja vibrante (ou vermelho desbotado, não sei bem ao certo) representando a parte superior da cabine da lancha. E a parte de baixo, onde estava todo o “resto” da lancha, tinha um tom de branco amarelado pelo tempo.

 

Até que consegui conservar aquele brinquedo durante um bom tempo, praticamente intacto. Ele tinha uns banquinhos, pintados em um tom de azul claro, que também eram de encaixar, mas que acabei perdendo não sei exatamente em que época. E um leme preto que deve ter sido perdido nas primeiras semanas de uso.

 

Um pressentimento me dizia para não levar aquele brinquedo de plástico bicolor para a piscina…

 

Ver meu filho brincar na piscina com aquele barco me gerava naquele dia uma série infindável de sentimentos e questionamentos. Um dos mais óbvios era tentar entender porque meu pai não tinha me visto brincar com aquele barco? Eu também senti, confesso, uma pontada de ciúme ao ver meu filho se divertindo tanto com aquele brinquedo que era a única recordação material que eu tinha do meu pai. Não havia nenhuma foto ao lado dele. Apenas lembranças na minha mente de quatro momentos esporádicos que nos encontramos e aquele barco de plástico.

 

Houve uma vez que eu quis doar aquele brinquedo, mas minha mãe me impediu dizendo que era o único presente que o meu pai tinha me dado. Daí por diante passei a guarda-lo com mais carinho. Fazia tantos anos que aquele barco era apenas um enfeite na prateleira do meu quarto na casa da minha mãe, depois da minha casa, como algo quase sagrado, que eu havia esquecido da função social primeira dele: servir de brinquedo. 

 

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E era justamente isso o que o meu filho fazia naquele momento, brincava. Ia com o barco em suas mãos miúdas para lá e para cá. Afundava na água e depois esperava emergir…. Às vezes não emergia porque a parte de baixo, oca por dentro, tinha um pequeno furo por onde a água entrava e enchia o barco. Daí meu filho tirava o barco da água e esperava a água sair pelo buraco, até esvaziar, e depois começava tudo de novo… 

 

Essa cena se repetiu durante quase todo o tempo em que ficamos naquele dia ensolarado na piscina. Ele distraído com o barco, e eu vendo ele brincar e distraído com meus pensamentos. Revolvendo esses pensamentos, percebi que ainda tinha muitas questões mal resolvidas com o meu passado. E imerso nesses pensamentos, um que se repetia era a lembrança doce de quem representava para mim a figura de pai: meu padrinho de batismo, irmão mais velho da minha mãe.

 

Em todos os dias dos pais na escola minha mãe insistia que eu desse o presente, que a escola obrigava a cada uma das crianças fazer para seus respectivos pais, para ela. Não que ela não merecesse, mas na minha cabeça de criança ela já ganhava o presente de dia das mães. Então eu tinha que escolher outra pessoa para ganhar aquele presente. E eu sempre escolhia meu padrinho. Era nele que eu enxergava a figura de pai. Ele era o homem que eu queria me tornar quando crescesse. A única referência de homem negro que eu tinha. E o cara mais legal do mundo. Bravo de vez em quando, mas o único homem que sempre estava lá na falta da minha mãe.

 

A bem da verdade, nos meus primeiros anos de vida eu vivi na casa dele. Cresci ao lado dos filhos dele, meus primos. Comia a comida maravilhosa que a esposa dele, minha tia, preparava. Então era natural que eu o tivesse como referência. E até hoje é assim. Se na infância era por vacância da vaga de pai deixada pelo meu pai, e que durante um bom tempo eu sustentei a ilusão de que seria preenchida por quem de “direito”, com o passar dos anos passou a ser por tudo aquilo que meu padrinho fazia, não só por mim, mas por toda a família.

 

Não é novidade dizer que os meninos pretos crescem com uma constância assustadora sem a figura do pai, seja por qual motivo for. Que ainda hoje muitas crianças não têm em seu documento de identidade o nome do pai (eu fui uma delas até meus quinze anos de idade), mais de 5 milhões conforme dados do Conselho Nacional de Justiça – CNJ. Mas será que esses meninos que cresceram sem pai hoje se tornaram pais melhores? Será que eu sou um pai melhor do que o meu pai não foi para mim? Essa pergunta também perpassa a minha história de vida. 

 

A única certeza que eu tinha na sexta série, fase em que a maioria dos questionamentos sobre a paternidade do meu pai começaram a martelar a minha mente, era de que eu jamais abandonaria o meu filho. De minha parte, eu me esforço para estar o mais presente possível. Infelizmente muitas histórias não são assim.

 

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Há, na minha visão, a necessidade de não se reproduzir os erros cometidos no passado. Há a necessidade de os homens começarem a discutir sim sobre a paternidade e também sobre sua masculinidade. De assumirem suas responsabilidades e se colocarem como referência para meninos, garotos e jovens para que possamos quebrar esse ciclo.

 

O menino que eu fui não precisava só de uma referência de paternidade, mas também de masculinidade.  Referências essas que nem sempre estão concentradas na mesma pessoa. No meu caso elas foram, sim, concentradas na figura do meu padrinho. Quando me falavam que eu estava me tornando um homem, na minha cabeça vinha a questão: será que serei um homem como o meu padrinho é?

 

Eu entendo hoje, melhor do que quando criança, o esforço tremendo que minha mãe fazia para me proteger dessas questões. Mas no final das contas, a ausência do meu pai na minha vida não tinha como ser resolvida ou contornada por ela. Ela não é responsável por aquela falta.  Às vezes o que a criança precisa é apenas ser entendida. A escolha de quem serão nossas referências na infância não pode ser imposta. Eu escolhi meu padrinho como referência masculina e paterna de forma natural. E isso fez parte do amadurecimento da minha própria masculinidade.

 

Quanto ao barquinho, no final daquele dia, o plástico dele, sensível pela ação do tempo, rachara em algumas partes fazendo com que o barco perdesse sua função social para brincar na água. Eu confesso que fiquei um pouco chateado com isso, mas passado algum tempo percebi que o plástico daquele barco, fragilizado pelo tempo, no final das contas, era muito mais forte do que a relação que eu tive com o meu pai. Durou muito mais tempo. O barco nunca mais voltou para a prateleira, hoje vive esquecido em algum lugar da casa. Assim como a memória das poucas vezes que eu encontrei meu pai. 

 

Diametralmente opostos a estes estão os momentos que vivi ao lado do meu padrinho, melhor substituto de paternidade e de masculinidade que a vida poderia ter me dado. 

 

 

Gabriel Alex Pinto de Oliveira é advogado, pós-graduando em Gestão Financeira e Econômica de Tributos pela Fundação Getúlio Vargas – FGV, pós-graduado em Direitos Fundamentais pela Universidade de Coimbra em parceria com o Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM, bacharel em Direito pala Universidade Presbiteriana Mackenzie, com experiência na área de Direito Tributário e no estudo das relações étnico-raciais afro-brasileiras.


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